Juliana Sayuri/Estadão
Juliana Sayuri/Estadão

Árido horizonte

O deserto de Wadi Rum sintetiza a cultura local, com beduínos e dromedários, muçulmanos a rezar em direção a Meca, silêncio, imensidão, paz; cenário para filmes e experiência de vida

Juliana Sayuri, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2013 | 02h22

WADI RUM - É deserto. Um horizonte árido e solitário, inesperadamente belo, onde o silêncio vibra nas rajadas de vento, o sol impera no céu azul que nos protege, o tempo se perde na imensidão de areia. Ali o corpo se rende às altas temperaturas, enquanto a alma se rende à alta melancolia. Deserto é um momento, uma filosofia, um calor. Um lugar onde a gente se perde para se encontrar: quão pequenos somos nesse mundo imenso.

Essa é a impressão inesquecível sobre sentar nas areias do deserto de Wadi Rum para contemplar a paisagem, pensar na vida, respirar ar puro, transpirar bons fluidos, viver. Deserto é um presente, o melhor momento para realmente mergulhar no universo jordaniano - e, nessa imersão, garimpar relíquias religiosas, histórias antigas e aventuras arábicas.

Wadi Rum simboliza bem a cultura jordaniana: os beduínos espirituosos galopando lentamente nos seus dromedários, os muçulmanos ajoelhados rezando em direção a Meca, os viajantes aventureiros chacoalhando na caçamba de carros 4x4 que cruzam trilhas invisíveis nas areias. Ao caminhar ali, olhos quase cerrados para desviar do pó, escalando rochas e dunas para encontrar bons horizontes para admirar o pôr do sol, uma paz paradoxal nos invade: por um lado, nossa pequenez mundana, tão angustiada com a pós-modernidade; por outro, nossa egotrip singela, como se estivéssemos protagonizando um filme cult nesse cenário incrível.

Não por acaso, a Jordânia já foi set para muitas produções cinematográficas, como os clássicos Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) e Lawrence da Arábia (1962), além dos recentes Cruzada (2005), de Ridley Scott, e A Hora Mais Escura (2012), de Kathryn Bigelow. Enquanto caminhava pelas ruínas de Jerash, uma novela do Kuwait era filmada perto do Arco de Adriano, o imperador andarilho, de 129 a.C. Ficções brasileiras também rolaram nas trilhas de Petra, como a novela Viver a Vida, de Manoel Carlos.

Além das fronteiras imaginárias de Wadi Rum, perambular por cidades esquecidas no tempo e estradas quase engolidas pela areia também dá impressão que estamos rodando um filme repleto de histórias e contrastes em cenários incríveis: uma viagem de autodescoberta a um destino longínquo e talvez exótico, em tudo diferente da cultura latino-americana; um país encruzilhado numa zona de conflitos, mas perfeito para momentos de paz; um povo com identidade própria, mas aberto para abraçar a cultura de refugiados e de viajantes.

Ao anoitecer no Wadi Rum, sob um céu generosamente pontilhado por estrelas, outros paradoxos: ouvir música tradicional no Captain Camp, um acampamento cinco-estrelas com beduínos entretidos com smartphones; comer kafta, pão sírio quentinho e babaganoush com as mãos, com refrigerantes do selo Coca Cola Company; dormir em tendas de lã de cabra preta, mas munidas de lamparinas elétricas e tomadas universais. O pernoite custa 40 dinares (R$ 91; com jantar e café da manhã).

Entre contradições, a Jordânia floresce como uma vitrine para o Oriente Médio. Um país monocromático, onde o tom areia se espalha nas construções nas cidades e nos descaminhos do deserto. Mas ao mesmo tempo um país colorido, onde a cultura predominantemente muçulmana tira o véu e se abre para nos receber. Um deserto onde as lembranças se cristalizam como um filme. Um árido movie.

*Viagem a convite de Jordan Tourism Board.

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