A galáxia das malas extraviadas

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2016 | 03h00

Nosso adorável viajante britânico está feliz. Soube, por carta, que seu encadernador de passaportes, desaparecido nos bombardeios de Aleppo, na Síria, reapareceu em Adana, na Turquia, e continua trabalhando. Miles vai mandar doze unidades para transformar em caderno encapado os 24 passaportes que formarão o trigésimo sexto volume de sua coleção de registros diplomáticos.

A seguir, a pergunta da semana: 

Mr. Miles: não acredito que, a essa altura do campeonato, as companhias aéreas ainda percam a bagagem de seus passageiros! Eu mesma perdi uma em meu último voo. O que posso fazer? 

Anita Parramón, por e-mail

Well, my dear. Os casos de bagagens perdidas parecem pertencer mais ao universo da ficção do que à realidade. Os números são estimados, mas há um consenso de que, de cada 150 passageiros, 1 perde a bagagem durante o voo, unfortunately. Ou seja: em um avião internacional, com 300 passageiros, dois pobres viajantes ficarão por longos minutos esperando suas malas no carrossel; duas boas almas, um pouco mais tarde, farão o esperançoso sightseeing das demais esteiras do aeroporto. E, por fim, dois seres tristes, comunicarão a quem de direito (se o encontrarem), o extravio de suas malas, na última esperança de recuperá-las algum dia.

Se estiverem indo, perderão as roupas com que planejavam passear e divertir-se. Quase sempre serão obrigados a comprar itens substitutos – e quase sempre, my God, em moedas mais fortes. 

On the other hand, se estiverem chegando, vão se lembrar com saudades das horas que desperdiçaram para achar os presentes certos para seus entes queridos, as negociações que fizeram, os descontos que ganharam – e que, agora, desapareceram em algum lugar na neblina do tempo e do espaço. I’m vary sad to say, mas essa é a pura verdade. Todos os anos, bilhões (sim, com b de bola) de malas vão parar no céu das bagagens e poucas delas terão a chance de reencarnar.

Esse número – billions! – é considerado estatisticamente desprezível pelas companhias aéreas. Noventa e cinco por cento dos itens transportados voltam sãos e salvos a seus proprietários. A questão é que há cada vez mais voos e as conexões são cada vez mais curtas. Em outros voos, repletos de mudanças de aeronave, aumenta a chance de a sua mala dirigir-se para Bisqueque, no Quirguistão, onde seres exóticos ficarão espantados com o tamanho dos biquínis dentro da mala extraviada.

Mr. James Galtworne, um velho amigo que conhece a aviação como raros outros, disse-me que, unfortunately, o movimento de passageiros cresce mais do que a capacidade logística de atendê-los. “Sem falar nos larápios, Miles. Quantos deles há pelo mundo!”, comentou.

É um problema enorme, my dear, diante do qual só me resta fazer as recomendações de praxe: 

Nunca leve quaisquer tipo de valores em sua mala. Nem dinheiro, nem joias, nem remédios de uso contínuo, nem objetos de estimação. 

Tente ver mais e comprar menos. Economize para comprar os mesmos itens na volta, porque certamente eles já existem (mais baratos) em sua própria cidade. 

Não se preocupe com cadeados e lacres, porque gatunos nem ligam para eles. Tenha mais atenção à identificação (coloque-as dentro e fora da mala) porque, assim, sua mala (ainda que desfalcada) terá mais chance de voltar ao lar. Talvez você perca alguns dos presentes que comprou, mas, quem sabe, seja possível matar as saudades de sua meia de estimação.

Espero, darling, que este artigo lhe sirva de consolo. Não se sinta a vítima, mas apenas uma pequena partícula de um sistema que, embora ótimo, é imperfeito. Pratique o desapego. E pense que sua mala está agora, em outra galáxia, voando feliz com suas parceiras transviadas.

VEJA MAIS: Saiba o que fazer caso sua mala seja extraviada

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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