Brian Snyder
Brian Snyder

A grande asneira das contrapartidas

A pior reciprocidade que alguém pode propor é aquela que prejudica o proponente

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

20 Março 2018 | 03h00

Nosso correspondente britânico pede que reclamemos dos inúmeros assessores de imprensa que o assediam com informações de várias espécies, todas elas repletas de clichês sem sentido que transformam um motor de popa e um bolo de chocolate no mesmo que um hotel cinco estrelas. “It’s amazing, my friends: o uso do termo paraíso (ou paradisíaco) chegou ao ápice. Recebo informações que falam tanto do paraíso que são as praias das Seychelles, quanto do Paraíso das Pamonhas, numa rodovia em Minas Gerais, ou o Paraíso dos Pneumáticos, com ofertas de ótimos recauchutados. Oh, my God? Onde andarão Adão e Eva? Ah, certamente em algum aposento icônico – que, como disse my friend Riq Freire, deve ter o formato de um cone. Ou num andar emblemático, talvez decorado com o emblema do Arsenal, do Corinthians ou do Crystal Palace. Poupem-me, please: não vou a lugar para todos os bolsos e todos os gostos, nem a terras de contrastes. Shut up, please!”

A seguir, a correspondência da semana:

Caríssimo Mr. Miles: tenho lido, com alívio, que o processo de oferecer vistos a viajantes estrangeiros, agora eletrônico, vai facilitar a entrada de turistas no Brasil. Já não era sem tempo! O senhor não acha? 

Clayton Magalhães, por e-mail

Well, my friend: como é fato notório, sou um inimigo de fronteiras, nacionalismos e burocracia. Vivo dizendo que, algum dia, o homem perceberá que todo o planeta é uma extensão de seu yard e que cada pessoa será mais completa quanto melhor conhecer toda a diversidade geográfica, geológica, humana, gastronômica, comportamental, musical, ideológica e religiosa que tem à disposição, desenvolvida por curtos milênios de vida apartada por distâncias já hoje superáveis.

Anyway, há situações diplomáticas que chegam a ser humorísticas. A tal da reciprocidade, for instance. O termo pode designar a resposta positiva a um ato positivo; usually, however, é usado para responder um ato negativo com outro ato negativo. No futebol, uma canelada costuma ser compensada por outra canelada recíproca; no trânsito, um impropério tem, como recíproca, outro impropério. Entre vizinhos, a recíproca para o volume alto de um aparelho de som costuma ser o volume ainda mais alto do rival, até que a vida auditiva torne-se insuportável para ambos. Em todos os casos, percebe-se a inteligência dos muares – ainda que, as you know, não haja reciprocidade entre mulas, burros, asnos e sua péssima reputação.

Nevertheless, a pior reciprocidade que alguém pode propor é aquela que prejudica o proponente. Vejamos: algum burocrata (my God: sempre eles!) cria normas que dificultam a aquisição de seu remédio e, como recíproca, você deixa de comprá-los, sofrendo uma morte lenta e dolorosa. 

O Brasil – e outras nações – praticam a reciprocidade sem qualquer relutância. “Ah: seu país exige visto de meus cidadãos? Então vou exigir visto dos seus! Justo é justo! Ninguém há de passar por cima de nossa soberania.”

A situação já é insensata anyway. Don’t you agree? Vejam o que acontece quando a reciprocidade é aplicada a forças economicamente desiguais. Tenho um amigo canadense que vive querendo trazer seus compatriotas para o Brasil. Jimmy Duchamp – este é seu nome – é um entusiasta de vossas praias. Já fez as contas e viu que é perfeitamente possível fretar um avião e trazer seu povo para cá. Mas há um problema: a necessidade de visto encarece a viagem. Pior: a demora para obtê-los nas pouco equipadas casas consulares brasileiras no Canadá acaba fazendo com que os Canadians – eméritos viajantes em fuga do frio – prefiram sempre alguma ilha do Caribe que não lhes exija um monte de papéis e carimbos. Fenômeno parecido ocorre com norte-americanos, mexicanos e muitos outros povos amigos do Brasil

Não tenho números, mas ouso dizer que o maior país da América Latina tem perdido bilhões de dólares com essa coisa de responder a impropérios no trânsito. Por isso, my friend, concordo com você que a adoção dos vistos eletrônicos – mais rápidos e operacionais – aumentará o fluxo de viajantes nas terras de Santa Cruz. Anyway, uma reavaliação da reciprocidade (e, em última instância, das burocracias fronteiriças) seria ainda melhor. 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL.

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