As atrações produzidas pelo medo de morrer

A sucessão de eventos ligados à morte nesta época do ano (Halloween e Finados, com dois dias de diferença) fez com que muitos leitores escrevessem para nosso grande viajante. Mr. Miles, de volta ao Condado de Essex, resolveu escolher uma das mensagens para representar as demais:

O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2014 | 02h05

Querido mr. Miles: sei que a morte produziu grandes atrações turísticas, como as Pirâmides do Egito. O senhor, que está sempre viajando, poderia me falar sobre outras delas?

Alice Sorrenti, por e-mail

"Well, my dear: eu não colocaria a questão dessa forma. Não é a morte, mas o medo dela e a incerteza pelo que existe depois. Esse é, probably, o responsável pela maior e mais espantosa quantidade de atrações turísticas de todo o planeta. É possível vê-las em cada cidade e em cada país, como sinais incontestáveis de que grande parte da humanidade sempre esperou - e ainda espera - uma existência melhor, menos injusta e mais próspera depois do final de seus dias.

Viajantes que colocam suas velas em magníficas igrejas e catedrais de todo o planeta têm, for sure, essa expectativa. Outros, que produzem mantras, ajoelham-se em loas, erguem suas preces ou praticam a cabala em templos de outras fés, têm as mesmas ambições. Foram eles que fizeram os templos de Angkor Wat, no Camboja, os de Karnak e Luxor, no Egito, as mesquitas que enfeitam todo o Oriente com seus minaretes, a sinagoga destruída de Jerusalém (da qual restou o Muro das Lamentações), o Cristo que redime o Rio de Janeiro e a inominável beleza de abóbadas, entalhes, vitrais, pinturas e esculturas que adornam o mundo dos que creem.

My good friend Tony Wheeler, o fundador dos guias Lonely Planet, disse-me, um dia, que seu principal prazer ao viajar é fazer "a lot of templing". Ou seja: um dos mais descolados viajantes do mundo concorda comigo que sempre vale a pena entrar nos lugares onde as pessoas querem conversar com Deus, porque ali há de se encontrar, sometimes, o mais forte de seus desejos.

On the other hand, darling, há um outro universo, tão grande como o acima mencionado, de atrações criadas para reverenciar os que se foram. Trata-se, nesse caso, de lembrar a todos nós que centenas de gerações nos precederam e contribuíram para desenvolver o mundo tal como o conhecemos. Confesso, modestly, que nenhum outro tipo de homenagem aos antepassados me comove mais do que os moais da Ilha de Páscoa, escondidos na imensidão do Pacífico. Todos eles foram erguidos diante de pequenas comunidades, com a intenção de que seus habitantes pudessem, always, reverenciar os que se foram e pedir-lhes a sua proteção.

Não me comovem nada os monumentos feitos para exaltar governantes, sobretudo se eles próprios mandaram criá-los. É o caso do gigantesco túmulo do generalíssimo Franco, no Valle de los Caídos, na Espanha, e de outras obras similares ao redor do mundo - inclusive, by the way, as mencionadas pirâmides. However, quando o que leva um monarca a criar uma obra-prima é o amor, não há como deixar de lembrar-se de suas próprias paixões. Nessa categoria, dear Alice, figura o Taj Mahal, erguido pelo imperador Shah Jahan como sepulcro de sua esposa favorita, Aryumand Banu Begam, por ele chamada de Mumtaz Mahal, que significa "a joia do palácio".

O Taj Mahal, by the way, faz lembrar-me que, depois da morte, o mais poderoso criador de belezas é o amor. Don't you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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