Cecília Cussioli/Estadão
Cecília Cussioli/Estadão

A natureza mística das Ilhas Maurício

A pluralidade ética e religiosa é tão característica do país ilhéu quanto suas belas praias, onde resorts luxuosos enchem de mimos quem desembarca por lá

Cecília Cussioli, O Estado de S. Paulo

20 Abril 2015 | 15h10

Os primeiros relatos que ouvi sobre Maurício estavam recheados de clichês: mar azul-turquesa, areia branca, o pacote ideal para casais apaixonados. Uma única busca no Google e lá estava a superestimada citação de Mark Twain: “Primeiro Deus criou as Ilhas Maurício, depois o céu”. 

À deriva no Oceano Índico, 2 mil quilômetros a leste da costa da África, a principal ilha do Arquipélago de Mascarenhas – composto também por Rodrigues, Reunião e outras ilhas não habitadas – é famosa por ser refúgio de turistas europeus ricos e jet setters que querem fugir dos holofotes. O que ainda pouco se fala é da pluralidade estética e cultural do país, um curioso mosaico étnico resultado de quatro séculos de colonização. 

Na ilha, descoberta oficialmente pelos portugueses em 1505 e ocupada por holandeses – que a batizaram em homenagem a Maurício de Nassau –, franceses e ingleses convivem com cidadãos de origem indiana, africana, chinesa e europeia. A população soma 1,3 milhão de habitantes, dos quais dois em cada três têm ascendência indiana. Circulam hindus, cristãos e muçulmanos falando inglês, francês e crioulo. 

A pluralidade religiosa colore, literalmente, as ruas do país. Os telhados das casas são pintados de acordo com a crença de seus moradores. Os chineses ficam com o azul, cristãos com o amarelo, hindus com o vermelho. Estes chamam ainda mais atenção com as construções tâmil, estátuas multicoloridas de deuses e animais. A atmosfera acaba envolvendo até os turistas mais céticos. No Grand Bassin, lago sagrado ao sudoeste da ilha, é impossível não parar para fotografar as dezenas de famílias que diariamente trazem oferendas para Shiva às margens do que acreditam ser um pedacinho do sagrado Rio Ganges, na Índia. 

A mistura complexa de culturas legou à gastronomia um sabor especial. Influências asiáticas, indianas, crioulas e francesas se encontram à mesa. Os frutos do mar são protagonista desse caldeirão, em especial o sacré chien, peixe local branco e delicado, preparado sempre sem economia de especiarias e pimentas. Os restaurantes dos resorts e hotéis de luxo são comandados por chefs talentosos, que harmonizam com habilidade curry, leite de coco e baunilha. Quando se trata de comida de rua, dhal puri (lentilha servida como recheio de uma espécie de panqueca) e boulettes (bolinhos chineses de lula) são especialmente saborosos.

As linhas intermináveis e geométricas das plantações de cana-de-açúcar ao longo das estradas são um lembrete de que Maurício é, essencialmente, agrícola. O cultivo ocupa quase 50% dos 2.030 quilômetros quadrados que formam a ilha, território pouco maior que o da cidade de São Paulo. Chá, café, baunilha, tabaco e cacau engrossam a atividade que representa 60% da economia. O turismo é apenas a terceira, atrás da indústria têxtil. 

A capital Port Louis não ganha ninguém pela aparência. Cartazes de redes de fast-food, edifícios espelhados e o trânsito caótico inibem a beleza de algumas construções coloniais. O quente e úmido mercado central é uma ressalva charmosa e sensorial, com vegetais vistosos e enormes ramos de tomilho perfumando o ar (leia na página 5). Se puder escolher, faça compras também no mercado de Flic en Flacq, cidade ao leste da ilha – lá, a estrutura é mais organizada e os preços, mais baixos. Um sari sai por 700 rúpias, algo como U$ 20. É bom lembrar que, no comércio de rua, o verbo imperativo é pechinchar. 

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Natureza inspiradora. Enquanto a mistura étnica faz de Maurício um lugar único, a aquarela das belezas naturais reafirma todos os belos e inegáveis clichês da ilha. A areia fina e alva, o mar que oscila entre o verde-esmeralda e o azul-turquesa ao sabor da luminosidade, palmeiras que formam corredores de sombra pela orla, frutas tropicais servidas à beira-mar nos principais resorts da ilha. 

Uma barreira de corais circunda quase totalmente os 180 quilômetros de costa, transformando muitas praias em pequenos bolsões de águas calmas e quentes. Os recifes são ideais para mergulho e snorkelling. 

O arquipélago está no Hemisfério Sul e, portanto, as estações do ano coincidem com as brasileiras. No inverno, as temperaturas ficam entre 20 e 25 graus; no verão, de 30 a 35 graus, com algumas pancadas de chuva. No geral, é ensolarada durante o ano inteiro. 

Maurício recebe anualmente 1 milhão de estrangeiros, principalmente da Europa, do Oriente Médio e da Ásia, segundo a MTPA, autoridade turística local. Há dez anos, o número não chegava a 500 mil, e a meta é alcançar 2 milhões em 2015. Com a crise na Europa, o país abriu os olhos para o mercado brasileiro, mais afeito aos mares caribenhos.

A diferença em relação a alguns pontos do Caribe é que, em Maurício, as praias nunca estão lotadas. E a atmosfera tropical encontra uma saborosa mistura de África e Ásia. 

Em alto-mar, a magia de um encontro com golfinhos

Os deslocamentos em Maurício podem não ser tarefa das mais fáceis. As estradas até estão em estado razoável, mas a mão inglesa e o trânsito caótico tornam o aluguel de carro uma opção difícil. O transporte público é barato, mas ainda tento decifrá-lo. O melhor mesmo é reservar passeios em tours que o próprio hotel pode organizar. 

Entre os períodos de ócio sem culpa nas praias, reserve um dia para acordar cedo e nadar com golfinhos selvagens. Diferente do modelo caribenho de interação com esses animais, aqui eles não são domesticados, nem mantidos em cativeiro. O encontro com grupos de até 30 golfinhos é uma experiência intensa. Pequenas lanchas para dez pessoas saem duas vezes ao dia (às 8 e às 11 horas) de Black River, na costa oeste. A presença de um guia é indispensável para manter a segurança e viabilizar o passeio. 

Na teoria é simples: em alto-mar, a 20 minutos da costa, famílias inteiras de golfinhos estarão nadando em volta do barco. Pule na água e junte-se a eles. Na prática, o feito é um pouco mais complexo: em geral, há mais de um barco tentando cercar os mesmos animais. E, na água, eles ganham em velocidade – assim, você mais observa que nada de fato junto da espécie.

Seja paciente e aproveite a água translúcida e quentinha do Índico para relaxar. Quando menos se espera, ali estão eles, dezenas de golfinhos a poucos metros de profundidade, prontos para serem fotografados. 

Rumo ao Sudoeste da ilha, pode-se conhecer pequenas vilas de pescadores que mantiveram os costumes e tradições dos negros cristãos. Chamarel e Le Morne surgiram como quilombos no início do século 20, e eram símbolos de resistência dos escravos fugidos das fazendas de cana-de-açúcar. É impossível não lembrar do Nordeste brasileiro. Há inclusive uma versão reduzida das falésias de areia colorida das praias do Ceará. 

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Rum. Também com “jeitinho brasileiro” é o DNA do açúcar na economia e culinária local. Se nas nossas praias a caipirinha é a mais pedida, aqui o rum reina absoluto. No passeio guiado pela destilaria Chamarel é possível ver todas as etapas de produção da bebida. Vale pela degustação e para entender, afinal, qual a diferença para a nossa cachaça.

Em poucas palavras, os dois destilados são feitos a partir de espécies diferentes de cana em processos minimamente distintos: o rum vem do melaço (caldo de cana cozido), a cachaça da garapa (suco fresco de cana). Além disso, o teor alcoólico do rum supera os 48% permitidos pela legislação brasileira. 

Na Chamarel é possível provar ainda o Vanilla Liquer (feito com Premium Rum) e os thé rhuns, que misturam a bebida aos sabores doces de coco, baunilha e café. Que podem, claro, ser levados para casa.

Como chegar

Aéreo: SP–Maurício–SP: US$ 1.492 na South African e R$ 6.665 na Emirates  
Documentos: visto não é exigido dos brasileiros; vacina contra febre amarela, sim 
Moeda: R$ 1 vale 11 rupias mauricianas 
Site: tourism-mauritius.mu

*Viagem a convite de One & Only Le Saint Geràn e South African.

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