Viagem

A bordo do Endurance, do Ushuaia até o Rio Grande do Sul

Durante três semanas, dez viajantes encararam a travessia a bordo de um veleiro entre Ushuaia, na Argentina, e o Rio Grande do Sul

26/09/2017 | 04h46    

Roman Nemec - Especial para O Estado de S. Paulo

Endurance se aproxima do Cabo Blanco

Endurance se aproxima do Cabo Blanco Foto: Roman Nemee/Estadão

USHUAIA - Um século se passou desde a expedição polar do famoso irlandês Ernest Shackleton para a Antártida a bordo do convés do barco Endurance. O Pólo Sul já havia sido conquistado por Amundsen e o orgulho dos exploradores do Reino Unido sofria bastante com isso. No entanto, a intenção do comandante Shackleton de se aproximar da costa da Antártida e, subsequentemente, atravessar por completo o continente congelado nunca se realizou. No começo de 1915, depois de uma inesperada onda de frio, o veleiro do explorador ficou preso no congelado mar de Weddell, relativamente perto da costa e, infelizmente, não se libertou mais do abraço gelado. 

Começava assim uma verdadeira luta pela sobrevivência para toda a tripulação. O comandante não aceitava uma derrota e de maneira alguma permitiria que seus pesadelos e desespero fossem transferidos para o resto da tripulação. Mostrou-lhes, então, seu plano, no qual ele esclarecia como eles iriam sobreviver do inverno até o começo do verão, quando os campos de gelo se descongelariam e permitiriam que eles navegassem rumo à Antártida e continuassem a expedição.

Em novembro daquele mesmo, ano a situação, já muito desesperadora, piorou ainda mais. O Endurance, esmagado devido à imensa pressão dos icebergs que estavam sempre vagando, afundou nas profundezas do Atlântico Sul. Diante dessa circunstância precária, eram necessários coesão e bom humor, e Shackleton, que era um verdadeiro líder, conseguia gerenciar e delegar tarefas de forma amigável mesmo em condições bastante desesperadoras.

Quando finalmente os náufragos conseguiram acampar na Ilha Elefant, o comandante avaliou muito bem as poucas chances de sobrevivência e de salvamento por algum pescador. Zarpou, então, com outros cinco marujos num barquinho de resgate, James Caird, rumo à Georgia do Sul a fim de obter ajuda. Quatro meses e várias tentativas desesperadas depois, Shackleton conseguiu se aproximar novamente da costa da Ilha Elefant e resgatar o resto da sua tripulação com o barco chileno Yelcho. 

No fim de 1916, todos os membros da expedição polar voltaram para suas vidas e eram gratos ao comandante Ernest Shackleton, um homem singular cuja resistência sobre-humana e fortaleza se inscreveram na história marítima mundial.

SAIBA MAIS

Como ir: atualmente, o capitão Marco Hurodovich faz viagens em outro veleiro, o Azular. A vivência a bordo custa a partir de US$ 3 mil por pessoa, com refeições. O valor varia de acordo com a rota e a duração. Contatos por e-mail: hurodovich@uol.com.br; ou Whatsapp: (13) 9-9711-7747.

Para o convés do Endurance

54°48'S 68°18'O - “A cada ano tenho reparado que o clima está mais severo. Esta viagem foi difícil do começo ao fim, uma brutal coincidência, parecia que as tempestades se locomoviam junto a nós.” – Marcos A. Hurodovich, capitão.

Equipe da viagem faz a parada para a foto

Equipe da viagem faz a parada para a foto Foto: Roman Nemec

 

Terminando as últimas páginas da atemporal história do barco Endurance no livro de Caroline Alexander, volto de novo para minha realidade cotidiana. Contudo, passaram-se alguns dias e noites em que me desconectei do mundo. De repente, nas páginas do Facebook, fui atraído pelo discreto anúncio de um skipper brasileiro que procurava tripulação para uma travessia do Ushuaia até o Brasil. Percorri-o rápido com os olhos até uma seção de texto, onde foi mencionado o barco Endurance. Senti o suor gelado nas costas e meu coração parou. Sem saber o que me esperava, escrevi um e-mail para Marcos A. Hurodovich no mesmo dia, e minha viagem foi selada. 

É segunda-feira, dia 28 de março, e na Terra de Fogo, no sul da Argentina, o verão lentamente se despede e chega uma longa estação de escuridão e frio. O voo da companhia Aeorolineas Argentinas de Buenos Aires, depois 3,5 horas, desce até o canal Beagle e os raios do sol poente refletem no mar e mancham de ouro as paredes rochosas da serra circundante. Depois de um pouso dramático por causa de rajadas fortes de vento num aeroporto pequeno no Ushuaia, vou para o albergue Antarctida. Uma recepcionista sorridente me oferece um copo de cerveja local, Beagle Stout, para me acolher. Passeando pelas ruas, vejo nas barricadas fogueiras acesas pelos operários-grevistas pedindo melhores condições trabalhistas e, aqui e ali, aparecem placas com o slogan “As Ilhas Malvinas pertencem a nós! Fora com os piratas!” As memórias amargas de uma geração que nunca vai desvanecer. 

Depois de alguns dias passados na natureza áspera da Terra do Fogo, chega a hora de me apresentar ao capitão e tomar meu lugar a bordo do veleiro Endurance. Como lugar de encontro, foi definido um restaurante charmosinho nas proximidades da marina. Chego por último e atrás de uma grande mesa vejo nove rostos de aventureiros animados, porém ainda desconhecidos para mim. Realmente não foi difícil distingui-los dos locais e viajantes, porque são todos brasileiros e gostam de conversar em voz alta. De repente, pula da cadeira um homem bem constituído e barbudo, aperta-me a mão de modo amigável e se apresenta como capitão Marcos Aurelius Hurodovich Lemos, 48 anos. Todos os olhos me acompanham fixamente de modo a me imaginar no meu novo papel – chef e marinheiro.

Marcão, como gosta de ser chamado, me apresenta aos outros dois marinheiros: Lauro, contramestre e advogado de São Paulo, e Tiago, marinheiro e arquiteto do Guarujá. Nós quatro vamos cuidar do barco e do conforto e da segurança dos seis tripulantes durante a travessia, a qual, com base em cálculos e suposições do capitão, deve durar duas semanas. Para minha grande surpresa, temos a bordo duas mulheres jovens, Marina e Adriana, que mostram enorme coragem ao velejar em estas altas latitudes, o que é raríssimo. Depois do nosso divertido jantar de apresentação, vamos para o veleiro, que está encostado numa marina pequena, Club Náutica Ushuaia. Eu e Tiago compartilhamos uma cabine pequena ao lado da cozinha. 

Logo depois da aurora, sou o primeiro a subir para o convés. A manhã está bem fria e o barco nem se mexe na vítrea superfície do mar. O canal inteiro está encharcado de raios de sol da alvorada, os quais devagarzinho dissolvem um fino véu de neblina flutuante sobre a cidade. O mar reflete os picos circundantes e esta vista esquenta o coração. Quem já navegou nestes mares sabe que o vento é capaz de agitar as águas de maneira furiosa. Por isso, encostar um barco no píer é uma mostra de manobra sobre-humana.

Os próximos dias serão marcados por preparações do barco e aprovisionamento. Antes de uma travessia dura e demorada, devido à imprevisibilidade e rugosidade do tempo nestas altas latitudes, é necessário pensar em inúmeros detalhes relacionados ao barco e às suas condições técnicas, à segurança, à navegação, às condições meteorológicas, ao estado de saúde da tripulação, ao abastecimento e muitas outras coisas. O planejado é zarpar no dia 1º de abril, e mais de 2.400 milhas náuticas (4.500 quilômetros) à nordeste nos separam do porto de destino, Santos. “Navegar o mar do ponto A até o B não é uma aventura. É sobre planejamento detalhado, aplicação de conhecimentos e experiências e sobre racional avaliação de situações!” – costuma falar Amyr Klink em suas palestras. O mar não perdoa.

Enquanto os outros membros da tripulação fazem passeios pela cidade e pela natureza, nós quatro trabalhamos no barco. Como não há um posto de gasolina na marina, não resta outra alternativa a não ser trazer barris e derramar mais de 2 mil litros de diesel nos dois tanques do barco. A esta altura, me preocupo com a qualidade do diesel e se os tanques e mangueiras já foram limpos antes.

Como chef a bordo, meu papel era preparar um cardápio bacana para as duas semanas e uma lista de comidas e bebidas para cinco refeições diárias. Decidi incorporar na dieta várias especialidades eslovacas, como o goulash e o cordeiro assado ao vinho, bem como brasileiras, como o caldinho de feijão. “Você realmente vai precisar de todas essas coisas, contudo, vai gastar o orçamento inteiro só com comida e bebida!”, reclama, ainda sorridente, o capitão. Como resposta, digo cordialmente que boa comida fortalece a moral no barco. Há dois dias estamos fazendo tudo juntos, o trabalho vai de vento em popa e estamos finalizando os preparativos relacionados à partida. Será que estamos prontos para zarpar? 

Zarpemos com a primeira neve

“Minhas mais belas lembranças são vinculadas à navegação no canal de Beagle naquela manhã fria, na qual estávamos cercados pelas encostas nevadas dos montes elevados. Vi baleias, toninhas nadando ao lado do barco, pôr e nascer do sol lindos, e o céu.... sempre com infinitas estrelas!” - Tiago Scannavaca, jovem marujo e arquiteto. 

Viagem de três semanas rendeu ótimas fotos, além de muitas emoções

Viagem de três semanas rendeu ótimas fotos, além de muitas emoções Foto: Roman Nemec

Da Antártida sopra um vento frio e acentuado e a baixa temperatura é marcante. Uma geada sucedeu os dias quentes de outono. Por causa do tempo não favorável e de ventos fortes de até 55 nós, a data de partida foi adiada em dois dias.

No sábado, depois da demorada burocracia de imigração, todo mundo decidiu se encontrar à noite no salão aquecido no segundo pavimento do barco Endurance. Com um pudim quente e com rum nas mãos, Marcão conta sobre a previsão do tempo para os dias seguintes e, a partir disso, definimos as tarefas de partida.

Às 5 horas do dia seguinte, sou acordado pelo despertador e, ainda com sono, preparo o café da manhã para os tripulantes. O cheiro de café preenche o barco inteiro e, gentilmente, acorda todo mundo. Um gelado vento austral sopra e faz voar flocos de neve. Com o céu ainda escuro e a maré baixa, zarpamos. As montanhas ao redor estão levemente polvilhadas com a primeira neve deste ano. Olhando através da popa, à distância brilham as luzes do Ushuaia, onde deixamos um pedaço de nós mesmos e para onde sentimos que um dia teremos de voltar. 

Amanhece um novo dia gelado e cinzento. O frio entra sob a pele e, sem adequadas roupas náuticas, seria quase impossível ficar fora ou fazer qualquer coisa. Os dedos ficam frágeis enquanto os cabos tornam-se sólidos e gelados. Ainda assim, uma grande vantagem do nosso barco é a ponte de comando fechada com uma vista panorâmica, onde temos autopilot, radar e outros aparelhos de navegação. De lá é possível manobrar o barco, por exemplo, durante uma tempestade ou com o mar muito agitado, exceto as velas.

Todos estamos no convés observando encantados a beleza única do canal Beagle. Às vezes pula d'água uma baleia, ou um pinguim, que sem o menor esforço se deixa levar pelas correntes marítimas, acenando para nós. De repente o motor para e os sorrisos desaparecem do rosto animado dos tripulantes. Será que pifou? O capitão, alarmado, distribui comandos para ajustar as velas e mergulha no eixo do motor. Depois de um tempo, estabilizamos o barco e Marcão, muito suado, anuncia que trocou o filtro de combustível. Então ouvimos o murmúrio monótono do motor Yanmar de 200 cavalos e começamos a navegar com a velocidade de 9 nós. No início da noite, a velocidade do vento aumenta e as rajadas chegam a 45 nós. A vela maior já está risada no máximo e o mar e os ventos balançam o barco de lado a lado, fazendo a maior parte dos tripulantes vomitarem e sumirem para suas cabines. 

Na madrugada, no estreito entre as ilhas Las Naciones e Terra do fogo, levantam-se ondas “confusas” de até 5 metros de altura. O barco gira como se estivesse nas mãos de um kraken e, como se não fosse já o suficiente, o mar cobra sua primeira “taxa”: Lauro, o contramestre, durante sua vigília noturna, de repente sente um odor parecido com o de fios queimando. Ele e Marcão abrem uma cabine atrás da outra até acharem, na cabine das meninas e dos irmãos Roberto e Jorge Bins, uma gaiuta aberta.

Cabines inteiras e todas as coisas estão molhadas de água salgada. Como as bombas automáticas no porão pararam de funcionar, não tem outro jeito a não ser bombear manualmente dúzias de baldes para fora do barco. Assim que se sentam para descansar, o motor para de novo . “Que inferno, é isso!”, reclamam os dois e acordam a mim, Tiago e Lauro e para arrumarmos as velas e velejarmos para alto mar, bem fora da costa. Lauro, já bem exausto, fica sentado coxilha. Eu fico controlando o rumo e o chart-plotter e vejo que estamos voltando para o maldito estreito, mas corrijo o rumo com o leme e as velas. De manhã, mais tarde, as meninas entendem que as camas e todas as coisas delas estão ensopadas, mas Marcão gentilmente cede sua cama para elas. E depois do “sangramento” da mangueira de combustível e da troca de filtro, magicamente o motor liga de novo. “Mas por quanto tempo?”, nos perguntamos. “No mar, longe da terra, você tem de ser ‘MacGyver’, consertar o motor com um grampo, remendar uma vela com silver tape, e sempre pensar antes de agir”, comenta o capitão sorridente, que realmente sabia como lidar com situações difíceis. 

Cativeiro na Baía de San Sebastian

53°12'00?S 68°19'59?O - “Pela primeira vez na minha vida fiquei tanto tempo em um barco e em alto mar. Para mim, que nunca tinha velejado, foi difícil ficar tanto tempo tendo de lidar com enjoos, mares agitados, dias de tédio. Conviver com desconhecidos por tanto tempo foi uma experiência incrível. No geral, nos demos todos muito bem, apesar de cada um ter sua personalidade. Por isso, tivemos alguns pequenos conflitos, mas nada demais. O desafio dessa interação é ter paciência e saber lidar com as diferenças.” Marine Chevallier, jovem estudante de Paraty.

Entre os encontros da viagem, o pinguim imperial

Entre os encontros da viagem, o pinguim imperial Foto: Roman Nemee/Estadão

 

Pouco depois das 3 horas, sou acordado pelo capitão para o meu turno. Preparo um chá preto com leite no qual coloco algumas gotas de rum para me esquentar. No barco inteiro reina um frio silencioso, só o motor murmurando sua melodia. Na ponte de comando troco com Lauro que, cansado, deita na sua cama e, no mesmo instante, adormece. Anoto no diário do barco as informações sobre nossa posição e pressão barométrica e já começo a controlar a posição das velas, as quais batem numa rajada repentina, descendo vez ou outra da poltrona para olhar a tela de radar por enquanto vazia.

De vez em quando alguém fala no rádio, o que inesperadamente soa como um trovão em meio ao silêncio. O indicador do barômetro cai e chega a prevista baixa acompanhada pelas rajadas fortes. Com a aurora, por volta das 7 horas, subimos com Marcão para o convés e damos boas-vindas para o sol, um novo dia frio e famílias inteiras de toninhas patagônicas, as quais pulam com alegria nas ondas criadas pelo nosso barco. Os majestosos albatrozes chegam logo em seguida para se divertir com o “vácuo” criado por nossas velas.

O Endurance é um veleiro muito elegante e forte que tem 67 pés e foi projetado pelo famoso construtor belga Thierry Stump. Tem um pouco mais de 10 anos, muitos dos quais passou apenas na Patagônia. Seu casco é composto de placas grossas de alumínio dobradas a frio e todas as partes de cordame foram projetadas para durar nas condições extremas de vento. Quanto às velas, possui três: genoa, bujarrona e grande. O interior da embarcação é bem confortável e torna agradável a viagem para toda a tripulação durante longas travessias. Então, olhando dessa forma, tanto a tenacidade do capitão quanto o barco recebem, merecidamente, o nome “Resistência” (Endurance). 

No final da tarde, molhados e quase congelados por causa do vento frio, ancoramos na frente de um farolzinho, na enseada de San Sebastian, que fica ao norte da cidade de Rio Grande, na Terra do Fogo. A enseada oferece uma proteção limitada contra o bramido do vento sudeste. Baixamos 60 metros de corrente achando que vai ser suficiente. E, assim, finalmente chega a hora em que posso tirar as panelas do armário e preparar um goulash de carne, prato tradicional do leste europeu. A tripulação inteira se reúne atrás da grande mesa do salão, num lugar aparentemente seguro, enquanto sirvo um jantar quente com um belo vinho (Malbec, ano 2013).

No rosto de todos é possível observar grande exaustão. Até hoje, cada um de nós havia passado pelo seu inferno pessoal, seja por causa dos enjoos incessantes, das panelas dançando ou devido às inesperadas falhas de motor e navegação dura. Naquele momento, entendi que havia chegado a hora certa para que eu contribuísse com boa comida e boa bebida, o que iria mudar positivamente o humor de todos. Marcão telefona para o dono do veleiro, que nos informa sobre os ventos fortes e a profunda área de baixa pressão. A previsão fala de até três dias, durante os quais a baía sombria se torna nossa prisão.

Os dias passam devagar a bordo do Endurance. A âncora e a corrente forte estabilizam parcialmente o barco e, no salão, os tripulantes se divertem com o jogo Batalha Naval, enquanto os irmãos Bins falam até o anoitecer sobre suas inúmeras experiências de viagem.

Felipe, jornalista de São Paulo, emotivamente comenta o atual fracasso político no Brasil; Rodrigo, empresário do Rio Grande do Sul, explora um novo mundo de aventuras marítimas por meio de livros dos famosos autores Ernest Shackleton e Amyr Klink; nossas duas marinheiras, Adriana e Marine, que geralmente dormiam a maior parte do dia, não tomam mais Dramin e, alegremente, se juntam à conversa no salão ou me ajudam na cozinha. As duas realmente merecem grande admiração, porque se juntaram a essa expedição sem saber o que esperar.

Com a meia-noite chegam as rajadas fortes de até 45 nós por hora. “Alarme! Alarme: a âncora  se soltou e o barco se aproxima das rochas!”,  grita o capitão. O vento frio nos desperta rapidamente e, depois de uma luta com o guincho quebrado, soltamos de novo a âncora. “Sugiro soltar uma âncora reserva, para ter mais segurança”, digo para o Marcão, que, afinal, concorda.

O cobiçado Puerto Deseado

47°45'00?S 65°55'00?O

Todos os participantes têm tarefas no barco

Todos os participantes têm tarefas no barco Foto: Roman Nemec/Estadão

“A chegada em Puerto Deseado foi mágica. Final de tarde, o sol se pondo e calmaria após a tormenta. A maré do lugar realmente me surpreendeu: com seus quase nove metros, a diferença entre a cheia e a vazante era impressionante”, lembra-se Roberto Bins Ely, IT analítico e professor.

A velocidade dos ventos caiu bastante e o Endurance zarpou de novo rumo ao alto mar. Os últimos dois dias se passaram sem grandes complicações e conseguimos navegar com três velas içadas. Maravilha! O vento de 25 nós sopra constante e unidirecionalmente, portanto não precisamos mexer com as velas por algumas horas. Passada a “boca” do canal de Magalhães, as ondas vindas de todos os lados batem no barco e molham o convés. Lauro espirituosamente observa: “Elas são os dentes curvados do Magalhães!”, o que nos faz rir.

De madrugada, Tiago, Felipe e eu subimos para o convés e tomamos uma generosa dose de rum. A noite está clara, e o céu, cheio de estrelas brilhantes. Depois um tempo, os outros amigos se juntam a nós. Esse é possivelmente o primeiro momento que podemos apreciar juntos desde a partida do Ushuaia. O capitão nos mostra a constelação do Cruzeiro do Sul (ou o jeito de encontrarmos o geográfico sul) e a curiosa estrela Sirius, que muda sua luz de verde para vermelha num instante.   

É um dia claro, quente e reina uma calma absoluta. A tripulação inteira, vestindo camisetas, toma sol e assiste os golfinhos, gaivotas e albatrozes. De repente, perto do barco, uma baleia pula e elegantemente mergulha nas águas azul-escuras. Apesar da agradável distração, todos olham ansiosamente para o horizonte e procuram a entrada para a cidade portuária de Puerto Deseado, localizada na província Santa Cruz.

Depois de mais de nove dias de navegação difícil, sonhamos com terra firme e uma ducha quente. Isso porque, durante a travessia, cada membro pode usar para sua higiene pessoal apenas 2 litros de água, os quais ele próprio tem de medir com uma garrafa PET. Para a surpresa de todos, essa quantidade é suficiente.

Por volta de 17 horas entramos no canal de Magalhães II. Não tiro os olhos do plotter. Porém, nessa região, sob a água, há muitas rochas perigosas. Uma hora depois chegamos ao píer da cidade e, como este não é adequado para veleiros, decidimos encostar num barco de pilotagem após uma conversa curta por rádio.

Embora as tarefas sejam distribuídas e, em geral, todos saibam o que fazer, às vezes um pequeno mal-entendido pode aumentar a tensão acumulada. E foi isso que aconteceu entre Marcos e Lauro, resultando numa altercação verbal que terminou com Lauro arrumando as malas e deixando a tripulação e o Endurance para trás. Infelizmente, esse também foi o fim da viagem para Jorge Bins. Ele havia sofrido um acidente dentro do barco e machucado as costas, então não aguentava mais velejar.

Os dois dias seguintes são agendados para realizar a manutenção do barco e comprar todos os suprimentos necessários. Faço uma visita a um açougue familiar não muito longe de porto, onde compro costela de cordeiro patagônico e outras carnes especiais. No fim do dia, saímos em grupos para as ruas noturnas da simpática cidade de Puerto Deseado. A cidade é muito procurada durante o verão por turistas que desejam visitar a colônia de pinguins de penacho amarelo, os quais observam os espectadores por baixo de suas sobrancelhas pretas e amarelas. Por causa da enorme diferença entre maré baixa e alta (que pode, no extremo, chegar a nove metros), é necessário ajustar o comprimento dos cabos do barco e, para alguns tripulantes, planejar horários de saída e chegada.

“Para desembarcar tínhamos que subir por duas escadas improvisadas que nos levariam ao solo. E aí estava meu problema, minha dificuldade, pois ambas as escadas estavam a mais de seis metros de altura, então tínhamos de esperar a maré subir para alcançá-las e chegar à terra firme”, comenta Adriana. Outra etapa que demanda planejamento é a passagem pela imigração. Ela costuma ser bastante demorada e pode representar uma surpresa desagradável se não for bem pensada.

À noite, antes da partida, convidamos o capitão do barco de pilotagem, Miguel, e seu contramestre para o jantar. Preparo uma carne assada ao vinho tinto com purê de batata e, como já é tradicional, abrimos uma garrafa de excelente Malbec para acompanhar. Ficamos contando histórias marítimas até de madrugada e, no dia seguinte, por volta das 8h30, ainda com a maré baixa, zarparmos e deixamos para trás Puerto Deseado, cidade que tão amigavelmente nos acolheu.

Sobre as costas do 'gigante de ondas'

“Ver que, por mais que tu planeje a situação, ela ainda foge do teu controle, foi aterrorizante e fantástico! Verdade é que é preciso presença de espírito e um plano B. No mar, quem manda é a natureza, a mãe Terra”, comenta Rodrigo C. G. Martini, empresário.

Olha quem também deu o ar da graça na viagem

Olha quem também deu o ar da graça na viagem Foto: Roman Nemec

O sol nascente ilumina os imponentes penhascos perto da baía Engaño. Um vento fresco e quente sopra do sul e nos permite relaxar um pouco após a “batalha” no Cabo Blanco, onde os vagões de água se levantaram até 4 metros próximo ao farol. Não sabíamos, porém, que aquele havia sido apenas o primeiro ato do drama marítimo que se iniciava. A pressão atmosférica caía para 989 hPa e a previsão meteorológica nós avisava que haveria ventos fortes do sudeste. Porém, no momento, não é possível ver nenhum sintoma de uma frente progredindo.

Depois da meia-noite, nós deitamos, já vestidos com roupas de tempo. Eu, na verdade, durmo com um olho fechado e outro aberto. De repente, as ondas se levantam e, no segundo pavimento, tudo o que não está fixo voa pelos ares. Às 2h30, começam rajadas de 45 nós. O capitão, Tiago e eu corremos para o convés para baixar a vela grande, nossa manobra mais perigosa até agora. Ainda está escuro, então só conseguimos imaginar a dimensão das ondas. “O pior é que o convés escorrega sob os pés!”, lamenta Tiago.

O mar fica agitado pelas próximas 18 horas. Apesar de estar dentro do barco, é um inferno para todos e só eu permaneço no cockpit. O vento furioso chicoteia o mar e pega a espuma do topo de ondas gigantescas, as quais sobem até seis metros. Elas nos perseguem incansavelmente e levantam o barco para logo depois cairmos novamente no abismo azul escuro. Os vales são largos e é quase possível prever cada intervalo e se preparar, pelo menos para quem consegue enxergar.

 

Depois de uma hora de observação, já me acostumo e, corajosamente, tiro a câmera para poder registrar essa batalha do barco com os elementos naturais. Cada onda inesperada que se quebra na proa me impregna com água salgada e gelada. Após um tempo, Felipe também me acompanha e, com espanto, assistimos a essa beleza selvagem. “Quem não experimenta, não acredita!”, grita Felipe, entusiasmado com o rugido do vento e das ondas. Ao voltar para minha cabine, só me resta rir alto quando vejo o caos ao redor: as gavetas estão abertas e caídas, os talheres e os copos estão no chão, misturados com os salgadinhos.

Com o vento austral para o Brasil

32°02'06?S 52°05'56?O -“Gosto de compartilhar histórias, momentos. E poder levar amigos para vivenciar ao vivo e em cores (e, às vezes, molhados e com frio) é uma realização pessoal e profissional. Os desafios nos fortalecem, cada tripulante volta diferente de uma viagem desta. E acredito que seja sempre para melhor”, diz Marcos A. Hurodovich, capitão.

A chegada ao Rio Grande do Sul

A chegada ao Rio Grande do Sul Foto: Roman Nemec

Depois da parada de um dia na bela e agradável cidade de Mar del Plata, que é um famoso destino de verão para os cidadãos de Buenos Aires, estamos de novo no alto mar. Agora, porém, estamos descansados, e o vento austral nos empurra rumo ao Brasil.

À noite, terminamos uma garrafa de rum Havana Club e colocamos dentro dela um rolo de papel com um recado de cada tripulante para algum desconhecido que vai encontrá-la do outro lado do oceano. De manhã, às 6h30, enquanto a lua vermelha se põe no meio da baía do Rio da Plata, jogamos a garrafa nas águas escuras do Atlântico sul. Um tempo imersa, ela volta de novo para a superfície e começa sua longa jornada.

Depois de algumas semanas de convivência, nós, tripulantes do barco, viramos uma família. Cada membro procura seu lugar ativo e a rotina cotidiana é realizada com uma recém adquirida habilidade, mas também com muita tranquilidade. Já sei, por experiência própria, que tais amizades são sólidas e duradouras. Quase todos, depois de tanto tempo num espaço tão pequeno, chegam a mostrar a verdadeira face e a se abrir aos outros.  

A viagem progride e, gradualmente, a cada dez graus de latitude para o Equador, despimos uma camada de roupa quente. Chegando à fronteira do Uruguai com o Brasil, estou atrás do leme usando apenas uma camiseta com manga curta. Depois dos ventos gelados, das tempestades ou das geladas “duchas” do mar, é tão agradável navegar nas águas quentes e respirar o cheiro revigorante de mar. Também a fauna em volta de nós está mudando: há mais gaivotas e os golfinhos trocam suas “sungas” de preto e branco para cinza.

No dia 21 de abril à tarde, depois de três semanas em alto mar, chegamos ao porto de Rio Grande no Estado do Rio Grande do Sul. A bombordo, passamos os grandes galpões portuários e só depois de quase uma hora de navegação à frente da orla encostamos na marina, onde conseguimos nos amarrar num píer flutuante de madeira com a ajuda dos locais. “Sejam bem-vindos de volta ao Brasil!”, nos recebe Pedro, um sorridente funcionário da marina.

Depois do controle de rotina do barco, o capitão dá licença à tripulação. Tudo parece tão familiar, todos nos entendem sem problemas, pagamos sem precisar trocar o dinheiro... Em seguida, a maioria dos homens vai para um barbeiro local, onde dois senhores bem falantes fazem nossa barba. E mais tarde nos sentamos num bar antigo para tomar cerveja gelada e relembrar as alegrias e dificuldades da viagem.

Para mim e mais alguns amigos termina aqui mesmo a travessia épica a bordo do Endurance. Depois de 1.880 milhas náuticas e 20 dias, nós voltamos para nossas vidas terrestres enriquecidos com novas experiências valiosas e, principalmente, com novos amigos com quem eu gostaria de zarpar de novo para o oceano e viver novas aventuras. Marcão e o resto da tripulação ainda vão navegar mais alguns dias até a marina no Guarujá.

É verdade que navegar pela Terra do Fogo ou pela Patagônia demanda uma preparação detalhada e muita experiência náutica, já que qualquer coisa esquecida durante a fase de planejamento, até mesmo uma decisão apressada, pode prejudicar a todos durante esse tipo de expedição longa. No entanto, não é apenas o bom estado do barco ou um capitão experiente que vão garantir o sucesso da jornada: é a boa combinação dos dois elementos que vai levar a tripulação em segurança ao seu destino. 

O mar favorece os preparados, e a sorte, os corajosos!