Eduardo Asta
Eduardo Asta

20 dias de caminhão na África

É preciso aprender com os moradores a desacelerar para, em ritmo lento, absorver as experiências desta aventura de 20 dias a bordo de um caminhão, por sete países, de sul a leste do continente

Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 05h00

Há viagens que exigem um coração mais aberto. Certa destreza para absorver cenas que não estão em nossa biblioteca mental. Habilidade para assimilar a beleza de culturas nunca construídas pelo nosso imaginário. Percorrer de caminhão 5.312 quilômetros do extremo sul ao leste do continente africano é este tipo de viagem. Num roteiro da África do Sul à Tanzânia, corta-se sete países com paisagens, povos e costumes distintos. São 20 dias de descobertas unidas pela estrada. Porque a África que se vivencia por terra, meu amigo, é bastante diferente da ideia de África que você traz de casa.

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Botsuana equilibra-se entre a secura de áreas desérticas e a abundância do Delta do Okavango. A Namíbia, que neste roteiro funciona como um atalho, possui rodovias muito melhores do que as do Estado do Rio de Janeiro. Delimitados pelas gigantescas Cataratas Vitória, o Zimbábue e a Zâmbia contam com cidades tão moldadas para o turismo que poderiam estar na Flórida. O pequenino e pobre Malauí é banhado pelo imenso e rico lago batizado com seu nome. É tanta água que parece um mar, e a outra margem não se vê.

A maioria das descobertas se dá com os pés no chão. Em paradas para explorar vilarejos, percorrer trilhas, conversar com moradores e embarcar em obrigatórios passeios guiados. As refeições sempre feitas a céu aberto e as noites dormidas em barracas – é possível trocar por quartos, pagando mais – complementam a experiência “África real”. Pois diferentemente de nós, os povos de lá estão acostumados a espantar os babuínos que tentam roubar pães do café da manhã, a almoçar sob o sol escaldante e a serem despertos na madrugada com o grunhido de hipopótamos.

Uma aventura de caminhão, porém, não se limita aos destinos visitados. Ela tem a estrada como componente adicional, e aqui ela merece ser promovida de cenário a personagem. Daqueles cheios de cores e atitude, que surpreendem, divertem e empolgam. Mas também sabem entediar e até provocar, mostrando a vida como ela é.

Logo se percebe que esta porção do mundo funciona num ritmo próprio. Um ritmo ainda bastante ligado à natureza, em que a luz solar determina as horas de trabalho e palavras como prazo e pressa dificilmente encontram espaço. Portanto, é preciso também entrar no compasso local para aproveitar as vivências que essa jornada proporciona. Ir devagar, dar passos curtos, relaxar. Pois como dizem por lá, nós, os brancos, podemos ter o relógio, mas os africanos, meu amigo, são os verdadeiros donos do tempo. 

Caminhão tem cozinha e até ‘bar’

Pense no carro do professor Bugiganga em versão caminhão. O veículo da Nomad Tours é mais ou menos assim. São tantos compartimentos e portinhas escondidas que até no último dia de viagem você descobre algo que não sabia. A empresa explica que foram muitas as tentativas e as adaptações feitas até chegar no modelo atual, que acomoda confortavelmente 22 viajantes, um guia e um motorista. 

Cada um do grupo tem direito a um locker, com espaço suficiente para um mochilão dos grandes, de 75 litros. Os assentos contam com bolsões individuais e, importantíssimo, portas USB para carregar celulares e afins sempre que o veículo está ligado.

Por fora, um lado do caminhão é para guardar tralhas de camping: barracas, capas, colchonetes, cadeiras e ferramentas. No outro fica o kit cozinha com fogão, gás, utensílios e comida. O veículo conta ainda com um espaço na traseira desenhado para encaixar duas mesas de ferro de mais de dois metros cada. E tem um reservatório para água, usada para cozinhar ou lavar louças em paradas nas estradas.

É de praxe reservar um tempo a cada três dias para a compra de alimentos. E a geladeira com freezer instalada no interior do veículo ajuda bastante nessa logística. Enquanto o guia cuida da lista de comidas, os viajantes ficam livres para comprar lanchinhos, água ou bebidas alcoólicas, que são colocadas num cooler no fundo do caminhão. Abastecido regularmente com gelo pelo guia, dá para dizer que o veículo tem até bar próprio.

Burocracia e afins

1. Vistos

Não é exigido dos brasileiros na África do Sul, em Botsuana e na Namíbia. Os demais países pedem o documento, que pode ser solicitado nas fronteiras – gasto extra de US$ 205 a serem pagos em dinheiro vivo.

2. Línguas 

Todos os países do roteiro têm o inglês como língua oficial, mas não é todo mundo que você encontra pelo caminho que fala o idioma. Se preciso, peça ajuda do guia. 

3. Dinheiro 

Cada país tem a sua moeda e você pode fazer saques em caixas eletrônicos ou usar casas de câmbio. Alguns deles aceitam dólares, rands (da África do Sul) e até moedas de nações vizinhas. A exceção é o Zimbábue, que não têm moeda própria – portanto, não dá para usar caixas eletrônicos – e aceita pagamentos em dólares, rands, euros e pulas (de Botsuana). Em sua maioria, restaurantes e bares, mesmo os dentro dos campings, podem ser pagos com cartão de crédito, mas é bom ter um pouco de dinheiro em espécie para comprar nos mercados abertos e dos vendedores ambulantes nas estradas.

4. Vacinas 

É exigida apenas a contra febre amarela – que deve ser tomada em dose completa no mínimo dez dias antes da viagem. Leia todas as informações: bit.ly/viafebre.

5. Malária 

O roteiro passa por áreas onde a doença é recorrente, então invista em repelentes poderosos.

Saiba mais

Quem leva: com sede na África do Sul, a Nomad Tours é a maior empresa de turismo overland do continente. O trajeto de Johannesburgo a Dar-es-Salaam é operado o ano todo e também pode ser feito no sentido contrário. 

O pacote tem 20 dias de duração e inclui todos os trajetos no caminhão, os campings (há também a opção de se hospedar em quartos, por US$ 723 a mais), refeições e acompanhamento de guia; custa a partir de US$ 2.382 por pessoa. 

A empresa vende à parte um pacote de atividades que, na verdade, é essencial para explorar os destinos do roteiro, por mais US$ 819 adicionais. Não inclui aéreo. 

Leia mais: Todas as dicas do Viagem para quem viaja para a África

 

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Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 04h25

Talvez seja proposital: o primeiro dia de viagem é gasto todo dentro do veículo, como um processo de adaptação necessário aos que embarcam nessa aventura. Partindo de Johannesburgo, na África do Sul, são 600 quilômetros até Kang, em Botsuana, a parada de estreia do tour. Durante o trajeto, percorrido em cerca de dez horas (o tal ritmo africano…), há tempo de sobra para se familiarizar com a estrada, os outros turistas — o grupo pode ter até 20 pessoas — e o caminhão, parte importantíssima da jornada (leia mais no link).

É de suas janelas que percebe-se a mudança gradual da paisagem urbana para a rural, em que o céu é mais azul, o sol brilha incansável e as árvores de acácias tornam-se onipresentes. Esta composição paisagística, quase um símbolo de Botsuana, será constante ao longo dos sete dias de viagem pelo país.

Grande em território, porém pouco habitada (tem apenas 2 milhões de habitantes), o país é um dos mais desenvolvidos do continente – tem o sexto maior IDH da África. Após sua independência do Reino Unido, em 1966, estabilizou-se democraticamente via exploração de diamante. Mais tarde, enxergou o potencial de seu ecossistema misto, e hoje a indústria turística é sua segunda maior fonte de renda. Nosso roteiro contempla as três grandes belezas naturais do país: o Deserto do Kalahari, que ocupa 70% de sua área, o Delta do Okavango e o Parque Nacional do Chobe.

Tradições vivas. É quando o caminhão entra nas estradas de terra que partem da cidade de Ghanzi que fica claro que muita gente chama o Deserto do Kalahari de lar. São tribos de bushmen, descendentes dos povos San, os primeiros a habitarem o sul da África. 

Apesar do modo de vida nômade ter ficado para trás – atualmente, vivem em vilarejos –, estes grupos continuam sendo caçadores excepcionais e mantêm ricas tradições ancestrais. Numa caminhada pela mata desértica, o guia Kaoga, da etnia Naro, conhece e sabe a utilidade de cada planta no caminho. “A natureza é nosso supermercado e nosso hospital”, afirma, em inglês e em sua língua nativa, que tem divertidos sons de “clicks" na pronúncia. Ele também mostra armadilhas usadas no passado e no presente para capturar de roedores a zebras. Hoje, as tribos dedicam-se à agricultura de subsistência, algo nunca feito pelos ancestrais.

Os bushmen acreditam na força do canto e da dança para chamar a chuva e proteger seus corpos de doenças. Nestes rituais, todos participam. As mulheres e as crianças começam sentadas ao redor da fogueira, soltando a voz e batendo palmas, enquanto os homens dançam em movimentos circulares. Depois de aquecidos, a cantoria ganha alguns decibéis e eles se revezam na “pista”. Segue assim até o sol nascer.

Labirinto natural. Também há povos nativos remanescentes no Delta do Okavango. A maioria dos que ficaram – quando foi decretada área de conservação nacional, cerca de 30 anos atrás, o governo incentivou as pessoas a deixarem o local – hoje se dedica ao turismo. São funcionários de lodges, motoristas e sobretudo guias nesse Patrimônio Mundial da Unesco.

O primeiro contato com o delta se dá num passeio de barco pela lagoa que banha o acampamento. É apenas uma das várias que compõem o ecossistema, considerado uma das maiores concentrações internas de água doce do mundo – um emaranhado de lagoas, canais e ilhas flutuantes alimentado pelas águas do Rio Okavango, que nasce nas terras altas de Angola e ali se concentram, sem nunca alcançarem o mar. O equilíbrio do nível d’água se dá apenas por meio da evaporação e transpiração das plantas.

Ao inundar as planícies secas do Kalahari, o delta deu origem a um manto fértil essencial para a vida na região. Estima-se que existam por ali 120 espécies de mamíferos, 60 de répteis, 70 de peixes e 400 de aves. Hipopótamos, águias e crocodilos têm nas temporárias ilhas de papiros suas moradas. São figurinhas fáceis.

A experiência delta adentro começa cedo na manhã seguinte, em um mukoro. Antes construída a partir de um único tronco de árvore, a canoa local agora é feita de fibra de vidro – pois também se salvam árvores em Botsuana. Os rasos e estreitos canais, como um labirinto, são emoldurados por camadas altas de papiros e enfeitados durante todo o ano por lírios d’água brancos e azuis. Uma composição que Monet certamente gostaria de ter pintado.

Leia mais: Os destaques da casa e do Jardim de Monet, em Giverny, na França

Terra dos gigantes. Seguimos pela estrada rumo ao extremo norte do país para cruzarmos a fronteira com a Namíbia. A nação vizinha só é contemplada neste roteiro por estar no meio do trajeto mais curto até o portão principal do Parque Nacional do Chobe, de volta em Botsuana. Graças às ótimas rodovias da Namíbia – herança da infraestrutura instalada pelos alemães na época de sua colonização –, a jornada é bastante agradável. E tem como pontos altos os impalas e kudos que cruzam as vias livremente.

Essas mesmas espécies são vistas aos bandos no Chobe, o mais antigo parque nacional de Botsuana, fundado em 1954. Num dia de sorte – e com um bom guia –, veem-se pássaros tão bonitos quanto o mergulhão-serpente e o pequeno roleiro-de-peito-lilás. Além de hipopótamos, búfalos, javalis, crocodilos e girafas. Mas a cena que marca o safári, aqui, é protagonizada pelos elefantes, que se espalham pela planície em grupos de 20, 30 indivíduos. São mais de 50 mil habitando as redondezas do parque – acredita-se que a maior concentração de elefantes de toda a África. São os verdadeiros donos do pedaço.

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As poderosas quedas d'água do Zimbábue

Na cidade de Victoria Falls, detentora do título de Capital da Aventura na África em reportagens e listas mundo afora, o ponto alto são as atividades radicais do Rio

Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 04h20

Welcome to the new Zim!”, “bem vindo ao novo Zim!”. É assim que os zimbabuanos têm dado as boas-vindas aos turistas desde que Robert Mugabe foi deposto da presidência, em dezembro. A queda do ditador, depois de 37 anos, criou uma atmosfera de esperança: Emmerson Mnangagwa, novo líder de Estado (e ex-vice de Mugabe), prometeu milagres para por fim à corrupção que estagnou a economia nas últimas décadas. 

Pisar em Victoria Falls, porém, dá a falsa impressão de que não existe muita estagnação, não. A cidade – no extremo oeste do país, na divisa com a Zâmbia –, tem infraestrutura fora do comum para padrões africanos. Ruas em sua maioria asfaltadas, shoppings no estilo norte-americano, restaurantes com menus ocidentais e hotéis de rede sempre cheios. Com tudo isso, Victoria Falls é de longe o destino mais caro do nosso roteiro. 

É assim desde a década de 1990, quando o Zimbábue recém independente do Reino Unido começou a explorar o potencial turístico da gigantesca cachoeira que dá nome à cidade. Alimentadas pelas águas do Rio Zambezi, as Cataratas Vitória são formadas por um impressionante conjunto de quedas alinhadas ao longo de 1,5 quilômetro. Chegam a ter 108 metros de altura. 

Visitá-las é um passeio semelhante ao que fazemos na nossa Foz do Iguaçu. O Parque Nacional tem longos trajetos a serem percorridos a pé e 16 mirantes para apreciar as quedas de todos os ângulos possíveis. Leve capa de chuva se não quiser deixar o local encharcado, especialmente na época das chuvas, de dezembro a março.

Se ver de perto esse Patrimônio Natural da Humanidade é impressionante hoje, imagine o que sentiu David Livingstone em 1855. O missionário escocês foi o primeiro explorador branco a vislumbrar as cataratas, até então chamadas de “a fumaça que troveja” pelo povo nativo Kololo. Como bom seguidor da cartilha dos europeus exploradores, Livingstone não teve dúvidas: reportou a “descoberta” à família real do Reino Unido e a rebatizou em homenagem à sua rainha.

Para os fortes. A cidade de Victoria Falls também tratou de investir no potencial para atividades radicais do Rio Zambezi. Vira e mexe recebe o título de Capital da Aventura na África em reportagens e listas mundo afora.

Há um fluxo constante de gente em pontos criados especificamente para fazer a adrenalina subir. Um deles é a Ponte Victoria, via que liga o Zimbábue à vizinha Zâmbia. É dali que os mais corajosos se jogam no bungee jumping e na tirolesa, com o rio ao fundo. 

Cair literalmente no Zambezi também é uma opção: basta encarar o rafting. A atividade mais vendida pelas empresas turísticas locais é classificada como nível 5 e considerada uma das mais radicais do mundo. Prepare seu coraçãozinho. 

O bote cumpre um percurso de 15 quilômetros rio abaixo, em quatro horas. As altas montanhas que delimitam o rio formam uma paisagem lindíssima, que você às vezes vai deixar de reparar por colocar toda a atenção nas 13 corredeiras do trajeto, com nomes autoexplicativos: máquina de lavar, dia do julgamento, vaso sanitário do diabo. Sua habilidade com o remo e sua disciplina em seguir as instruções do guia estarão sempre à prova. Em alguns casos, entretanto, não há força ou jeito que faça você permanecer dentro do bote. 

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Um lado rústico, Zâmbia

Entrar no país é deixar as facilidades da África setentrional e se aventurar na oriental. Visita ao Parque Nacional Luangwa do Sul é obrigatória para quem quer ver os big five: elefante, leão, búfalo, rinoceronte e leopardo

Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 04h15

Sair do Zimbábue e entrar na Zâmbia é deixar as facilidades da África setentrional para se aventurar na África oriental. Estradas, paisagens e campings ficam mais rústicos, muitas vezes precários. De novo, um longo dia de viagem parece moldado para deixar os viajantes sentirem e absorverem, no ritmo local, esta outra realidade que se abre.

De Victoria Falls a Lusaka, capital da Zâmbia e próxima parada, são 490 quilômetros rodados em estradas ora aceitáveis, ora terríveis. Pelas condições das vias e os entraves na fronteira, a jornada dura mais de dez horas. Sorte que existe todo um mundo novo passando pela janela do caminhão. 

A primeira coisa que se nota é a vida organizada ao longo das rodovias. A concentração populacional está na capital, ao norte, nas áreas de extração de cobre, produto número um da economia nacional. No sul, as famílias se organizam em vilarejos posicionados de forma a facilitar a venda de produtos agrícolas. Frutas e verduras cultivadas em pequenas roças e frangos (vivos, obviamente) são mercadorias oferecidas nas estradas. Eis o primeiro contato com os coloridos e apaixonantes mercados da África oriental.

Conforme o caminhão avança, outros deles aparecem, marcando a existência de cada uma das vilas. Além dos produtos serem sempre os mesmos – mangas, abacaxis, bananas, repolhos e cebolas –, outra característica que têm em comum é a predominância de mulheres. Elas fazem a função de vendedoras antes ou depois de cuidarem do roçado, da casa, dos filhos. 

Em paralelo, percebe-se também o vaivém constante de ciclistas e andarilhos, agora homens em sua maioria, na mesma estrada que os veículos usam – acostamento é coisa rara. Os africanos dos vilarejos estão sempre em movimento. Vão, no seu compasso, aonde há trabalho hoje. E assim a vida segue, um dia depois do outro.

Bicho por todo lado. Em nosso roteiro, Lusaka funciona só como uma parada-dormitório, assim como Petauke, cidade alcançada após outros 230 quilômetros percorridos. É só no terceiro dia de Zâmbia que chegamos ao destino que coloca a nação no mesmo nível de experiência de vida selvagem que as famosas e cobiçadas África do Sul e Tanzânia.

Com 9 mil quilômetros quadrados, o Parque Nacional Luangwa do Sul deveria constar no mapa de toda pessoa que viaja a fim de ver os big five: elefante, leão, búfalo, rinoceronte e leopardo. Com exceção do rinoceronte, que foi extinto dali no fim da década de 80 por conta da caça predatória, os outros integrantes do grupo habitam o território em números consideráveis.

Sem cercas, o parque é delimitado de um lado por uma cadeia de montanhas e do outro pelo Rio Luangwa, que deságua no Zambezi, aquele do Zimbábue. A presença do rio aumenta o interesse dos animais pela área, que também apresenta grande quantidade de hipopótamos e crocodilos. São 60 espécies de mamíferos e 400 de pássaros.

O safári pelo parque garante também fotos de bichos fofos, como impalas, pukus, zebras e girafas. Fomos ainda surpreendidos por um grupo de uns 30 cachorros selvagens. A espécie, que já foi comum em toda a África subsaariana, atualmente está ameaçada de extinção – estima-se que existam pouco mais de seis mil indivíduos em todo o continente. Ver um grupo deste tamanho é mesmo um presente.

O encontro com animais continua noite adentro, mesmo depois de deixarmos o parque. O lugar do pernoite é o camping Wildlife, na beira do Rio Luangwa, funcionando, assim, como uma espécie de corredor para os animais que vão se banhar e beber água. Espere ver impalas, zebras e javalis correndo em grupos no caminho entre a barraca e o banheiro. Espere ainda escutar o grunhido de hipopótamos e o bramido de elefantes durante a madrugada. E, pela manhã, prepare-se para defender pães, frutas e até xícaras de café dos divertidos babuínos, que acordam com fome e prontos para o ataque.

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Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 04h10

Espremido entre Moçambique, Zâmbia e Tanzânia, o Malauí é uma tripa de país sem saída para o mar. Mas com praia. Por conta do gigantesco lago que leva seu nome – com 580 quilômetros de comprimento, ocupa um quarto do território –, vem atraindo turistas a fim de cair em suas águas sempre quentes e relaxar com pés nas areias finas das margens. Nosso roteiro contempla duas praias, porque é hora de abusar do dolce far niente.

São 270 quilômetros (quatro horas) do Parque Nacional Luangwa do Sul até a Praia de Ngala. O primeiro contato com aquela abundância de água faz pensar que se está diante do mar. A outra margem, já território moçambicano – o lago ainda banha a Tanzânia –, não se vê. As águas parecem refletir o azul do céu, de tão límpidas.

A comparação com o céu não é nova. Acredita-se que os portugueses foram os primeiros europeus a avistarem o Lago Malauí, em 1846, mas foi David Livingstone (sempre ele) que levou a fama do “achado”, em 1859. Já era noite quando o explorador escocês ali chegou, e, ao ver a luz das lanternas dos barcos de pescadores nativos, achou aquilo tão lindo quanto as estrelas. A semelhança rendeu apelido: Lago das Estrelas.

Até hoje, o brilho das lanternas dos barcos pode ser visto desde a areia. Farto em peixes, o lago é a principal fonte de alimento da população ribeirinha e de muitos pescadores sazonais, que moram longe e migram apenas na época de pesca. Se enchem as redes, engatam uma cantoria e dançam na areia. Faz parte da tradição.

Dá para ouvir mais gente cantando durante o tour pela vila de Ngala, vizinha à praia. As músicas vêm das igrejas ou das bocas de crianças que brincam nas ruas. No Malauí, por onde se olha lá estão elas. Ainda na lista dos dez mais pobres do mundo – seu PIB per capita é de US$ 894 –, o país contabiliza 6,8 milhões de crianças, mais da metade da população. Pesquisas indicam que um casal tem, em média, oito filhos, o que fez com que o governo pedisse ajuda internacional para ações de planejamento familiar.

Como a maioria dos pequenos não está acostumada ao contanto com brancos, espere olhares, acenos e sorrisos. Responda aos acenos, devolva os sorrisos e, para, presenciar cenas de êxtase, faça fotos delas com o celular. 

Dentro e fora d’água. Chitimba, a segunda praia do roteiro, fica no extremo norte do país, a 300 quilômetros. O percurso dura mais quatro horas, com a vantagem de estar quase sempre margeando o Lago Malauí. Seu ponto alto é a vista dele do topo de uma montanha, com direito a babuínos que habitam a área. Mais uma chance de se surpreender com o tamanho e a abundância de água.

Nadar, caminhar na areia, ler na rede e tomar sol continuam sendo as atividades da vez. Mas o lugar oferece opções para quem quer mexer um pouco mais o corpo, como andar de caiaque, velejar e mergulhar com snorkel nas águas supertransparentes. 

Para o snorkeling, é preciso ir de barco até uma das ilhas, ricas em rochas que servem de hábitat para diferentes peixes. Os ciclídeos são os mais comuns, com centenas de cores, alguns fluorescentes e outros listrados. Eles ganharam fama mundo afora com o simples nome de “peixe Malauí”. 

É possível se aventurar na caminhada de seis horas montanha acima até Livingstonia. Também há como chegar à cidade de carro, em 45 minutos. Fundada em 1894 por missionários escoceses, o que se vê hoje são igreja, escola e hospital da época colonial. Mas a visita vale mesmo por mais uma panorâmica do Lago Malauí, especialmente bela no fim do dia.

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Verde é a cor mais forte na Tanzânia

Plantações dos principais produtos agrícolas tanzanianos e regiões gigantescas de mata nativa em planícies e montanhas dão o tom dos belos cenários vistos da janela

Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 04h05

Era difícil acreditar que o término da viagem se aproximava sem nenhum perrengue típico de estrada. Pois ele veio, e no dia em que teríamos pela frente o percurso mais longo do roteiro. Graças às más condições das rodovias do Malauí, um pneu do caminhão estourou pouco depois de deixarmos Chitimba. Fato que nos fez vivenciar mais uma característica africana: a camaradagem. Todos que passaram por nós ofereceram ajuda, inclusive as crianças. Forças unidas, novo pneu instalado, veículo de volta ao trajeto até Iringa, primeira parada na Tanzânia

Chegamos à cidade após longas 14 horas de jornada. Um trajeto exaustivo, mas feito entre belos cenários vistos da janela. Plantações dos principais produtos agrícolas tanzanianos, como tabaco, chá, coco e castanha de caju – a exportação deles é a atividade econômica número um do país. Cultivos de sisal. Regiões gigantescas de mata nativa em planícies e montanhas, afinal, quase 40% do território nacional é formado por áreas de conservação. O verde é a cor predominante. 

A exceção é o Vale dos Baobás, em que se nota o degradê de tons, do amarelo ao marrom. As árvores de largos e compridos troncos são típicas da savana, onde a vegetação é mais rasteira e a areia, onipresente. Acredita-se que as desta região tenham mais de mil anos, o que significa que seus frutos e folhas já serviram de alimento e matéria-prima para várias gerações. Admirar o conjunto delas, com as altas montanhas como pano de fundo, é ver um cartão-postal africano in loco.

Savana clássica. Iringa é mais uma cidade-dormitório do roteiro, cuja última atração é o Parque Nacional Mikumi, distante 190 quilômetros. Com boas estradas, o trajeto poderia ser feito em duas horas, não fossem as rígidas leis de trânsito da Tanzânia. É comum que as rodovias tenham velocidade máxima permitida de 50 quilômetros por hora e radares e policiais por todas as rotas. Reserve, então, quatro horas.

Apesar de não estar no circuito turístico norte, conhecido por nomes como Serengeti, Kilimanjaro e Ngorongoro, o parque da região Sul da Tanzânia cumpre muito bem as expectativas dos visitantes. Nas nossas boas vindas, ainda antes do portão principal, um búfalo quase morto agonizava a uns 20 metros da estrada. Ao lado, dois leões esticavam seus corpos na sombra de uma moita, só no aguardo do calorão passar para abocanhar a refeição fresca.

No parque, mais leões, outros búfalos (vivos), girafas, elefantes, impalas e zebras deram as caras no safári de um dia inteiro. Com 3.230 quilômetros quadrados de área, o Mikumi é o quarto maior parque do país – são 18 no total – e vizinho do líder do ranking, a Reserva do Selous. Com mesmo ecossistema, os dois abrigam famílias de animais em comum, que migram de um para o outro a depender da época do ano.

Mikumi ganhou recentemente duas lagoas artificiais que logo se transformaram em piscinas de hipopótamos, por nunca secarem e não serem muito profundas – a espécie, que não é tão boa nadadora quanto se imagina, prefere águas rasas. Instaladas numa região de savana, as lagoas viraram o ponto final de todo tour, para ninguém deixar o local antes de ver o sol se pôr na mais tradicional paisagem africana.

Nossa despedida de Mikumi foi na manhã seguinte. Encaramos a estrada pela última vez: foram 340 quilômetros em seis horas até Dar-es-Salaam, maior cidade e antiga capital da Tanzânia – perdeu o posto para Dodoma em 1973.

Dessa vez, acompanhamos aos poucos, naquele mesmo ritmo africano, os cenários isolados ganharem contornos urbanos. O fluxo de veículos na estrada aumenta, a quantidade de pessoas indo pra lá e pra cá. Os mercados, antes improvisados, agora têm estruturas de concreto. As igrejas perdem o protagonismo para as mesquitas. E outdoors eletrônicos, cheios de brilho, transportam-nos para o “mundo desenvolvido”. 

É mais uma África que temos diante dos olhos. Completamente diferente daquela ideia que trazemos de casa.

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