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Afinal, o que é um hotel de design?

Mr. Miles, Mr. Miles, miles@estadao.com.br

16 Março 2010 | 09h 30

O homem mais viajado do mundo fala sobre os vários tipos de hotéis que existem

Nosso viajante permanece no Chile, onde vê a vida se normalizar, enquanto experimenta tremores secundários que lhe dão a estranha sensação de ressaca sem o prévio prazer da bebida. Ainda existe uma possibilidade de que ele retorne ao Brasil, mas preferimos não deixar expectativas no ar, dadas as últimas frustradas aparições por aqui. A seguir, a resposta da semana:

 

Mr. Miles: fui aos Estados Unidos e fiquei em dois hotéis de design. Não gostei da experiência. O que o senhor acha desses conceitos como design e butique aplicados à hospedagem?

Fabiana Campello, por e-mail

 

"Well, my dear: sou de um tempo em que existiam hotéis de alto luxo, hotéis para turistas, hotéis para caixeiros viajantes e pensões. Abaixo dessa categoria situavam-se apenas as casas de pernoite muito precárias, que, if I can remember, vocês no Brasil costumam chamar de muquifos ou cafofos. Nowadays, há todo o tipo de hotéis. Alguns ficam em prisões reformadas, outros ocupam navios ancorados, há hotéis subaquáticos, de gelo, hotéis pendurados em guindastes, exclusivos para mulheres, hotéis alegóricos, hotéis encapsulados, you name it.

 

De certa forma, dear Fabiana, o aumento de opções é bem-vindo para quem quer viver experiências exóticas, como dormir numa caverna bem decorada ou - como já relatei nesse espaço - em uma cabana em forma de beagle. However, as instalações de um hotel e a qualidade dos serviços deveriam corresponder à categoria a que ele pertence e, of course, ao preço que ele cobra.

 

Estou de acordo com você, darling, ao desconfiar de definições pouco objetivas como "hotel de design" ou "hotel butique". Elas, indeed, soam charmosas, mas muitas vezes não têm significado. Primeiro porque muitos designers são comprometidos com a estética de suas criações e, nem sempre, com a funcionalidade. Estive em um hotel conhecido de uma metrópole latino-americana que, de fato, parecia uma galeria de objetos inventivos. Na bela cadeira de meu quarto, porém, só um invertebrado conseguiria se sentar. A cortina, de um vermelho vivo, era um convite a pesadelos suicidas. E não havia maneira de eu fazer a barba sem transformar o banheiro numa lagoa. Do you know what I mean?

 

Em outra ocasião, fui recebido em estabelecimento semelhante por jovens vestidos de preto com olhar blasé, refletidos num sem-número de espelhos. Nem é preciso dizer que não havia sofá na recepção. E o quarto tinha uma profusão de espelhos e objetos atemorizadores. Na prática, entendi que tudo era ilusão de ótica para disfarçar as diminutas dimensões do apartamento. Além disso, não se pode minimizar o fato de que, como em todas as profissões, existem designers sem talento. Há um certo hotel, em Portugal, que um grupo desses profissionais transformou em um show-room de suas piores habilidades.

 

Nevertheless, não posso ser parcial e injusto: existem opções com design arrojado que são excelentes hospedarias. Como existem hotéis espartanos em que adoro me hospedar. Todo hotel, by the way, tem um desenho. Mais ou menos convencional. Mais ou menos aconchegante. Quem, afinal das contas, decide se o design lhe agradou é o hóspede. E, em minha modesta opinião de viajante, o argumento é vago. A continuar assim, logo virão os ‘hotéis telúricos’, os ‘hotéis sinceros’ e os ‘hotéis filosóficos’. Let’s wait and see."

 

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos