Bruna Tiussu/Estadão
Bruna Tiussu/Estadão

A alma jovem de uma respeitável senhora

As placas pareciam escritas em um dialeto italiano qualquer, com vários termos compreensíveis. O famoso Arco do Triunfo parisiense tinha ali um irmão idêntico no design, menor em dimensão, também instalado em um cruzamento de ruas. Que eram cortadas, no subterrâneo, por uma porção de linhas de metrô onde corriam trens grafitados e cheios de jovens descolados, que caberiam perfeitamente nas paisagens de Berlim ou Londres.

BRUNA TIUSSU / BUCARESTE, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2013 | 02h12

Mas eu pisava em solo romeno. Especificamente no da capital, Bucareste, que logo ganhou espaço na minha memória de viajante justamente por sua inesperada miscelânea de estilos.

É no centro antigo que a arquitetura melhor estampa as múltiplas influências que a cidade sofreu. Habitada lá atrás por comerciantes e artesãos vindos da Áustria, Grécia, Bulgária e Armênia, acabou abrigando prédios com estilos tão diversos quanto barroco, neoclássico e art nouveau. Muitos ainda bem conservados, cada um com seu charme, fazem da região a mais simpática para ser explorada a pé.

Bares, restaurantes, galerias de arte e lojas hoje ocupam a maioria dos edifícios, que vez ou outra perdem destaque para construções mais grandiosas. Caso dos símbolos locais que ocupam a Calea Victorei, uma das ruas principais da capital. O Banco Nacional chama a atenção com suas colunas coríntias e belos domos, mas é o Ateneu, pouco mais adiante na via, que merece mais do seu tempo. De 1888, tem pilastras de mármore rosa, escadas em espiral e adornos coloridos (até folhas de ouro) no chão, paredes e teto do hall de entrada. Com acústica invejável, a sala de concertos é chiquérrima, e decorada com afrescos que contam episódios históricos do país.

Durante as andanças pelo centro, é fácil chegar a pensar que existe uma igreja para cada quarteirão. É quase isso, elas estão mesmo por toda a parte. Duas delas realmente valem uma visita rápida: a Stavropoleos, pequenininha e linda por dentro, com detalhes de madeira e pedra; e a Old Princely Church, a mais antiga de Bucareste, de 1591, que conta com um modesto museu ao lado.

Por outras áreas do calçadão e praças é a presença dos jovens que se destaca. Como a universidade fica logo ali, o centro acaba funcionando como uma extensão do câmpus. Ora arriscando manobras com seus skates, ora ocupando as mesas dos bares, dão um toque de vivacidade que faz toda a diferença naquele ambiente antigo. Na dúvida de qual restaurante escolher para o almoço, pergunte a algum deles: difícil quem não fale inglês.

Foi assim, inclusive, que fui parar no Caru'cu Bere (carucubere.ro), uma mistura de restaurante e cervejaria que é ponto de encontro de intelectuais desde sua inauguração, em 1879. A propaganda feita é que se tratava do melhor lugar para experimentar a culinária romena. O cardápio, imitando um jornal de época, realmente traz infinitas opções de especialidades locais. Optei por uma das sugestões do garçom. Me recordo até hoje do sabor do guisado da Moldávia servido com ovo pochê e polenta que provei ali (o prato custa 34,50 leis ou R$ 21).

Megalomania. No geral, os romenos falam do Palácio do Parlamento com desdém. Também, pudera. De tão recente - começou a ser construído em 1984 e foi inaugurado em 1989 -, não é preciso ter idade avançada para lembrar as circunstâncias da sua criação.

Para que o edifício hoje considerado o 2.º maior prédio administrativo do mundo (atrás apenas do Pentágono, nos Estados Unidos) pudesse ser construído, o então líder do Partido Comunista, Nicolae Ceausescu, ordenou a demolição de inúmeros prédios que ocupavam a área. Foram nada menos que 3 mil residências, 20 igrejas ortodoxas, 3 protestantes e 6 sinagogas.

Depois, deu início à obra que acabou virando marca de sua megalomania, envolvendo no projeto 20 mil trabalhadores e 700 arquitetos. A história da obra registra ainda exigências como a de usar apenas materiais originais da Romênia e lustres com até 7 mil lâmpadas.

O fato sarcástico disso tudo é que o regime comunista foi deposto e Ceausescu, executado pouco antes de poder utilizar o edifício como residência e sede de seu governo. E o que havia sido idealizado para ser símbolo do comunismo logo se tornou lar do governo republicano: pouco tempo depois, o novo parlamento se instalou ali, e hoje o edifício também serve como um grande centro de conferências.

Turistas podem visitar o palácio, sempre na companhia de um guia (desde 50 leis ou R$ 29,60 por pessoa). Apesar de o tour mostrar menos de 5% de toda sua extensão - são 12 andares e 1.100 salas -, os adornos nas paredes e tetos, as janelas gigantescas e mobílias superelegantes dão uma ideia do tamanho da pretensão do tal líder. Mais informações: romaniatourism.com.

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