Francesco Lastrucci/NYT
Francesco Lastrucci/NYT

A difícil busca pelo Fellini da vida real

Com um clique discretíssimo, a porta se abriu para revelar o interior de uma clássica suíte de hotel de luxo do Velho Mundo. A luz do entardecer do litoral italiano incidia sobre o assento de veludo gasto de um canapé. No cômodo adjacente, uma cabeceira estofada se estendia de um lado a outro da cama onde o grande cineasta Federico Fellini deve ter dormido com a mulher, a atriz Giulietta Masina. E, num canto, o telefone que ele tinha na mão ao sofrer o primeiro dos derrames que, meses depois, causariam sua morte, em outubro de 1993. Assim parecia.

EVAN RAIL / RIMINI , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2013 | 02h09

Na realidade, a maior parte dos itens do Grand Hotel Rimini havia sido substituída. O que parecia ser autêntico e real, era um voo da imaginação.

Acontece que eu estava atrás do Fellini real em sua cidade natal, Rimini - a 1h30 de Bolonha. O cineasta nasceu em 1920 e viveu na cidade até pouco antes da 2.ª Guerra - um desafio que logo se impõe é que boa parte dela foi destruída. Um segundo obstáculo é que Fellini romantizou as locações dos filmes mais associados a Rimini: Amarcord (1973) e Os Boas-Vidas (1953). E, embora a morte de Fellini complete 20 anos, a cidade parece menosprezar o diretor.

Para me preparar para a viagem, fiz uma incursão por seus filmes e me armei com o livro Fellini por Fellini, que o diretor publicou em 1976. Ele conclui as 40 páginas iniciais dizendo: "Não gosto de voltar a Rimini".

Viajantes cansados poderiam dizer o mesmo hoje. Hotéis sem graça estendem-se a perder de vista até que você chega ao Grand Hotel. "Quando lia passagens descritivas de um romance que não levavam a minha imaginação às alturas, recorria ao Grand Hotel", escreve Fellini. "(O hotel) se transformava em Istambul, Bagdá, Hollywood." Meu quarto tinha sacada de onde era possível ver o píer em que Scureza vai e volta com sua moto em Amarcord.

Quando saí no encalço de sua vida real, uma cidade muito diferente da enfadonha estância se revelou. Tinha lido que Fellini costumava visitar Rimini à noite, onde encontrava seu amigo de infância Luigi (Titta) Benzi. Os dois passavam a noite conversando em sua praça favorita e, tão logo amanhecia, ele pegava um trem de volta para Roma. Uma noite encontrei a praça: Piazzetta Teattini, nas proximidades do grande Tempio Malatestiano. Estava abandonada. Com mato crescido e poucos bancos, deve ter sido esconderijo perfeito no auge da fama.

Na manhã seguinte, passeei pelo Corso d'Augusto, a principal via comercial da velha cidade, e topei com um dos lugares em que Fellini morou. "A primeira casa de que me lembro pertencia a um homem chamado Ripa. Ainda está em pé", registra. Na fachada, não se fazia menção à Fellini. Tampouco havia indicação na loja da esquina, onde iniciara sua carreira como artista. "Desenhávamos caricaturas e retratos de mulheres, visitando-as em casa", anota ele.

Seus desenhos foram reunidos numa edição fac-símile, Il Libro dei Sogni, da Rizzoli. Num museu municipal, encontrei uma exposição temporária dos cadernos originais e uma foto de Fellini no fim da vida. Descobri - também por conta própria - a casa da Via Clementini, "onde conheci meu primeiro amor", assinala. "Bianchina era uma mocinha morena. Eu a espiava do meu quarto."

Apesar de tudo, a cidade empreende certo esforço para lembrá-lo. No charmoso Borgo San Giuliano veem-se murais com cenas de A Estrada da Vida. E o velho cinema Fulgor, onde ele viu seus primeiros filmes, vai se transformar em museu cinematográfico. Mas ainda faltava algo: onde estava Fellini?

Com um mapa, fui ao centro de convenções Fiera. Passei perto do Parco XXV Aprile, cruzei o Rio Marecchia e segui por uma rua larga até a placa: "Cimitero". "Um lugar fascinante, em Rimini, era o cemitério", registra Fellini. Ali repousa o cineasta.

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