Mônica Nóbrega|Estadão
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Mônica Nobrega  , O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 05h00

INSIDE PASSAGE - Navegando pelos canais naturais da região de Inside Passage, as montanhas de granito que formam verticais paredões de até 2.500 metros de altura tinham se tornado companheiras de todas as horas. O cruzeiro pela costa do Alasca é diferente: nada de mar infinito e linha do horizonte longínqua. Em águas abrigadas, entre ilhas, o olhar lá para fora sempre encontra vegetação, cachoeiras que despencam de alturas impressionantes direto no mar, baleias. Vi pelo menos meia dúzia de grupos de jubartes.

Inside Passage é a menor das cinco regiões do Estado: uma borda de continente recortada em fiordes e ilhas recobertas de floresta úmida. Icebergs e picos gelados pontuam a paisagem, mas, no verão, boa parte do Alasca emerge da neve. O maior dos Estados americanos, duas vezes o tamanho do Texas e pouco mais que o Amazonas brasileiro, se revela também verde, para além do branco.

Navegar é a forma usual de se conhecer o Alasca. As distâncias são impeditivas e as rodovias, escassas, tanto que, do total de 1,78 milhão de turistas que foram ao Estado no ano passado, 56% estavam a bordo de cruzeiros. Outros 39% chegaram de avião, e apenas 4% usaram ferries e rodovias. Para ir à capital Juneau ou à histórica Ketchikan, por exemplo, ou você navega, ou voa.

Glaciar. Depois de dois dias e duas noites de navegação, o navio Disney Wonder embicou rumo a um vértice entre montanhas. Ainda à distância, não dava para ver que havia passagem ali. Ao longo da próxima hora e meia, o grandalhão de 293 metros de comprimento e 32 metros de largura, 11 deques e 2.713 passageiros, ziguezagueou por um labiríntico e estreito fiorde com destreza insuspeita para alguém do seu tamanho.

E assim, demos de cara com o glaciar Tracy Arm. A primeira parada daquela semana, na tarde do terceiro dia no mar, cerca de 2 mil quilômetros distante do porto de partida em Vancouver, no Canadá (veja o que fazer na cidade).

A temporada de cruzeiros no Alasca começa em maio, último terço da primavera, e vai no máximo até o meio de setembro, fim oficial do verão. É a época em que as temperaturas variam de 3 a 16 graus, em média. Antes e depois, o frio chega a 10 graus negativos em dezembro e janeiro, os meses mais gelados.

Passeios em geral só funcionam no verão. O turismo no Alasca é feito ao ar livre, como a visita ao glaciar Tracy Arm, vendida também em tours de um dia a partir de Juneau, cerca de 70 quilômetros ao norte, desde US$ 150 por pessoa.

Foram duas horas diante da massa congelada de Tracy Arm, bebendo chá para aquecer. Com binóculos, também dava para ver cabras-da-montanha caminhando pelos paredões e ficar de queixo caído com o equilíbrio dos bichos ali. Em seguida, o navio fez meia-volta e retomou o caminho do norte, onde, na manhã seguinte, os pés tocariam o solo do Alasca pela primeira vez naquele roteiro de uma semana, na cidadezinha de Skagway.

 

NA BAGAGEM

Roupa. Faz frio mesmo durante o verão e os passeios incluem gelo e altitude. Leve um bom casaco, malhas para usar por baixo, meias térmicas, luvas, gorro e cachecol. Chuva no verão do Alasca é regra, não exceção: tenha uma capa em mãos. Para o navio, algo mais arrumado para o restaurante Palo; de resto, tudo informal e confortável. Roupa de banho será útil para relaxar nas jacuzzis.

Calçados. Os muito urbanos terão pouca serventia. Um par de tênis ou uma bota de caminhada dão conta da semana.

Acessórios. Binóculos serão seus melhores amigos para observar animais nas montanhas, baleias e detalhes nas geleiras. Indispensável: mochila para os passeios.

Tamanho. Leve uma mala média para que a bagagem caiba com conforto na cabine e seja bem aceita no navio.

*A repórter viajou a convite da Disney Cruise Line.

 

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 04h30

Donos da casa. Dá trabalho receber tanta gente em casa, especialmente se você é um anfitrião famoso. No Disney Wonder, o casal Mouse, Mickey e Minnie, faz várias aparições por dia para saciar a ansiedade dos 2.713 passageiros por fotos. Capricham nos figurinos, atentos ao dress code da ocasião: precisava ver o casaco da Minnie na chegada ao glaciar Tracy Arm. Contam com ajuda variada: as aparições de personagens incluem Donald, Tico e Teco, Pateta, Buzz Lightyear e princesas para todos os gostos.

 

Ambientes. O navio tem design clássico, casco preto e o resto branco, uma coisa bem época de ouro dos cruzeiros. A decoração é sóbria, e ainda mais nas 877 cabines. Cores e personagens são reservadas às áreas de crianças, de piscinas a espaços de brincar segmentados por idades, mas concentrados no deque 5. Para adultos há tranquilidade. A área Quiet Cove tem piscina, jacuzzis e café exclusivos para quem passou dos 18 anos.

 

Restaurantes. São três os principais, incluídos no pacote, que os hóspedes frequentam em esquema de rodízio no jantar, vaivém que é acompanhados pelos mesmos garçons da primeira à última noite. O quarto restaurante, não incluído, é o italiano Palo, com bom jantar (US$ 30 sem vinho, US$ 89 com) e brunch melhor ainda: há bufês de frutos do mar, queijos, embutidos, pães, doces… Uma senhora comilança por US$ 30 extras.

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 04h30

SKAGWAY - Às seis da manhã do quarto dia, depois de 60 horas em movimento, o Disney Wonder ancora pela primeira vez. O navio carrega mais gente que o total de moradores da cidade que tem diante de si: são 920 os habitantes de Skagway. Boa parte deles mora em trailers e se muda temporariamente da cidade assim que o verão termina. No pico do inverno, sobram menos de uma centena de almas por ali.

A cidade propriamente dita é um triângulo acomodado num vão entre duas montanhas, com meia dúzia de ruas caminháveis em meia hora no máximo, na foz do rio de mesmo nome. Também desemboca ali uma ferrovia inaugurada em 1898, a White Pass & Yukon Route, hoje em funcionamento turístico. O passeio entre montanhas e abismos até Carcross, já no Canadá, é vendido no site da empresa a US$ 229 por pessoa. Navios vendem o tour.

Skagway foi importante durante a mítica corrida do ouro que colocou o Estado canadense de Yukon e o Alasca na mira de aventureiros de toda a América do Norte. O metal precioso, descoberto em 1896 em um afluente do Rio Klondike, levou até 20 mil homens para morar em Skagway e deu origem à ferrovia e à rodovia que ligam a cidade ao Canadá.

O saloon Red Onion foi inaugurado um ano depois da descoberta do ouro. Hoje funciona como pizzaria mas, no fim do século 19, era a antessala de um bordel, no andar de cima. Cerca de 300 mulheres trabalhavam ali, em dez cômodos que formam, hoje, o Museu do Bordel. Por US$ 10, uma guia vestida a caráter mostra objetos e roupas de época e conta as histórias, as corriqueiras e as picantes, daqueles anos. Aprende-se que a sessão com uma das moças custava US$ 5 e durava, no máximo, 15 minutos. E que o local é habitado pelo fantasma de uma das damas, Lydia.

Com os caçadores de fortunas, chegaram a Skagway os jornalistas. O camping Liarsville – vila dos mentirosos – ganhou esse nome em homenagem aos profissionais da notícia. Diz-se que misturavam folclore e realidade. A 5 quilômetros do centro, no meio da floresta, a vila é cenográfica: réplicas dos estabelecimentos da época, inclusive o que poderia ser chamado de sala de imprensa, onde moradores vestidos a caráter apresentam um show, convidam a assar marshmallows na fogueira e a brincar de garimpeiro em tanques cheios de areia e água onde os sortudos (ou muito pacientes) encontram minúsculas pedrinhas douradas. A excursão do navio da Disney inclui ainda a visita de personagens: Donald, Tico e Teco aparecem para fotos.

O passeio é curtinho e termina num almoço gostoso ao ar livre, com salmão no cardápio. Mas, pelo que oferece, não é exatamente econômico: custa US$ 59 por pessoa (bit.ly/liarsville).

Voo. Como o navio passa um dia inteiro em Skagway, dá para marcar um segundo passeio à tarde, com mais emoção. As 11 tirolesas e 4 pontes suspensas do circuito Grizzly Falls (desde US$ 169) passam por dentro de uma floresta de coníferas e por cima de cachoeiras e corredeiras. A paisagem é linda desde o momento que, num veículo 4X4, sobe-se o morro a partir do acampamento Mushers, num percurso repleto de chacoalhões. Apesar das alturas, aceita crianças a partir de 6 anos. 

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 04h30

JUNEAU - O helicóptero levanta voo e, em instantes, é possível ver que as montanhas enfileiradas ao longo do centro de Juneau perfazem uma muralha que separa a cidade de uma massa de gelo lá atrás. A capital do Alasca se acomoda ao longo das duas margens do Canal Gastineau formando um filete urbano, com a Ilha Douglas a oeste e o paredão de até 1,3 mil metros de altitude a leste, na borda do continente. Para lá do paredão, o Glaciar Mendelhall, principal atração turística local. 

Com 33 mil habitantes, Juneau é a segunda maior cidade do Estado, superada por Anchorage, que tem 300 mil. O piloto dá voltas para mostrar a diminuta área urbana, as florestas de coníferas, bem verdes no verão, os lagos glaciares. Tira fina dos paredões das montanhas enquanto, adiante, o campo de gelo começa a mostrar seus contornos. Agora já estamos sobre o glaciar, que tem 100 quilômetros quadrados de área e desce em curvas graciosas em direção a um lago. É como se uma corredeira de grandes proporções tivesse sido congelada em pleno movimento. 

O helicóptero pousa sobre o glaciar. A caminhada pelo Mendehall é medo e emoção, frio na barriga e no corpo. Há fendas de entranhas azuis transparentes por onde escorre água fazendo som de cachoeira. O fundo não se vê nem pedindo apoio à mão de alguém para se curvar um pouco mais sobre o abismo assustador. Uma fina camada que parece fuligem recobre a geleira; são sedimentos, não poluição, explica o piloto. 

A aventura toda dura 40 minutos e tem uma má notícia: o preço, US$ 495 por pessoa. Mas dá para chegar ao Mendelhall, que tem um bem estruturado centro de visitantes e um deque de observação a 20 quilômetros do centro de Juneau, até de ônibus municipal: bit.ly/mendelhall.

Também existe plano B, mais econômico que o sobrevoo, para ver Juneau do alto. Por US$ 33 embarca-se no bondinho Mount Roberts Tramway, que, em um dos trajetos mais verticais do mundo, parte do centro e leva a 550 metros de altitude. No alto há um parque verde, com muitos mirantes e trilhas bem sinalizadas segundo o nível de dificuldade e o tempo necessário para percorrê-las. Dá para subir e descer a pé, informa um dos guias do parque, mas não se você está num cruzeiro, que dá ao visitante 10 horas em Juneau. O trekking pode levar mais tempo e exige disposição. 

Um pouco de coragem é bem-vinda. A área é hábitat de ursos, conforme avisa uma placa perto do desembarque do bondinho. As precauções incluem fazer barulho, porque ursos não gostam de surpresas; não invadir o “espaço pessoal” deles; não deixar restos de comida que atraiam os animais. Para o caso de um encontro, a placa orienta assim, na sequência: fale com o urso e agite os braços, não corra (“você não consegue correr de um urso”), suba o tom de voz se ele começar a se aproximar, finja-se de morto em posição fetal se não adiantar. Caso o ataque prossiga, será porque o urso está vendo você como comida. “Lute bravamente”, dizem as instruções. 

Felizmente, não é a última orientação. A placa informa que os ataques são raros: nada de “ursofobia”, portanto.

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 04h30

KETCHIKAN - Molhado e gelado, o começo de tarde não estava para remo. Descer do ônibus de excursão quentinho, encarar a chuva, vestir uma capa úmida e entrar numa canoa por quê, mesmo? Mas Tongass é uma rainforest, uma floresta úmida, feito a nossa Amazônia. Muda fácil de humor. 

O humor dos visitantes também já tinha mudado antes que parasse de chover. Em grupos de 14 a 16, ocupamos canoas e passamos a meia hora seguinte absorvidos pelas instruções de como remar, devidamente incentivados a participar de uma corrida pelas águas do Lago Ward. Assim, chegamos a um acampamento em outro ponto da margem.

O Lago Ward é um lugar querido dos 8 mil moradores de Ketchikan. Com trilhas, camping e área de piquenique, é frequentado para o lazer. Está a meio caminho entre a cidade e o Parque Histórico Totem Bight State, ao norte, que conserva totens esculpidos em madeira pelos nativos do Alasca e conta a história dos tlingits, principal povo que habitava a região quando os primeiros colonizadores brancos começaram a se instalar, no último quarto do século 19, para abrir na cidade fábricas de salmão enlatado. 

Uma guia conduziu o grupo em uma trilha por dentro da mata, apresentando a vegetação variada e surpreendente da floresta Tongass, a maior dos Estados Unidos. Há ciprestes de mais de 20 metros de altura, folhas com um metro quadrado de área, poças de areia movediça onde a guia enfiou a perna e precisou se apoiar num galho para conseguir sair. O almoço foi servido no acampamento: salmão, sopa de frutos do mar, pão e geleia.

Na segunda parte do passeio, mais remadas pelo lago. O sol apareceu e a tarde abriu.

Palafitas. O centrinho histórico de Ketchikan é o mais interessante entre as cidades de Inside Passage por causa da Creek Street, uma rua comercial dos primeiros anos do século 20 formada por casas de madeira apoiadas em palafitas. Coloridas e em contraste com a verde montanha atrás, rendem ótimas fotos. 

As casas funcionam como lojas e restaurantes. Muitas conservam placas e mobília dos anos de 1920, quando só na Creek Street havia cerca de 20 bordéis. Visitas são guiadas e cobradas.

A Creek Street vende salmão aos montes, em vários preparos e sempre embalado para ser levado por turistas que vêm de longe. Por US$ 12 leva-se 300 gramas. O preço é basicamente esse mesmo nas várias lojas que vendem o peixe pela cidade. Que, além de ser a última parada do cruzeiro (as duas noites e o dia seguinte são passados em navegação), foi a que se mostrou mais variada para compras. Como destaque, joias, pijamas e malhas e a Christmas House, que vende enfeites de Natal o ano inteiro. 

PRATO, SOBREMESA E BEBIDA

1. Salmão: o peixe está em todo prato, nos restaurantes, nos almoços e piqueniques. E, durante o verão, também em toda parte, como atração turística a mais: rios lotam de salmões selvagens nadando contra a correnteza, a caminho da desova em seus locais de nascimento. Para levar, compre em Ketchikan.

2. Fudge: a Alaskan Fudge Company é a fábrica local do doce tipicamente norte-americano feito de gordura, açúcar e leite. Há lojas da marca em todas as cidades visitadas, com dezenas de variedades para degustar: chocolate, castanhas, frutas secas e mais. O fudge é muito, muito doce: compre para dividir.

3. Cerveja: a bebida tem sido companheira dos exploradores do Alasca desde a corrida do ouro. A Skagawy Brewing Companhy foi aberta em 1897 e tem um pub ótimo – peça a da casa, a Spruce Tip Ale. Em Juneau, a Alaskan Brewing Company se estabeleceu em 1986. A Amber é deliciosa.

Conheça outro cruzeiro da Disney:

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