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Algo de moderno no reino da Dinamarca

Do castelo onde Shakespeare ambientou seu ‘Hamlet’ ao design mais surpreendente,o país celebra seu legado, sua ligação com o mar e a admirável qualidade de vida

Valmar Hupsel Filho COPENHAGUE, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2015 | 03h19

A noite continua fria no Castelo de Kronborg, como aquela descrita pelo escritor William Shakespeare na abertura de Hamlet. Nos meses de julho a setembro, no entanto, não anoitece por completo e a temperatura costuma ser mais amena – durante o dia, em torno dos 20 graus. É a melhor época para visitar a Dinamarca – o reino milenar que se transformou numa sociedade com um dos maiores graus de bem-estar social do mundo, e que dialoga com o que há de mais moderno na arte, no design, na culinária e na sustentabilidade, mantendo, em seus castelos e no jeito de ser de seus súditos, forte identidade própria enraizada na tradição viking.

O Castelo de Kronborg (oesta.do/kronborgcastle) fica em Helsingor, uma vila de pescadores a 30 quilômetros do centro da moderna capital, Copenhague. É uma fortaleza real construída em 1420 no estreito de Öresund, o trecho mais próximo – apenas 4 quilômetros de largura – entre a Dinamarca e a Suécia. Foi erguido para defesa e cobrança de impostos dos barcos que por ali tinham de passar para levar seus produtos aos países banhados pelo Mar Báltico.

Em uma visita guiada (R$ 45) ao castelo, considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é possível circular pelas dependências e mergulhar nas histórias de reis, rainhas e conquistas, escritas em tapetes com fios de ouro. Você pode também ouvir relatos detalhados das famosas e intermináveis festas que aconteciam por dias seguidos em salões de mais de 60 metros de comprimento.

Com sorte, o visitante pode topar com uma encenação ao vivo de Hamlet. A história do príncipe atormentado por seus fantasmas é ambientada no castelo. Há rumores, não comprovados, de que Shakespeare passou por ali. Sob esta aura, grupos de teatro usam as locações originais para encenar a peça.

A proteger o castelo, os canhões ainda estão lá, apontados para o mar… e para a Suécia. Mas o reino vizinho, histórico inimigo de sangrentas guerras, hoje não oferece perigo. A relação entre os dois países é amistosa, a não ser por uma bem humorada rixa entre os povos.

O Castelo de Kronborg é um dos mais belos e importantes monumentos da Dinamarca, país de 46 mil quilômetros quadrados onde vivem 5,6 milhões de habitantes – só para se ter uma ideia, o Estado de São Paulo tem 248 mil quilômetros quadrados e 44 milhões de almas.

Se o castelo inunda o turista de história e literatura, para os habitantes, principalmente os mais velhos, é um monumento às navegações – atividade fundamental na construção do país, desde os vikings conquistadores de territórios ao atual transporte de cargas. A relação estreita do povo dinamarquês com o mar ganhou o Museu Marítimo (R$ 55), um prédio construído ao lado do Castelo de Kronborg, uma atração para quem curte arquitetura moderna.

Para não agredir a bucólica paisagem no entorno do castelo, o Museu Marítimo, inaugurado há dois anos, é subterrâneo. Não aparece para quem está do lado de fora. Por dentro, suas linhas modernas são um deleite. Seu restaurante oferece uma surpreendente, deliciosa e saudável comida, à base de peixe, algas, frutas e o tradicional sanduíche aberto no pão de centeio (smorrebrod).

Ali, a história dinamarquesa é contada a partir de sua principal especialidade. É possível entender por que o pequeno reino da Escandinávia virou potência econômica graças à sua navegação.

Castelo de Broholm

No sul da ilha de Funen (cerca de 150 quilômetros do centro de Copenhague) é possível ter a nobre sensação de dormir em um dos aposentos do Castelo de Broholm (diária a partir de R$ 895 para o casal; broholm. dk), uma construção datada de 1320. O castelo pertence à mesma família há 40 gerações – a criadora da famosa raça de cães dinamarqueses broholmer.

O castelo foi transformado em uma idílica pousada incrustada na floresta e cercada por um lago em forma de meia-lua. Os 16 apartamentos são de tamanhos e características diferentes entre si. 

O cenário de contos de fadas é apreciado por casais e famílias em busca de sossego. Seus amplos gramados, salões e o restaurante onde é servida a nova cozinha nórdica, com ingredientes locais, também são usados para eventos como casamentos e conferências.

 

Castelo de Egescov

Também no sul da ilha de Funen, o castelo de Egescov (egeskov.dk/en) ergue-se imponente de dentro do lago, ligado por pontes a imensos jardins desenhados. Com entrada a R$ 90, pode-se fazer uma visita guiada, conhecer os aposentos e coleções de armaduras de tamanho natural e de carros antigos. No entorno, em dias de sol, os jardins são muito usados para piqueniques. 

Remar, controlar velas e descobrir o legado viking

Em um contraponto à postura vanguardista urbana de Copenhague, quem deseja conhecer a tradicional cultura viking tem a oportunidade de se sentir como tal no Viking Ship Museum (30 quilômetros do centro; vikingeskibsmuseet.dk/en). Com ingresso a R$ 57, o visitante entra no universo dos milenares navegadores da região, pois é convidado a colocar a mão na massa. 

Aprende, por exemplo, a fazer os famosos nós de marinheiro e a cortar madeira para a construção dos barcos, além de, literalmente, remar e controlar as velas. Crianças podem participar da farra, pois o passeio de barco oferece segurança e guias treinados.

O museu dispõe ainda de uma exposição de variados tipos de barcos vikings, característicos de diversas épocas, que naufragaram e foram retirados do mar e restaurados. O restaurante que faz parte do complexo, o Café Knarr, oferece versão moderna da comida tradicional, como o sanduíche aberto, o smorrebrod, recheado de ingredientes locais e frutos do mar.

 

ONDE VIVER BEM É A REGRA

A imagem estereotipada do viking como o guerreiro nórdico tipo Hagar, o barbudo personagem das tiras publicadas em vários jornais pelo mundo, perde-se no primeiro momento em que se respira o ar de Copenhague. Com pouco mais de 500 mil habitantes, a capital da Dinamarca é a expressão maior da cultura de um povo receptivo, regido pelo janteloven, código informal de conduta fundamentado na equidade entre as pessoas e no respeito ao próximo, e pelo hygge, estilo de vida dinamarquês baseado no bem-estar social.

A soma dos dois conceitos orienta claramente todo o cotidiano dinamarquês, desde a construção de um prédio até a relação entre as pessoas. O resultado é a intenção de, nos mínimos detalhes, oferecer uma sensação generalizada de bem-estar. É assim que se é recebido pelos habitantes locais. 

Não por acaso, a população de Copenhague exibe elevada taxa de consumo de alimentos orgânicos e de reciclagem e reaproveitamento de materiais. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Dinamarca é um dos maiores do mundo. 

Um bom primeiro contato com Copenhague é curtir um passeio pelos canais da cidade (R$ 40; visitcopenhagen.com). Em uma hora num barco confortável com orientações do guia em inglês e espanhol, é possível percorrer diversos bairros, inclusive os residenciais – momento em que o guia para de falar em respeito aos moradores. 

No passeio pode-se perceber a variedade arquitetônica da capital. Imponentes prédios antigos – como o The Old Stock Exchange, construído em 1625 – convivem e dialogam harmonicamente com o que há de mais moderno na arquitetura, caso do impressionante The Black Diamond, onde fica a The Royal Library (kb.dk/en). 

O passeio inicia e termina no cais Gammel Strand, a menos de um quilômetro do Tivoli Gardens (tivoli.dk/en), conhecido ponto turístico de Copenhague. Um dos mais antigos parques da Europa e o mais tradicional e visitado da Dinamarca, o Tivoli (R$ 44,50) inspirou tanto Walt Disney a criar a Disneylândia quando o escritor Hans Christian Andersen a escrever uma de suas histórias: O Rouxinol e o Imperador da China.

Localizado no centro de Copenhague, o Tivoli é bastante usado pelos dinamarqueses, que curtem a área verde para um descanso ou um passeio no jardim, o parque de diversões e as variadas opções de restaurantes – a Dinamarca e sua nova cozinha nórdica são conhecidas mundialmente pela qualidade. Um sugestão é o Nimb Terrasse, o mais antigo do parque, que surpreende pela cozinha moderna e de alto nível. 

Duas rodas. A melhor maneira de circular pela cidade, no entanto, é de bicicleta. Copenhague é conhecida mundialmente por suas ciclovias e a grande quantidade de magrelas – há mais bicicletas que carros. Até o príncipe herdeiro Frederico André Henrique Cristiano já foi visto pedalando pelas ruas. 

são 350 quilômetros de ciclovias planas, segmentadas e bem sinalizadas, ou exclusivas, usadas largamente pela população não só para diversão. Mais da metade (55%) dos moradores usa a bike como meio de transporte para o trabalho. Há highways exclusivas para bicicletas, usadas por quem mora nas cidades satélites para chegar ao centro. E basta se equilibrar um pouco nas duas rodas para perceber porque Copenhague é considerada uma das melhores cidades para o ciclismo. Além de ruas largas e da cordialidade entre ciclistas, motoristas e pedestres, há ainda belíssimas paisagens por entre bairros residenciais bem arborizados e à beira do mar.

Existem variadas opções para quem não tem uma bike – entre os moradores, algo bastante raro. O aluguel de uma magrela sai a partir de R$ 25, mas é possível também usar uma free bike, com depósito de R$ 6 no local de empréstimo. O valor é restituído no ponto de entrega.

A pé, de bike, de carro ou de barco, Copenhague é um deleite para os sentidos. O design e a gastronomia são destaques mundiais. Além disso, os dinamarqueses são bem receptivos – a ponto de terem o costume de comentar a conversa alheia, sempre com a cordialidade peculiar. 

 

HANS CHRISTIAN ANDERSEN, CRIADOR DO 'PATINHO FEIO' E DA 'PEQUENA SEREIA'

Todo mundo conhece a história do Patinho Feio. Mas nem todos sabem sobre o homem que, ao se sentir assim, escreveu uma metáfora de alcance universal. Hans Christian Andersen (1805-1875) nasceu muito pobre (e feio) na cidade de Odense, na Ilha de Funen (150 quilômetros de Copenhague). E graças a seu talento para a literatura e artes plásticas, projetou-se mundialmente para se tornar imortal, atemporal. 

Apesar de ter escrito também romances adultos e poesia, foi em contos infantis, como A Pequena Sereia, Soldadinho de Chumbo e seu clássico maior O Patinho Feio, que o autor alcançou fama. É o mais conhecido dinamarquês, mais até que reis e rainhas. Sua presença pode ser vista em diversos lugares e momentos na Dinamarca. 

Em Odense, sua cidade natal, é possível seguir, literalmente, seus passos. As enormes pegadas daquele homem de mais de dois metros de altura estão cravadas nas pedras das ruas. Segui-las é refazer caminhos por onde o escritor realmente circulou e se inspirou para escrever suas histórias: a casa de um cômodo em que morou com os pais na infância, as escolas que frequentou, entre outros pontos de sua trajetória. 

O museu que leva seu nome está à altura da grandeza da personalidade – um tour virtual pode ser feito pela internet (hca.museum. odense.dk/rundtur). Nele, o visitante tem a oportunidade de conhecer o homem, sua história de vida e o amor platônico que viveu contados como um conto de fadas, além de sua magnífica obra.

É possível também conhecer os outros talentos deste artista. Suas ilustrações e recortes, feitos no século 19, impressionam pelo estilo moderno até hoje. Há ainda um teatro interativo, onde não se escapa de ser criança e brincar de viver um de seus personagens. 

Com ruas estreitas e casas de pedra, a cidade de Odense guarda com riqueza de detalhes a atmosfera da época vivida por Andersen. Mas, a alguns metros dali, a parte moderna da cidade pulsa com arte nas ruas e galerias, lojas de design, bares com jazz, lojinhas com souvenirs e bons restaurantes onde se pode comer o tradicional smorrebrod, o sanduíche aberto de recheios variados sobre o pão de centeio. 

Uma breve caminhada do centro de Odense leva, por exemplo, ao Brandts (brandts.dk) – um complexo de edifícios industriais transformados no primeiro centro internacional de arte e cultura da Dinamarca. Ali pode-se curtir dezenas de variadas exposições e muita arte moderna ao ar livre. 

Ainda é possível fazer um tour de barco pelo Rio Odense, que dá nome à cidade, usado pela população desde o século 18.

 

FORA DOS LIVROS

As referências a Hans Christian Andersen não estão apenas em Odense, sua cidade natal. As referências ao autor de clássicos dos contos de fada, como O Patinho Feio e A Pequena Sereia também estão espalhadas por toda Copenhague.

Nyhavn. A região portuária é repleta de bares e restaurantes instalados em prédios históricos. Hans Christian Andersen viveu na casa 20, onde escreveu clássicos como A Princesa e a Ervilha, e também na 18 e na 67. A mais antiga da região, contudo, é a 9, que ainda mantém o design do século 17, quando foi construída

A Pequena Sereia. Sentada sobre uma pedra no Píer Langelinje, na região portuária de Copenhague, a sereia de bronze repousa enquanto os turistas não se cansam de fotografá-la. A estátua, inspirada na bailarina Ellen Price, que fez o papel da sereia no Teatro Royal em 1909, foi inaugurada em 13 de agosto de 1913

Casa dos Contos de Fadas. Esse pequeno museu interativo (H.C.A Eventyrhuset) vem de “brinde” para quem compra o Copenhague Card (que inclui transporte e atrações da cidade) ou a entrada para o Ripley’s Believe it or Not. Ali, as histórias de Andersen ganham efeitos especiais e locução em três idiomas: dinamarquês, inglês e alemão. Radhuspladsen, 57

King's Garden. Conectado ao Palácio de Rosenborg (que também pode ser visitado; royalpalaces.dk), esse imenso jardim foi criado no início do século 17 a pedido do rei Christian IV – e aberto ao público em 1770. Há uma área dedicada apenas às rosas, playground e diversas estátuas espalhadas – entre elas, a de Hans Christian Andersen

 

COMO IR

Aéreo: São Paulo – Copenhague – São Paulo: R$ 2.545,07 na Iberia (iberia. com); US$ 697,63 pela British (cerca de R$ 2.800; britishairways. com); R$ 3.067 na KLM (klm.com.br). Voos com conexão

Visto: não é necessário

Moeda: R$ 1 equivale a 1,69 coroa dinamarquesa 

Sites: visitdenmark.com; visitcopenhagen.com; visitodense.com

 

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