Juliana Sayuri/Estadão
Juliana Sayuri/Estadão

A comediante de Bratislava

Nosso correspondente britânico encerrou seu périplo de eventos no leste europeu e retornou ao Condado de Essex para renovar a adubação em seu pequeno jardim de flores, que criou com a ajuda de uma amiga brasileira, a entusiasmada cultivadora Carol Costa - a quem manda suas saudações. 

Mr. Miles*, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2016 | 06h16

Atento ao que acontece no Brasil, Mr. Miles diz estar cogitando voltar ao País para conferir se o mau astral reinante durante sua última visita, no fim do ano passado, terá melhorado. Como se sabe, o viajante inglês ficou constrangido com o clima de hostilidade naquele momento. “My God”, disse ele. “Não no Brasil!” A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles: vejo que o senhor produz frases de efeito em abundância. Minha pergunta é uma frase de efeito: são os lugares que nos fazem ou nós que fazemos os lugares?

Leandro Pillé, por e-mail

“Well, my friend, a sua frase de efeito é muito simpática. However, carece de clareza, ao menos no meu entender. É claro que os lugares nos fazem. Fazem bem, fazem mal ou, no pior dos casos, não fazem nada. A energia da ilha de Páscoa, for instance, me faz um bem incrível. Quando estou lá, na mais remota ilha do mundo, tenho a sensação de que todas as forças do Universo me impelem a recomeçar a jornada de conhecimento que faço mundo afora.

Quando estou em Salzburg, ouço a música inebriante de Mozart, um entre os raros compositores que têm o mesmo efeito de um single malt. Também me lembro de Julie (N. da R.: Julie Andrews, atriz que fez o papel principal de ‘A Noviça Rebelde’), sua família cantante e, sobretudo - desculpe a indiscrição - o rápido caso que vivemos no início dos anos 60 do século passado. Nevertheless, a encantadora cidade à beira do Rio Salzbach lembra a facilidade quase cúmplice com que a Áustria deixou-se anexar à Alemanha em seus propósitos homicidas. E aí me faz mal. 

Já quando passo por cidades sem lembranças, sem charme, sem boa comida e sem atrações (você, of course, conhece milhares delas), não acontece nada.

Não entendo, porém, como podemos fazer as cidades, a não ser que você sugira que possamos erguê-las dentro da cabeça, como urbes de nosso território mental. É claro que podemos fazer o melhor por elas se as visitarmos com indulgência, afeto e informação. Qualquer pessoa pode transformar Assunção em Praga, conforme sua boa vontade. Unfortunately, parece-me improvável que elas se pareçam de algum jeito em algum dia.

O que, yes, I believe, é que as pessoas de qualquer lugar podem fazer com que ele se torne mais ou menos atraente, de acordo com suas atitudes. Alguém de vocês sabe qual é a origem dos pais de Andrej Varhola Jr. (N. da R.: nome real do pintor e cineasta Andy Warhol, um dos monstros da pop art)? Pois trata-se da pequena e impávida Bratislava, capital da Eslováquia, às margens do Rio Danúbio. Uma cidade com escassas atrações e farta carne de porco.

Fui até lá, certa vez, na companhia de uma cicerone chamada Nadia. Era uma senhora atarracada, de olhar rancoroso. Pior: desprovida de sorrisos.

Leia mais: Eles que falem enquanto me farto

Pois, believe me, dear Leandro. A surpreendente senhora levou-me a passear por uma hora. Sobre qualquer lugar desinteressante em que parávamos, ela contava uma história tão cheia de humor e graça que tive certeza de estar na companhia de uma rainha da stand-up comedy. Em outras palavras, a hilariante senhora, que sequer esboçou um sorriso enquanto divertia os demais, transformou a esforçada Bratislava em uma cidade de primeira linha. Mas foi ela que o fez - não nós, os circunstantes. Eu diria, therefore, que podemos fazer os lugares, mas há quem possa fazê-los melhor do que nós.” 

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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