Viagem

Albergues de brasileiros dão um toque familiar ao Caminho de Santiago

Quem são os brasileiros que oferecem teto e comida aos peregrinos ao longo do Caminho

11/09/2015 | 14h30    

Felipe Mortara - O Estado de S. Paulo

Não bastasse ser um dos 15 países que mais enviam peregrinos ao Caminho de Santiago – no ano passado foram 3.271 –, o Brasil resolveu fincar os pés na mais movimentada rota de fé do Ocidente. Todos tomaram a decisão após percorrerem o místico circuito mais tradicional, com 800 quilômetros, saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, e alcançando Santiago de Compostela, na Espanha, cerca de 30 dias depois. É inegável afirmar que o Caminho transformou estas pessoas. Assim, passaram de peregrinos a anfitriões, abrindo albergues particulares em pequenas cidades ao longo do Caminho Francês.

Refúgio Acacio & Orietta, em Rioja

Refúgio Acacio & Orietta, em Rioja Foto: Arquivo Pessoal

Rioja. Pioneiro em matéria de hospitalidade, o carioca Acacio Paz, de 57 anos, chegou à região da Rioja em 1998. De lá para cá, seu Refugio Acacio & Orietta, que mantém ao lado da esposa italiana, conquistou um lugar cativo e querido na rota dos brasileiros pelo Caminho Francês. “Fiz meu primeiro Caminho em 1998 por causa do livro de Paulo Coelho”, diz ele, em referência ao Diário de um Mago (1988). No início dos anos 2000, Acacio ajudou na produção de documentários para as televisões brasileira e japonesa sobre o escritor, de quem virou amigo. Posteriormente, o autor resolveu apadrinhar sua hospedaria, ajudando sempre que necessário.

Acacio é o criador da Rede de Albergues do Caminho de Santiago, com objetivo de unir boa parte dos proprietários de albergues particulares para garantir padrões de limpeza, hospitalidade e informação. “Tudo vale a pena quando se faz algo com coração, em qualquer lugar. São 17 anos vivendo no Caminho. Cheguei aqui caminhando e até hoje caminhamos. Não tinha planos de ficar aqui e, veja só, ainda estou fazendo meu caminho no Caminho”, conta Acacio.

Puente de la Reina. Outros brasileiros também aderiram à ideia. Em março de 2014, a assessora de imprensa Natalia Ferreira, de 45 anos, se mudou de Porto Alegre para Puente de la Reina e hoje recebe seis peregrinos por noite no Albergue Estrella Guia. “É muito simples, nos moldes do caminho e com cara da casa da gente, dá uma abraçada nos peregrinos depois de um dos momentos mais fortes e impactantes do caminho, o Monte do Perdão, onde  tudo o que queremos é acolhimento e carinho”, conta Natalia.

Albergue Estrella Guia, em Puente de la Reina

Albergue Estrella Guia, em Puente de la Reina Foto: Arquivo Pessoal

Molinaseca. Caçulas tanto em tempo na Espanha quanto em experiência à frente de albergues, a família Xavier vive há pouco mais de dois meses em Molinaseca, uma parada em torno do 25.º dia de Caminho. O engenheiro José Luiz Xavier e a esposa Mara Xavier, massoterapeuta, ambos de 51 anos, resolveram se mudar atrás de qualidade de vida e segurança. O filho Murillo, de 23 anos, e a nora Erika Costa, de 22 anos, os acompanharam. Juntos, abriram a Casa Rural San Nicolas.  

Erika conta que o serviço que oferecem é um pouco diferente do dos albergues clássicos. “Temos uma casa rural que atende tanto turistas quanto peregrinos. Os peregrinos que buscam em nossa casa um momento para relaxar, um espaço mais íntimo”, explica Erika. Após dias dividindo a intimidade com vários outros peregrinos, alguns se concedem o luxo de pagar a partir de 30 euros para pernoitar em quartos para duas pessoas. “A grande maioria sempre diz: ‘passamos dias dormindo em albergue, precisamos de um dia pra recarregar a energia, ter mais conforto, para voltar a dormir em albergues”, conta ela.

Palas de Rei. Em 2013, o gaúcho Marcelo Ramos Einloft, de 47 anos, saiu de Saint-Jean-Pied-de-Port até Finisterre e, refletindo entre muitas coisas, acabaram nascendo algumas idéias. “Decidi mudar de vida e abri um albergue em Palas de Rei, em uma antiga casa que foi por alguns anos a cadeia do lugar”, revela ele. Claro que aplicou uma boa reforma e na sugestiva data de 1º de abril de 2015 contou para o mundo que estava abrindo A Casinha di Marcello, pequeno albergue peregrino, mas que ainda guarda vestígios de prisão nas janelas com suas grades.

Albergue A Casina di Marcello, em Palas de Rei

Albergue A Casina di Marcello, em Palas de Rei Foto: Arquivo Pessoal

Transformações. E por falar em prisões e liberdade, os donos de albergues revelam que hospedar pessoas que estão passando por situações de transformação tem lados positivos e negativos. “Num Caminho como esse as pessoas mostram muitas vezes quem elas são, suas maiores fragilidades, sua educação, sua essência, seus monstros, seus hábitos e seus sonhos. Ora podem entristecer e ora fazer feliz a nossa rotina. E, às vezes, os dois juntos e com tudo!”, conta Natalia Ferreira.  

Para Erika Costa, o lado bom de ter um negócio no Caminho é ter contato direto e diário com pessoas de diversas culturas e com milhares de experiências para compartilhar. “A parte ruim é depender quase que exclusivamente do Caminho para sobreviver, porque geralmente as cidades por onde o caminho passa são pequenas, e não possuem um meio econômico próprio”, aponta Erika.

Em comum, todos contam que o fato de serem brasileiros ajuda. “Brasileiro sempre leva aquela alegria de viver e isso ajuda a dar felicidade e receber. Vivi muitos anos na Itália e cozinhar e ter um bom sorriso faz a sua diferença. E tudo isso temperado com música brasileira faz com que eu seja melhor e possa deixar as pessoas melhores, ao menos por um dia!”, acredita Marcelo.