Farrel/Estadão
Farrel/Estadão

A polêmica das biografias e o whisky congolês

Nosso impagável correspondente foi convidado para o batizado de George, herdeiro do trono britânico. A seguir, a correspondência da semana:

MR. MILES*,

29 Outubro 2013 | 16h36

Querido mr. Miles: reparo que, em seus artigos, muitos nomes célebres são frequentemente mencionados. Alguma dessas pessoas já entrou na justiça contra o senhor? E o prezado viajante tem acompanhado a polêmica sobre as biografias no Brasil?

Maitê Guinerre, por e-mail

“Well, my dear: first things first. Quanto à primeira parte de sua questão, ouso dizer que é impossível que algum amigo célebre me processe pela utilização de seu nome. Sempre o faço com o maior respeito e, even more important, com absoluta fidelidade aos fatos. Unfortunately, os mais mencionados deles, como Winston Churchill, Agatha Christie, Bernard Shaw ou o Marechal Bernard Montgomery, já não estão aqui para afiançar minhas palavras. Mas, se você tiver a oportunidade de perguntar sobre o tema à minha querida rainha Elizabeth II, ela confirmará o que digo. Aliás, estive com ela na semana passada durante o batizado de George e fiquei feliz de vê-la emocionada como há muito não ocorria. Na presença de seus três presumíveis herdeiros - Charles, William e o pequeno George -, a rainha deixou entrever discretas (mas magníficas) lágrimas reais. It was Amazing!

Quanto à polêmica das biografias, confesso que não entendi bem o que passou pela cabeça dos intelectuais brasileiros que defendem biografias autorizadas e participação nas vendas de livros sobre suas pessoas. Cheguei a pensar, I must say, que na reunião de criação do grupo Try to Know rolou uma discutível garrafa de whisky congolês, capaz de provocar violentas alterações de comportamento e raciocínio. Minha Trashie lambeu uma colher com essa bebida certa feita e agiu por três dias como se fosse um gato, miando copiosamente!

Eu fico pensando, dear Maitê, o que realmente nos pertence. As escrituras de nossas propriedades? Os documentos dos nossos carros? A grandeza de nossas reputações? Well: você escolha a resposta que preferir, mas não tenho dúvidas que Chico Buarque, Djavan e seus pares não escolheram a terceira opção. Depois do ocorrido, apenas biografias autorizadas e biógrafos bem pagos poderão enxergar qualquer grandeza em suas histórias.

Quanto à questão pecuniária, a mesquinhez parece ainda maior. O que é uma biografia senão a soma das ocorrências, boas e ruins, de uma vida? Para infâmias, mentiras ou calúnias existem as leis de reparação. Mas é escandaloso que um biógrafo não possa juntar as notícias relativas à vida de uma pessoa pública. Se assim for, o mesmo critério deve ser aplicado aos jornalistas que, dia após dia, mencionam as pessoas destacadas de qualquer sociedade. Let’s say: uma taxa de 5 pounds para o uso do nome de Chico Buarque. E quanto se pagará, for instance, a Djavan?

Voltando à monarquia inglesa: todos os nossos jornais, dos mais sérios aos mais infames, trazem notícias diárias sobre a dinastia de Windsor, suas conquistas e fracassos, seus escândalos e glórias. Se aplicada a pequena taxa de 5 pounds por citação, nossa monarca, for sure, já teria comprado a França (se é que a França a interessasse, of course)!

No que me concerne sobre o tema, passo a vida contando o que posso sobre lugares - cidades, países, regiões - que tenho a oportunidade de conhecer. Sometimes, encantado, cubro-os de elogios e faço as melhores ilações que posso a fim de deleitar meus leitores. Another times, however, os lugares me decepcionam e não deixo de usar os mesmos recursos para manifestar minha decepção. E o que são os lugares senão a soma da infinita biografia de seus ocupantes ao longo do tempo? Os bons, os ruins, os guerreiros, os fracos e todos os demais?

Eu poderia ser processado por usar seus nomes ou ter de apresentar um texto prévio para seus governantes. Mas, veja só, dear Maitê: isso nunca aconteceu. Nem mesmo os piores déspotas (e o mundo está cheio deles) exigiram que eu mudasse uma única linha do que escrevi sobre seus países. Eu disse déspotas - e não artistas populares! Enfim, darling, conforme eles mesmo pediram, eu estou trying to know. E a única resposta compreensível que me vem à cabeça é mesmo o whisky congolês!”

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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