Arte|Estadão
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A embriaguez de que não me canso

De Rochester, no Maine, Estados Unidos, para onde anunciou que iria, nosso correspondente responde à pergunta da semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 00h00

Mr. Miles: estive, certa vez, visitando o Museu Hermitage em São Petersburgo, na Rússia, e passei por uma experiência que acredito ser única. Após circular por vários corredores e galerias do museu e me deparar com obras de arte de beleza indescritível, saí de lá em um estado de total embevecimento e entorpecimento interno. Quero lembrar, também, que não cheguei a visitar o museu em todos os seus ambientes, pois sabia que não teria tempo. Pergunto: em suas viagens pelo mundo, você chegou a passar por esse estado de torpor? Onde? Forte abraço e parabéns por sua coluna, que nos traz de forma clara, objetiva e com muito humor as suas experiências de viagem. - Edmur Miranda de Godoy, por e-mail

Well, my friend: confesso que tive mais sorte do que você. Certa feita, passei um mês inteiro em São Petersburgo e visitei toda a coleção de 3 milhões de obras, 700 mil livros, dezenas de milhares de armas – e tudo o mais que compõe o acervo do maior museu do mundo. Os únicos que se comparam a eles, em tamanho, são, of course, o Louvre e o Memorial das Conquistas do Santos Football Club, com sua quantidade interminável de troféus, em Santos, no seu país.

Conheço São Petersburgo – e adoro a cidade – em muitos momentos. Quando deixou de ser a capital da Rússia, em 1918, após a vitória da Revolução Comunista na fase em que chamou-se Petrogado; depois que virou Leningrado (quando da morte de meu velho amigo Vladimir (N.da R.: Vladimir Ilitch Lenin, estadista soviético); e quando, novamente, passou a ser chamada São Petersburgo, Peter para os íntimos, desde 1991. O Hermitage já tem a beleza de suas construções, sobretudo os palácios outrora ocupado pelos czares. E é tão interessante que merece ser visitado mesmo no inverno, quando a temperatura pode chegar aos 30 graus negativos, congelando o rio Neva, que margeia os museus.

Mas não é sobre ele que falamos, isn’t it?

Estamos discutindo “embevecimento” e “embriaguez”, palavras que você usa, com acuidade, em sua missiva. Embevecido significa deslumbrado ou extasiado. Embriagado, as you know, quer dizer ébrio ou, well, bêbado. São dois estados da alma muito parecidos – antes do embriagado passar da conta.

Você me pergunta se, em minhas viagens, já passei por sensações semelhantes. Fiquei pensando como responder: se eu diria que é desse embevecimento que se fazem as viagens ou dessa embriaguez é que jamais me canso.

Sinto o mesmo, of course. E se isso já não ocorresse, talvez fosse o caso de aposentar minhas malas, esquecer de minhas milhas e, perhaps, conviver com a sensação de que vivi em vão.

É sobre esse tema que estou sempre falando em minhas crônicas, dirigindo-me sobretudo àqueles que nunca partem, por medo, preguiça ou falta de iniciativa (eu ia dizer dinheiro, mas os que realmente desejam acham sempre uma forma de viajar). Não sei como é possível viver sem experimentar essas confusas alegrias. Parece-me alguém que abdica de suas ideias e de seu livre arbítrio para seguir doutrinas e dogmas que lhe foram impingidos. Ou aqueles seres que jamais provam um prato diferente, uma bebida que não conhecem ou uma mulher (um homem para as mulheres, as well) com os quais sonharam.

Yes, my friend: fico muito feliz em saber que você conseguiu alcançar essa “graça” em um museu, como muitos a alcançam em frente a um monumento ou uma paisagem deslumbrante. Aproveito para lhe pedir: siga em frente, porque vai voltar a acontecer.

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