Vivian Codogno/ Estadão
Vivian Codogno/ Estadão

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2018 | 05h00

De Auckland

Por volta das 17h, o sol ainda queima as pernas que caminham expostas pela Ponsonby Road, localizada em um dos bairros mais boêmios de Auckland. Na calçada, entre ateliês e estamparias, uma caixa cheia de abridores de garrafas sem etiqueta de preço chama a minha atenção. Um homem nem tão velho, nem tão jovem, abre a porta. Pergunto se estão à venda e ele me convida a entrar no que percebo ser um antiquário. Sobre uma escrivaninha, ele corta um maço de brócolis. Que se segue por um pepino. Finalmente, responde: “25?”. Arrisco retrucar: “20?”. E ele devolve: “No. 25”. 

Bastam alguns bordejos pela cidade para assimilar que a recepção desajeitada, mas permeada por uma atmosfera tão autêntica quanto hipster, será uma regra divertida durante qualquer temporada na Nova Zelândia. Apesar de não ser a capital do país, cargo dado a Wellington, Auckland é a maior cidade em população, com 1,4 milhão de habitantes, e porta de entrada para os voos que chegam da América do Sul. 

Do Brasil, a forma mais rápida de chegar à terra dos kiwis – da fruta, do pássaro e dos neozelandeses, assim chamados – é por voos da Air New Zealand, com conexão em Buenos Aires, operação que começou em 2015 com três voos semanais. Ao todo, são cerca de 16 horas de viagem (13 horas ininterruptas). O aumento da procura por passagens durante o verão, porém, cresceu tanto que, até 13 de março, a companhia passou a oferecer cinco saídas semanais. 

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Forasteiros. O país comemora o aumento no número de viajantes da América Latina no último ano. Entre novembro de 2016 e novembro de 2017, o Brasil enviou 17.014 turistas para o país, crescimento de 30% em relação ao ano anterior. Da Argentina, aterrissaram 17.664 visitantes, aumento de 24%, e do Chile, 8.928, 16% a mais.

Dividido em duas ilhas, a Norte e a Sul, o país tem em seu território fragmentado 4,5 milhões de habitantes e, no turismo, é visto como o quintal da Ásia, de onde chegam grande parte dos visitantes. Por lá, os primeiros gritos de terra à vista foram dados pelos maoris, vindos da Polinésia, seguidos pelos ingleses, que colonizaram o país. Alemães, holandeses e escoceses também colaboram para a formação do sotaque local que, a princípio pode ser difícil de decifrar. Mas não se preocupe: uma população com expectativa de vida de 82 anos não tem pressa em repetir o que não entendemos.

Durante dez dias, exploramos, além de Auckland e seus arredores, dois destinos da Ilha Sul, a parte mais desabitada do país: Nelson, conhecida como a “cidade ensolarada”, e Wanaka, que tem sua história contada pelas variações de tempo e clima entre as estações. Esquisitices à parte, é roteiro suficiente para responder com a boca cheia a todas as vezes que alguém perguntar: “Mas você vai fazer o quê tão longe?”. 

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Como ir: não há voos diretos do Brasil para a Nova Zelândia. Com conexão, o voo SP – Auckland – SP custa a partir de R$ 3.421 na Latam , US$ 2.101 na Air New Zealand e R$ 4.786 na Aerolineas Argentinas

 Visto: não é necessário

 Site: newzealand.com 

 

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Concentre a diversão durante o dia em Auckland

A maior cidade da Nova Zelândia pode decepcionar visitantes que esperam uma vida noturna badalada, mas durante o dia, há uma infinidade de passeios para se fazer

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2018 | 04h30

Para quem deseja reavaliar conceitos de deslocamento, nada como as cerca de 16 horas de trajeto que separam São Paulo e Auckland, que está 15 horas em fuso horário à frente do Brasil. A sensação de viagem no tempo só é amenizada depois de alguns dias de ambientação e, para isso, a maior cidade neozelandesa tem papel fundamental. 

Auckland pode decepcionar os visitantes que esperam uma vida noturna badalada, já que por lei todos os estabelecimentos devem fechar até as 3h da manhã. E nem pense em ingerir bebidas alcoólicas em praças, parques e praias, sob o risco de ser detido. Talvez por essa razão, há uma infinidade de passeios para fazer durante o dia.

A primeira parada para qualquer turista que fez a lição de casa é a SkyTower. Com 328 metros de altura, a maior torre do Hemisfério Sul oferece uma vista panorâmica da cidade. Mas o passeio pode adquirir ares mais radicais (afinal, estamos na Nova Zelândia, não é mesmo?). Ali também e é possível optar por caminhar pela área externa a 192 metros do chão, por NZD 150 (R$ 350). Calma: cabos de segurança prendem quem se aventura nos arcos. Encaramos o desafio, com um inevitável frio na barriga, sem perder o encantamento pela paisagem. Outra opção é saltar (!) também a 192 metros de altura, em um cabo guiado até o solo – a experiência custa NZD 255 (R$ 600). Haja coração. 

Artes. Ainda na programação urbana, a Auckland Art Gallery reúne obras de figurões como Pablo Picasso e Paul Gauguin, mas há espaço para propostas mais, digamos, excêntricas. Caso da série de vídeos Lifting my mother for as long as I can (Segurando minha mãe enquanto eu aguentar, em tradução livre). Nela, o artista Campbell Patterson segura sua mãe no colo no dia do seu aniversário por alguns minutos, performance repetida todos os anos entre 2006 e 2012. 

A seção mais disputada é a que abriga os retratos maoris do pintor checo Gottfried Lindauer. Realistas, os quadros mostram as tatuagens usadas no rosto por esse povo – nos homens, os desenhos vão até a testa e, para mulheres, fica ao redor dos lábios e queixo. A entrada é gratuita.

Na saída da galeria, uma caminhada pelo Albert Park é boa pedida para quem deseja matar o tempo ou curtir o clima ameno da cidade sentado na grama, como fazem os locais pela manhã e na hora do almoço. Ainda nos arredores, a High Street e a Queen Street concentram o garimpo de souvenirs, lojas de roupas e cacarecos e cafés necessários para qualquer turista.

Surfe à vista. Se cansar de bater de perna em Auckland, que tal um passeio nos arredores? A 34 quilômetros dali, Piha é uma praia de areia escura (de rochas vulcânicas), queridinha dos surfistas. A água é cristalina, e a Lion Rock, uma grande pedra no centro da faixa de areia, deixa o visual único. No caminho, vale fazer uma parada para ouvir o som e nadar nas águas geladas da cachoeira Karekare

Um passeio que inclua ambos destinos pode ser feito pela empresa Bush and Beach por NZD 230 (R$ 540), por 6 horas de tour. Outra opção é alugar um carro e fazer o trajeto de forma independente. 

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Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2018 | 04h29

O primeiro dia de dezembro marca a chegada do verão para os neozelandeses. A data, claro, contraria o que acontece no resto do mundo, que recebe a estação no dia 21. O fato é que os moradores de Nelson, conhecida por ser a cidade mais ensolarada do país, ficam em polvorosa com a temporada de calor, tanto que se bastam a responder um “porque é assim” quando questionados sobre o verão antecipado. 

O clima praiano faz da cidade um convite a uma cerveja gelada, algo de que Nelson também se orgulha de produzir. A cervejaria McCashin’s, a mais antiga da região, vai além e deixa claro para cada cliente que não utiliza açúcar no processo de fermentação e tem própria captação de água. Para conhecer tudo de perto, é possível fazer um tour guiado por 30 dólares neozelandeses (R$ 70). 

A cidade é também o centro neozelandês do que eles chamam de “arte vestível”. Estilistas investem no desafio de produzir roupas modeláveis ao corpo com alguma informação artística, e se reúnem no WOW Awards Show todos os anos, em setembro. A competição, que premia o vencedor com NZD 170 mil (cerca de R$ 400 mil), tomou proporções tão grandes que precisou ser transferida de Nelson para Wellington. Os melhores trabalhos ficam expostos no World of WearableArt (WOW) e a fama só fez aumentar depois dos rumores de que Lady Gaga seria fã do concurso. O resultado pode variar entre o assustador e o engraçado, mas os NZD 24 ( R$ 56) da entrada do museu rendem uma ótima história de viagem.

A quem passar por Nelson em um sábado, a feira livre da Montgomery Square dá a real dimensão do estilo de vida na cidade. Nas barracas de produtores locais, é possível encontrar roupas novas e usadas, CDs, mel orgânico, comida do Sri Lanka e até o creme facial que – dizem – é o segredo de beleza da duquesa de Cambridge, Kate Middleton

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Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2018 | 04h28

Ponto alto da visita à Nova Zelândia para quem busca contato intenso com a natureza, o Abel Tasman é o menor parque nacional do país – e também o mais famoso. É possível acessar praias desabitadas e trilhas que chegam a durar seis horas por barco de Marahau ou Kaiteriteri, ambas cidades próximas a Nelson. Antes mesmo do desembarque, já se nota a atmosfera hippie do lugar: famílias inteiras de mochileiros se mostram dispostos a contar sobre suas vidas depois de cinco minutos de conversa. 

Aos adeptos do luxo zero na hospedagem, o Departamento de Conservação da Nova Zelândia coloca à disposição deles cabanas com colchões, água, banheiro e equipamentos de cozinha, além de áreas de acampamento com água, banheiros e fogueiras no parque. Em todos os casos, o acesso é gratuito, porém é necessário fazer reserva pelo site

Nem pensar? Sem problemas: há dois lodges confortáveis na região, o Meadowbank Homestead e o Torrent Bay, que montam pacotes de hospedagem sob demanda. Empresas como a Wilsons Abel Tasman organizam tours de um ou mais dias, que envolvem táxi aquático, hospedagem, trilhas e passeios de caiaque. Os programas mais simples começam em NZD 15 (R$ 35).

Um dos grandes atrativos do Abel Tasman dá as caras logo no barco até Totaranui (a praia mais remota da parte sul do parque): uma pequena família de focas toma sol perto do mar. Vez ou outra, pinguins nadam próximos às pedras e os olhos mais esforçados enxergam golfinhos saltando ao longe. Quase no fim do caminho, uma integrante da tripulação chama a atenção do grupo: na quarta-feira anterior, duas baleias orcas foram avistadas naquele ponto. Não demos a mesma sorte. Quem sabe da próxima vez?

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Vivian Codogno, O Estado de São Paulo

23 Janeiro 2018 | 04h27

Nem todos os clichês sobre bucolismo e vida no interior juntos são suficientes para descrever Wanaka, cidade de 5 mil habitantes localizada no extremo sul da Nova Zelândia, a 60 quilômetros de Queenstown (considerada a capital do turismo de aventura no país). A paisagem se transforma profundamente ao longo do ano, o que deixa as atrações atreladas à sazonalidade. Estações de esqui e snowboard lotadas no invernos dão lugar a pistas de kart no verão. As uvas que produzem vinhos brancos de edição limitada na primavera não florescem no outono. 

Espelho desse cenário, as Blue Pools são lagoas formadas na confluência dos rios Blue e Makarora, em Makarora, e são abastecidas pelo derretimento do gelo acumulado nas montanhas durante o inverno. Por isso, no verão, uma visita ao local, a 74 quilômetros do centro de Wanaka, é uma boa pedida para quem se deixa seduzir por águas cristalinas. Porém, vale lembrar: geladíssimas. 

Independentemente da época do ano, são as belas paisagens que atraem os turistas para a região. Rodeado por montanhas, o lago homônimo à cidade abriga no centro uma árvore que cresceu solitária. Virou uma obsessão por quem passa pela cidade: usando #ThatTreeAgain (aquela árvore de novo), é possível vê-la em diversas épocas do ano, com um cenário que se transforma de acordo com as estações. Entre a primavera e o verão, o sol só se põe entre 21h e 22h, o que faz aquela sensação de transgredir o tempo do início da viagem, em Auckland, reaparecer. 

Dilema. Durante seu tempo em Wanaka, reserva ao menos uma manhã para visitar a Mou Waho Island. Defini-la é um pouco confuso, por isso, preste atenção: ela é famosa por abrigar um lago, que está dentro de uma ilha, que está dentro de um lago. Se você não entendeu nada, explicamos: a Mou Waho fica dentro de um lago. E a própria Mou Waho tem um lago, onde há uma outra ilha. É esquisito, mas já sabemos que essa é uma regra neozelandesa. Ali vive o weta, grilo gigante que habita a Terra desde o tempo dos dinossauros e aguenta passar até seis meses congelado. 

É possível contratar o passeio no píer da cidade. Na Eco Wanaka, o tour de uma manhã sai por NZD 245 (R$ 600). Após uma subida de 40 minutos, Cris Riley, o guia que nos acompanhou, respira fundo e sorri: “Sem barulho, sem barcos, sem pessoas. Bem-vindos à Ilha Sul!”. 

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