A ilha mais escondida do Lago Titicaca

Prepare-se para viver uma experiência autêntica em Amantaní

Daniel Brito, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2009 | 02h22

Do alto da Ilha de Amantaní, a 4.100 metros do nível do mar, se tem a exata noção da grandiosidade do Lago Titicaca. Complicado é chegar até lá. Amantaní é uma das 41 ilhas do mais alto lago navegável do planeta. Destino exótico, recebe menos da metade dos visitantes das ilhas flutuantes Uros e Taquile, no lado peruano, e Ilhas do Sol e da Lua, na Bolívia.

 

Fotos: Daniel Brito

Tradição: só mulheres e crianças moram na ilha - elas recebem os turistas com comidas leves e típicas

 

Compreensível quando se sabe que o turismo só chegou a Amantaní há menos de uma década. Até então, eram essas outras ilhas os melhores locais para se conhecer a autêntica cultura do Titicaca. Elas têm seu charme, mas recebem os viajantes de um jeito, digamos, mais impessoal. Amantaní está a 36 quilômetros do porto de Puno, cidade peruana de onde sai a maioria das embarcações turísticas. São quase quatro horas de viagem, tempo suficiente para encher o cartão de memória da máquina com fotos do lago.

Mas, cuidado: economize bateria porque não há energia elétrica em Amantaní. E é preciso ficar um dia inteiro, dormir na casa de um dos habitantes, comer da comida típica feita por eles... Por ali, não há água encanada, telefone ou hospital.

Só mulheres e crianças moram em Amantaní. Os homens, logo que completam 18 anos, rumam para Puno, Arequipa ou Lima para vender os produtos da ilha e retornam para casa uma vez por semana. Os mais velhos permanecem ajudando nos serviços domésticos. O idioma mais falado é o quíchua - retrato da herança inca -, seguido do espanhol. Nosso portunhol nem sempre é compreendido, mas eles têm boa vontade. Comunique-se com gestos.

Os turistas são recebidos com alguma surpresa. Apesar de ser um tour barato - agências em Puno oferecem o passeio por a partir de R$ 50 -, não há muitos grupos interessados em visitar o local. De fato, é preciso ter um certo desprendimento de higiene e conforto.

Ao notar a chegada de um barco, mulheres com longas saias brancas e véus coloridos descem ao porto. Um homem chama uma a uma e distribui os hóspedes, mais ou menos como se faz quando se monta um time para uma pelada de futebol.

O desembarque ocorre na hora do almoço, quando as anfitriãs preparam chá de coca com uma erva chamada muña, excelente para o estômago, que a essa altura pode estar reclamando do soroche, o tal mal de altitude, que também causa tontura, falta de ar e dor de cabeça.

Hora do almoço

No almoço, nada de carne, frango ou o refrigerante Inca Kola, como nas outras ilhas. A refeição é à base de diversos tipos de batata e quinoa, poderoso grão andino. Primeiro, uma sopa com esses dois ingredientes. Para completar, seis batatas assadas, metade delas pretas e mais doces que as comuns. Há poucas variações no cardápio no jantar e no desjejum. Ah, é deselegante deixar comida no prato.

Antes de explorar a ilha, faça uma siesta no quarto de hóspedes, para se aclimatar à altitude. As casas têm um "puxadinho" com teto de zinco, com camas de casal arrumadas com muitos cobertores - a temperatura pode chegar a zero grau à noite - e penicos. Sim, o banheiro é lá fora e qualquer emergência é resolvida dentro do quarto mesmo. A descarga? Legítimos baldes de água fria do Titicaca.

Após o cochilo, a aventura: caminhar até o topo do Llacastiti, ponto mais alto da ilha. Em linha reta seriam quase 300 metros, mas o caminho é extenso e é preciso muito chá de coca para mandar o soroche para longe. No alto do Llacastiti, uma ruína pré-inca homenageia a pachamama, a mãe terra. De lá avista-se a Cordilheira dos Andes margeando todo o lago.

O sol se põe no lado peruano, a oeste. Não sem antes deixar seus últimos raios rebaterem na cobertura de neve das montanhas andinas na parte boliviana, a leste. Eles refletem nas águas do lago e produzem o pôr-do-sol mais colorido e deslumbrante do Titicaca.

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