Laura Maia|Estadão
Laura Maia|Estadão

Laura Maia - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 05h00

Se por uma lado pronunciar corretamente o nome desta cidade é difícil, por outro, encantar-se por Aarhus não requer esforço algum. Eleita Capital Europeia da Cultura em 2017, a segunda maior cidade da Dinamarca finalmente saiu das sombras de Copenhague e ganhou o destaque que merece no roteiro de quem visita a Escandinávia. 

Aarhus (que soa algo como "órrus") é vibrante, charmosa e consegue reunir o que há de melhor em uma "pequena grande cidade", como brincam por aqui. Isso porque ao mesmo tempo em que ostenta construções históricas e premiadas, restaurantes estrelados e museus internacionalmente reconhecidos, a cidade é extremamente aconchegante e a maioria de suas atrações podem ser visitadas a pé ou de bicicleta. Basta se perder por suas ruas estreitas, salpicadas de cafés e ciclistas, ou passear pelos bosques com vista para o Mar Báltico, que fica fácil entender o porquê de cada vez mais gente esticar a viagem até esse cantinho do Reino da Dinamarca.

Localizada na península de Jutlândia, a cerca de três horas de trem de Copenhague, Aarhus tem 330 mil habitantes, dos quais 40 mil são estudantes universitários. É a cidade com a população mais jovem do país, o que pode explicar não só a animada vida noturna, mas também o destaque da arte contemporânea e o grande número de pais jovens pedalando pela cidade com seus filhos. 

 

Como no resto do reino, faz bastante frio ao longo do ano e, por isso, é importante escolher bem quando ir. No inverno, a luz do dia pode durar apenas algumas poucas horas, as temperaturas caminham pelo terreno negativo e a neve aparece em algumas semanas para enfeitar a cidade. Nessa época do ano, portanto, os museus são os maiores destaques, uma vez que as praias ficam geladas e os bosques, pelados. Mas na primavera e no verão, a cidade se transforma. 

As mãos, que ficaram reféns do frio durante tantos meses, agora estão sem luvas segurando uma cerveja na beira do rio. O verde toma de volta os bosques, pequenas margaridas brotam na grama e, finalmente, chegou a hora de esperar por uma mesa na calçada dos cafés.

Os estudantes voltam a ler nos parques, as crianças correm nuas pelas praias e tudo vira uma desculpa para estar ao ar livre e soprar um dente-de-leão. Estamos falando aqui de temperaturas que rondam os 20, 25 graus, e um sol que se põem só para lá das 22 horas. O céu só ficará completamente escuro por poucas horas. 

Há algo de muito especial nas longas noites de verão dinamarquesas. Espera-se tanto por isso que é um privilégio poder estar ali diante desse reencontro com o sol.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 04h00

Era 16h45 e o tour começou pontualmente. Diferentemente dos típicos passeios em uma cidade turística, o que importava ali não eram os monumentos ou a história local, mas sim como a cidade era vista pelo nosso guia. De longas barbas brancas, o inglês David Rickerby, que morou mais de cinco anos pelas ruas de Aarhus, é um dos 25 guias do Poverty Walk (Tour da Pobreza). 

O projeto tem como objetivo lutar contra a invisibilidade das pessoas em situação de rua, ao mesmo tempo em que oferece um tour alternativo pela cidade. Iniciativas como essa já existem em outros locais da Europa, como Londres, Copenhague e Berlim, e vêm despertando cada vez mais interesse não apenas dos turistas, mas dos próprios moradores.

Fiz o tour com funcionários de uma mesma empresa, todos dinamarqueses, interessados em ver por outro ângulo a cidade em que vivem. A caminhada começou em frente ao Værestedet (algo como Hábitat), uma simpática casa vermelha onde moradores de rua recebem suporte do poder público, participam de atividades sociais e podem conseguir trabalho de guia ou de vendedor da revista Hus Forbi, cujas vendas ajudam essa população.

Aos poucos, David foi nos mostrando (por fora) locais que fazem parte da vida de quem mora na rua no país com um dos menores índices de desigualdade social do mundo. "É comum acharem que, porque estamos na Dinamarca, as pessoas são moradoras de rua porque querem, o que não é bem verdade", observa o guia. Segundo o último levantamento oficial (em 2015), o país tem 6.138 moradores de rua, 11% desse total em Aarhus. 

Todo o tour é costurado com a história do próprio David, que ficou famoso na cidade há três anos por causa de um documentário produzido pelo canal público TV2. Desde então, mais gente pode saber a trajetória de alguém que entrou na vida do crime aos 14 anos, passou cinco anos na prisão por assalto à mão armada na Inglaterra e foi parar nas ruas dessa charmosa cidade dinamarquesa, coletando garrafas e latas para reciclar. 

E aí vem a parte mais inusitada: David já publicou três romances policiais graças a uma campanha de crowdfunding, o que foi o impulso para conseguir sair das ruas e viver num trailer ao sul da cidade.

O tour inclui ainda as melhores regiões para coletar garrafas e latas, locais onde moradores de rua (inclusive ele) foram vítimas de violência, o abrigo que oferece suporte para mulheres em situação de rua, a escola que oferece cursos como o de carpintaria para aqueles que querem entrar ou voltar para o mercado de trabalho... 

Depois de uma hora e pouco, chegamos à principal praça da cidade. Ali, em frente a imponente catedral de Aarhus, David relata como o Natal é uma época difícil para quem mora na rua. 

No fim, ainda fui tomar um café com David no seu bar preferido. O dono do estabelecimento não deixou que nós pagássemos. "David é de casa", disse. Consulte datas disponíveis em pw.aarhus@gmail.com; custa, em média, R$ 50. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 04h00

De restaurantes estrelados a food trucks e cachorro-quente de rua, Aarhus oferece uma grande variedade de opções gastronômicas. Vale a pena caminhar pelas ruas do Latin Quarter, a parte mais antiga e charmosa da cidade, para encontrar o lugar que mais combina com seu paladar (e seu bolso). 

Substan 

restaurantsubstans.dk 

Substans é um dos quatro restaurantes com estrelas Michelin da cidade e tem um conceito interessante. Sem um menu fixo, o cliente é apresentado a apenas duas opções (para não perder tempo escolhendo, como eles avisam no site). No universo da culinária dinamarquesa/francesa, o menu, que inclui entrada, prato principal e sobremesa, sai a R$ 225 (550 cororas dinamarquesas). O foco é em comida e vinhos orgânicos. 

Street Food Market

Ny Banegaardsgade 46 

Você não pode passar por Aarhus sem comer pelo menos uma vez no Street Food Market. Localizado ao lado da estação de ônibus, onde funcionava uma antiga garagem, o local reúne cerca de 30 food trucks de bebida e comida de várias partes do mundo. Longas mesas de madeira, na qual estranhos se sentam lado a lado, música de fundo e gente de todas as idades fazem deste um dos lugares mais agradáveis de Aarhus. Para quem quiser provar a comida típica da Dinamarca, o Mormors Køkken (Cozinha da Vovó, em dinamarquês) é uma ótima pedida porque oferece as deliciosas e típicas tarteletter (uma espécie de massa folheada recheada de frango com aspargos). Três dessas tortinhas custam R$ 25. Também vale provar o delicioso hambúrguer de pato do Duck it (R$ 40).

Den Rustikke

Mejlgade 20 

Em uma das ruas mais charmosas da cidade, o restaurante é daqueles onde se pode comer muito bem sem gastar tanto assim. Com clima romântico e garçons extremamente simpáticos, muda o menu todos os dias, com opções que vão de bacalhau a carneiro. Entrada, prato principal e sobremesa saem por R$ 90.

Cachorro-quente de rua 

Todo mundo que vai a Nova York recebe a recomendação de provar um hot-dog na rua. Pois faça o mesmo na Dinamarca. Deliciosos, estão por toda parte e custam cerca de R$ 15. A versão dinamarquesa inclui picles, crocantes cebolas fritas e remoulade, espécie de maionese muito comum no país.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 04h00

O verão em Aarhus é sinônimo de festivais para todos os gostos – os principais ocorrem de maio a setembro. Programe-se:

Aarhus Festival

Até 3 de setembro, reúne mais de mil atrações culturais. A programação inclui artistas de rua grafitando murais, ioga ao ar livre, debates. Algumas atrações são pagas, mas a maior parte é gratuita. Além de palcos montados em parques, há um superfestival gastronômico, com muita cerveja dinamarquesa gelada. Confira a programação: aarhusfestuge.dk/en.

Spot Festival 

Em maio, o Spot Festival leva às ruas da cidade de 100 a 200 shows com o que há de mais promissor no cenário de bandas nórdicas (spotfestival.dk/about/). As ruas ficam tomadas durante todo o dia

Northside 

O festival de música ocorre em junho e dura três dias. Este ano, Radiohead foi uma das principais atrações. Os ingressos são salgados (em torno de R$ 450); northside.dk. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia de Castro - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 04h00

Os museus de Aarhus vão muito além da mera contemplação: a interatividade dá as cartas por lá. 

ARoS 

en.aros.dk 

O topo do ARoS é um dos mais conhecidos cartões-postais da cidade. São 150 metros de arco-íris (sim, isso mesmo) por onde os visitantes podem caminhar enquanto observam a vista panorâmica de Aarhus. A obra de Olafur Eliasson (criado entre a Dinamarca e a Islândia) foi inaugurada em 2011 e trouxe ainda mais notoriedade para o belo museu, que reúne o que há de melhor em arte contemporânea. Um dos destaques é a escultura hiperrealista do artista australiano Ron Mueck. Com 4,5 metros de altura, o menino (Boy) agachado no canto de uma das salas impressiona pela riqueza de detalhes e estampa muitos dos souvenirs do museu – tente resistir a eles na loja do ARoS. Entrada a 130 coroas dinamarquesas (R$ 65); grátis até 18 anos. 

Den Gamle By (Cidade Velha)

dengamleby.dk 

Nesse museu ao ar livre, é possível ver como dinamarqueses viviam desde o século 16 até a década de 1970 por meio de 75 prédios históricos restaurados e realocados de diferentes partes do país. Trata-se de uma verdadeira viagem no tempo em que o visitante pode entrar nas antigas construções e ver não só como eram as casas por dentro, mas também como funcionavam sapatarias, relojoarias e farmácias. 

Charretes pelas pequenas ruas de paralelepípedos e atores vestidos com roupas de cada época contribuem ainda mais para que o visitante viaje nas décadas. Prove os bolos feitos a partir de receitas históricas que datam de 1885. Na época do Natal, o local abriga um dos tradicionais mercados de inverno. Ali, é possível ver como a data era celebrada antigamente – e a decoração é de tirar o fôlego.

Dentro do Den Gamle By há outros pequenos museus – entre eles, o dos Pôsteres, com uma coleção de 400 mil cartazes de diferentes épocas e países, e o do Brinquedo, com 5 mil peças (algumas do século 17). Preços variam de acordo com a época do ano; de 75 a 135 coroas dinamarquesas (R$ 37 a R$ 67). Grátis até 18 anos. 

Moesgaard Museum 

moesgaardmuseum.dk/en 

A área externa já vale a visita. O teto inclinado, todo de grama, harmoniza com a paisagem e vira cenário para piqueniques no verão ou um grande tobogã de neve para as crianças escorregarem no inverno. Inaugurado em 2014, o museu apresenta a pré-história de uma maneira surpreendentemente interessante. 

Com instalações multimídia e interativas, o visitante mergulha na Idade da Pedra, do Bronze, do Ferro e pode acompanhar a saga dos vikings. Entre os destaques está o Homem de Grauballe, com mais de 2 mil anos, encontrado em um pântano da região da Jutlândia em 1952. Por causa das propriedades químicas do local, o corpo é um dos mais bem preservados do mundo. 

Impressiona notar a expressão serena, o cabelo, as unhas e o corte na garganta. Há muitas especulações de como o homem morreu, mas uma das mais aceitas é a de que tenha sido em um ritual de sacrifício humano, comum na Idade do Ferro. Entrada a 140 coroas dinamarquesas (R$ 70); grátis até 18 anos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 04h00

O verão é época de aproveitar a natureza e as atrações ao ar livre. Aproveite que anoitece por volta das 22 horas nessa época do ano e curta tudo que Aarhus oferece. De preferência, de bicicleta: a impressão que se tem é que todos na cidade têm a sua – e, por isso mesmo, as cidades dinamarquesas são muito bem preparadas para quem anda sobre duas rodas. 

Aproveite as centenas de quilômetros de ciclovias para explorar todos os cantos da cidade. Você pode participar de tours em grupo ou alugar por dia (cerca de R$50). Confira as possibilidades em cycling-aarhus.dk.

Parque de cervos 

Ao sul da cidade, na direção do Moesgaard Museum, fica o Deer Park – ou, em dinamarquês, Dyrehave (bit.ly/bambiland). Não bastasse a área verde de 22 hectares e o mar logo ali em frente, o parque é cheio de pequenos “bambis”, que você pode alimentar com cenouras e maçãs (sim, é permitido). Totalmente acostumados com a presença de visitantes, os animais chegam pertinho e comem na sua mão (atenção, eles preferem as cenouras!). É lindo ver crianças pequenas ao lado de animais com enormes chifres, como se estivessem em um filme da Disney. 

Praia à dinamarquesa 

A praia mais popular de Aarhus, Den Permanente, fica a apenas 15 minutos de bicicleta do centro da cidade em uma região chamada de Risskov, no pé de um dos bosques mais bonitos da região. Com mar calmo (mas gelado!), a praia atrai muitos jovens que fazem churrasco no verão ou rodas de violão com a vista para o famoso prédio Iceberg, na região portuária da cidade. Como em todas as praias do país, é muito comum banhistas nadando nus. Não estranhe. 

Aa mais bonita da região, contudo, é outra, Moesgard Beach, a 7 quilômetros ao sul da cidade. Para chegar até lá, basta pegar o ônibus (linha 31) na estação central, mas a melhor opção é fazer uma trilha leve de 1,8 quilômetro a partir do museu Moesgaard. Na primavera, o caminho até lá é lotado de flores amarelas, vistas para o mar e algumas ovelhas. O mar é calmo e o clima é bem família. Um ótimo lugar para aproveitar os longos dias de primavera e verão. 

Icebergs 

Os prédios brancos de formato peculiar são o destaque arquitetônico da região portuária da cidade, que está sendo toda revitalizada. O nome que receberam, Icebergs (Isbjerget) fazem alusão ao curioso formato dos prédios, que parecem icebergs emergindo d’água. Em 2015, ganhou o prêmio de melhor projeto de habitação no site de arquitetura ArchDaily. No verão, é possível ver pessoas praticando wakeboard ou nadando na área em frente aos prédios; veja em  isbjerget.com.

Møllegade 

Em um passeio a pé pelo centro de Aarhus, não deixe de conferir esta rua estreita de paralelepípedo, com pequenas casinhas coloridas. Roseiras, bicicletas encostadas na janela e o clima de interior fazem com que a rua pareça cenário de filme. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 04h00

Como chegar de trem: Aarhus está a cerca de 3 horas de Copenhague de trem Compre com antecedência em dsb.dk/en para pagar, em média, R$ 50; as tarifas podem chegar a R$ 200. 

 

De ônibus: há opções do aeroporto ou do centro de Copenhague. Os ônibus têm Wi-Fi e mesas de trabalho. A viagem dura cerca de 4 horas, por uma paisagem que inclui moinhos, natureza e construções típicas. A partir de R$ 50; abildskou.dk/en

 

Site: visitdenamark.de

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.