Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

A indústria da saudade e o ímã de geladeira

Um ímã de geladeira não é só um ímã de geladeira. Assim como um rosa não é só uma rosa. O ímã é a saudade que eu senti quando...

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h40

 Era assim que eu deveria começar essa crônica. Seria um crônica feita para ser compartilhada nas redes sociais, alavancar a audiência, provocar uns suspiros, soar como um tipo de autoajuda aceitável e ser pendurada na porta da geladeira por um... ímã. 

 Mas, infelizmente, eu não suporto ímãs de geladeira

Vamos lá, amigos, sejamos honestos: se eu já te dei um ímã de geladeira foi por mera convenção social.

A indústria da saudade nos obriga a gastar 10 libras em souvenirs horríveis para justificar uma ausência de 30 dias ou bem menos. Aliás, percebam como a indústria da saudade é muito mais cruel do que qualquer outra indústria que existe por aí (e pode colocar nesse pacote indústrias poderosas como a do entretenimento, da bebida, das armas, do sexo...). Acho que qualquer pessoa adulta e sem restrições de ordem médica precisa conseguir ficar ao menos um mês longe dos seus entes queridos sem que isso se transforme em uma novela mexicana ou um problema de fundo emocional.

 

Passar um tempo sozinho e sem pensar em ninguém deveria ser uma experiência libertadora. Mas a incansável indústria da saudade não deixa. Ela precisa vender seus ímãs a qualquer custo. Por isso, somos invadidos por um sentimento de culpa que, consequentemente, produz um tipo de endorfina responsável por nos fazer comprar lembrancinhas, bugigangas plásticas, camisetas que vão encolher na primeira lavagem, chaveirinhos ridículos, canecas, copinhos de shot e dedais. Dedais! E claro, comprar os benditos ímãs – que devem corresponder a 70% dos gastos do brasileiro médio no exterior.

“Mas que fofo, ele pensou em mim.”

Na verdade, não penso em absolutamente nada quando compro ímãs. Entro na loja, tomando um cuidado extremo para não esbarrar em nenhum objeto, e pego, aleatoriamente, aquelas pecinhas deprimentes e sem significado com a pressa de um Usain Bolt doidão (percebam como os corredores desses estabelecimentos são estreitos, armadilha clássica para um desastrado como eu quebrar umas porcarias de vidro e se sentir constrangido a pagar pelo acidente). 

Depois, no Brasil, faço o périplo tradicional de quem acaba de voltar das férias e, normalmente, sou recebido como um exilado que passou 30 anos fora – e não duas míseras semaninhas. Nessas ocasiões, entrego aos amigos e parentes meus ímãs de geladeira como quem se livra de uma obrigação cartorial. 

Além disso, não me convence o fetiche de uma porta de geladeira repleta de ímãs. Pra quê?

Para acordar no meio da noite, desesperado de fome, e, antes de resgatar o resto do jantar, olhar para a porta da geladeira e se lembrar daquele lanche incrível que você experimentou em um mercado Amish na Filadélfia? E, quem sabe, ao se deixar invadir pela imagem de um Philly Cheese Steak, desistir do assalto noturno e evitar ganhar uns dois quilos ou mais.

Ou talvez os tais ímãs de geladeira sirvam para aliviar uma discussão entre namorados que, no auge do amargor, usem a porta da geladeira para se lembrarem que um dia, lá pelos anos 90, foram felizes no sul da Bahia.

Resumindo: não me tragam ímãs de geladeira. E me desobriguem disso também. No mais, ninguém me tira da cabeça que o “made in China” dessas pecinhas envolve algum trabalho escravo ou pandas degolados por puro prazer estético.

Mas, olha, mudando de assunto, seria uma gentileza, uma tremenda delicadeza, se ao passar pelo free shop, meus queridos amigos e parentes pudessem me trazer aquele uisquinho escocês que por aqui custa uma fortuna. Tô com saudade de tomar um desses.

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