Carlinhos Müller/AE
Carlinhos Müller/AE

Aos pés do Eyjafjallajokull

Era mesmo de se prever. Absolutamente entusiasmado com a nuvem de fumaça que paralisou as operações aéreas em grande parte da Europa na última semana ("It"s historical! Que oportunidade para viajantes bloqueados em várias partes do mundo fugirem de sua programação básica e conhecerem a fundo os seus destinos""), mr. Miles não teve a menor sombra de dúvida. Ligou para seu velho amigo Clarence Dowing, excêntrico ex-capitão da RAF (Royal Air Force) que vive em um castelo perto de Sheffield e coleciona antigas aeronaves britânicas.

Mr. Miles, miles@estadao.com.br

27 Abril 2010 | 02h18

"Clarence", - disse ele -, "que tal um passeio pelo vulcão?"

Sempre disposto a novas experiências, Dowing respondeu-lhe que presumia que o Westland Wyvern 1955 alojado em seu hangar 3 tinha "some chances" de voar até a Islândia em baixa altitude, evitando, portanto, os efeitos da fumaça tóxica. Dois dias depois, Dowing, mr. Miles e a cadelinha Trashie partiam de um aeroclube nas proximidades de Leeds e, com várias escalas, inclusive em Stornoway, nas Ilhas Ocidentais da Escócia, lograram atravessar o Atlântico rumo à Reykjavik, capital da explosiva ilha que pôs o mundo em polvorosa. O próprio Miles conta sua viagem:

"Well, my friends: o Wyvern vibrava como uma washing machine e não foram poucas as peças que perdeu durante o voo. Embora Trashie parecesse assustada, eu me sentia seguro com os comentários de Clarence. "Don"t worry, Miles. Esta bobagem não faz falta nenhuma", dizia, sorridente, quando pedaços da fuselagem se desprendiam.

Ao contornarmos o sul da Islândia, em uma tarde azul, pude ver, nitidamente, a coluna de fumaça em tons de ocre e cinza erguendo-se a uma enorme altitude e viajando na direção do oriente. It was amazing! Nunca deixo de ficar fascinado com o extraordinário poder das forças naturais, que redimensionam os valores de nossa existência comezinha e ampliam a urgência de conhecermos mais, melhor e com mais alegria os companheiros da viagem que esse planeta sem piloto está fazendo. Já estive several times in Iceland, um país de natureza tão instável e violenta quanto à de minha amiga Björk, que, by the way, tem um sobrenome quase tão impronunciável quanto o do vulcão ora ativo. O nome da montanha, que os noticiários de rádio e televisão sabiamente evitam pronunciar, é Eyjafjallajokull. Björk é Guðmundsdóttir - som semelhante ao que Trashie emite quando exagera no single malt.

Por todas essas características e, of course, por abrigar o povo mais pálido do planeta, a Islândia é fascinante. O prezado leitor tem que colocar essa bela ilha em seus planos de viagem e percorrer o Golden Circle, uma sucessão de gêiseres, lagoas termais e paisagens lunares que enfeitam a ilha em formação.

Prudentemente, decidimos não levar o Wyvern até a cratera fumegante. However, alugamos um carro e dirigimos quase até lá. O cheiro de enxofre deixou Trashie enjoada e, unfortunately, diminuiu demais a visibilidade na área próxima à geleira, àquela altura quase totalmente desocupada. Tivemos que esperar um longo tempo no carro, sem saber exatamente onde estávamos. Mas eis que uma súbita mudança de ventos dissolveu a espessa nuvem e o Eyjafjallajokull apareceu em nossa frente, tão perto quanto possível.

Clarence, Trashie e eu ficamos quietos e boquiabertos. Há situações, my friends, em que o silêncio é a mais bela das sinfonias."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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