A bomba e eu

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Ricardo Freire, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2016 | 02h50

“Vocês estão bem?” O garçom tinha acabado de anotar os pedidos da nossa mesa quando apareceu a notificação na tela do meu celular. Achei curioso; a primeira coisa que me veio à cabeça é que minha amiga nova-iorquina Rogéria tinha tido um sonho ruim. Mas às 9 da noite?

“Estamos bem, obrigado! Por quê?”, respondi, com emoticon sorridente.

“Teve uma bomba na rua 25!” – e já colou o link da notícia da explosão em Nova York com trinta feridos no bairro onde estávamos hospedados, Chelsea.

Nossas amigas tinham vindo de metrô. Nós saímos caminhando da Rua 15 Oeste, a dez quadras do atentado, pouco depois do momento da explosão, sem saber do acontecido. Nenhum dos quatro percebeu nada de anormal nas ruas. Quer dizer: quando chegamos à 6.ª Avenida, no Village, um carro de bombeiros e duas viaturas de polícia passaram com as sirenes a toda – mas isso não deixa de ser normal em Nova York.

Como alguém se sente depois de saber que a cidade que está visitando acaba de ser alvo de um atentado terrorista?

Nossa primeira reação à mesa foi um misto de pesar com alívio – pela ausência de vítimas fatais e pela sorte de estarmos todos ilesos e a salvo. Não houve pânico: todos preferimos imaginar (irracionalmente, eu sei) que o que era para acontecer já tinha acontecido.

Tiramos cinco minutinhos para enviar mensagens tranquilizadoras para amigos e familiares – anote aí: mais uma razão para sempre comprar um chip local no exterior.

Como é que você volta para o hotel (no nosso caso, um apartamento) quando sabe que um atentado ocorreu a dez quadras da sua cama? Ora: caminhando. Se não fosse pela interdição de avenidas à altura da Rua 14, nada indicava que tivesse acontecido algo.

É certo que, se tivesse havido uma carnificina com requintes de crueldade, como os eventos de Paris e Nice, o sentimento das ruas teria sido outro. Mas naquelas circunstâncias, o medo dos meus amigos de Nova York era que Donald Trump faturasse algum dividendo eleitoral.

Duas manhãs depois, já num hotel da Rua 29, fomos acordados pelo alarme do telefone fixo. A tela do celular trazia uma mensagem da polícia, com o nome do terrorista procurado e o aviso de que poderia estar armado. Horas depois, foi capturado.

Eu ia escrever sobre novidades em Nova York, mas achei que estava muito cedo para falar de turismo na cidade. Mas agora que já escrevi a coluna, me vem a dúvida: passados dez dias, será que alguém ainda se lembra do ocorrido?

Se todos os lugares são inseguros, então todos os lugares são seguros.

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