Reprodução
Reprodução

A lamentável volta dos hieróglifos

Mr. Miles não gosta de emojis

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h40

De volta à sua terra natal, onde o calor está um pouco mais ameno do que o da Europa continental, Mr. Miles mostrou que está disposto a estabelecer uma grande polêmica com sua resposta à pergunta abaixo:

 

Mr. Miles: o senhor usa emojis?  E qual deles prefere? 

Rosana Tejada, por e-mail

“Well, my dear, a resposta é simples. Não uso emojis. Never! Se lhe interessa saber, acho que esses pictogramas, unfortunately, estão substituindo as palavras, frases, pensamentos e emoções. Estamos retornando, em desabalada carreira, ao tempo dos hieróglifos, que só existiram como eram porque – believe me – ainda não tínhamos evoluído o suficiente para desenvolver o alfabeto. O homem primitivo, by the way, usava emojis adequados a quem só consegue se expressar de forma pictórica. Basta visitar as paredes repletas de arte rupestre da Serra da Capivara, no Piauí, para ver que beleza de desenhos eles produziam há 50 mil anos. 

 Com tristeza observo que, no início do século 21, as pessoas estão trocando o hábito de ler pelo hábito de ver figurinhas. Os rostinhos angelicais e os coraçõezinhos lembram, in fact, as imagens que os colegiais de algum tempo atrás pintavam em seus caderninhos. Com uma diferença básica: eles o faziam de forma carinhosa e ingênua. 

 Nowadays, grande parte das pessoas ousa tentar formar frases com sentido usando símbolos não muito claros. Vejo as seguintes imagens na tela do meu computador, enviadas por uma leitora: dois corações – um que ri e outro que chora –, quatro raios (vem aí uma tempestade?), três simulacros de rojões explodindo, um dedão obscenamente desproporcional fazendo o que, I presume, seja um sinal de positivo, dois ursinhos, um carro vermelho e uma bandeira da Inglaterra.

 Perdoem-me perguntar: será possível que isso seja uma frase do tipo amo e choro de amor, ó raios, no réveillon meu dedo fica grande, sinto-me forte como dois ursos e sonho com um carro vermelho na Inglaterra?

 
 Oh, my God: vou ter de procurar mais uma Pedra de Roseta (N. da R.: a Pedra de Roseta é um pedaço de granito da era dos faraós, que foi encontrada em 1799 pelo soldado Pierre-François Bouchard e foi decisiva para que, finalmente, os cientistas compreendessem o significado dos hieróglifos).

 A preguiça, I dare to say, é a mãe de todos os emojis. Não resta a menor dúvida de que digitar uma lua sorridente é muito mais fácil do que escrever uma frase do tipo “hoje estou tendo uma noite feliz na companhia de quem amo”, and so on.

 Os japoneses, fabulosos criadores de ideogramas, tecnologia e bobagens como um mascote-chaveiro, são os pais dessa linguagem dos néscios. Um pequeno rosto sorridente com duas lágrimas foi consagrado (shame on them!) por acadêmicos de Oxford como a palavra do ano, recentemente. Só posso supor que a escolha ocorreu – as a joke – logo após uma irresponsável esbórnia com uísque de péssima qualidade.

 Infelizmente, como vocês sabem, minha mascote Trashie não pode mais enxergar. Caso contrário, eu tentaria saber se os emojis funcionam com todos os seres irracionais – ou só com alguns. Anos atrás, besides, a prefeitura de Paris decidiu estampar o desenho de um cachorro no meio-fio das ruas da cidade, na esperança de que os cães compreendessem o apelo e não deixassem seus dejetos pela cidade. Não funcionou. Seguindo a lógica dos emojis, talvez tivesse dado certo se, em vez de um cachorro, a prefeitura tivesse mandado desenhar um cocô. What do you think about?

 O fato é que está previsto para breve o lançamento de um novo pictograma: o emoji do cocô triste. Sabem para que serve? Para dizer algo como ‘Shit happens’. O tempo todo, my friends, o tempo todo.” 

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Mais conteúdo sobre:
Mr. Miles Tecnologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.