As cidades não se mostram de imediato

As cidades não se mostram de imediato

"O turismo entra pelos olhos." A frase me foi dita pelo meu analista; uma tentativa de explicar a experiência agridoce do tour de um mês que fiz pela Europa. Sob vários aspectos, ele está certo: a absorção de um mundo novo acontece principalmente pelas retinas. A falta de visão, entretanto, me permite formar uma imagem própria dos cenários mais vistos e fotografados do mundo.

Lucas de Abreu Maia - O Estado de S. Paulo,

02 Agosto 2011 | 06h00

 

Embora já tivesse ido aos EUA, o passeio à Europa foi minha primeira viagem ao exterior para turistar. Seu caráter foi exacerbado porque, pela primeira vez, não pude levar minha cadela-guia, graças às restrições que o Reino Unido impõe à entrada de animais. Assim, segurei no braço de um amigo, que me guiou por Alemanha, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Inglaterra e Escócia.

 

Planejamos tudo (ou quase tudo): de hotéis e albergues a passagens de trem. Não foi o bastante. Diante da minha cegueira (e, portanto, da impossibilidade de que eu ajudasse na leitura de mapas ou na localização de estações de metrô), toda a responsabilidade por nossa locomoção recaía sobre meus companheiros. Quem já viajou sem guia turístico conhece o estresse potencial que é se virar em um país estrangeiro. Mais planejamento teria poupado aborrecimentos.

 

As cidades não se mostram de imediato para quem não enxerga. Não há fotos que resumam o lugar, ou imagens aéreas que permitam uma síntese geral. Sem ver, é preciso ir às ruas, aos parques, às pessoas. É preciso tocar, experimentar, ouvir, cheirar. A cidade se desnuda aos poucos, até que seja possível conhecer seu corpo com as mãos, narinas e ouvidos.

 

Nos museus, igrejas e castelos, os passeios beiravam o hilário. Todas as vezes em que ia aos balcões de informação descobrir o que era oferecido a visitantes com deficiência, sentia no ar uma questão engasgada na garganta do meu interlocutor: "O que esse cara está fazendo aqui, se não vai conseguir ver nada?". Queria que a pergunta tivesse sido feita. Assim, teria explicado sobre a sensação de estar em frente à Pedra de Roseta, ou sobre o arrepio que percorreu meu corpo por estar diante do túmulo de Charles Darwin. Teria contado como é gratificante ver o esforço dos amigos em explicar com palavras o que eles apreendem com as retinas.

 

E, claro, há vantagens. Em muitas atrações, o visitante cego recebe permissão para fazer o que todos têm vontade, mas são proibidos: tocar nos objetos. Talvez o melhor momento tenha sido em uma destas ocasiões. Em Stonehenge (foto), o círculo pré-histórico de pedras gigantescas no sudoeste da Inglaterra, ouvi berros de indignação e senti os olhares invejosos de 200 turistas enquanto eu, sozinho, tocava em rochas de mais de 4 mil anos.

 

Em grande parte, ter uma deficiência física significa acreditar na solidariedade. Para mim, estar em um país estrangeiro, cujas regras desconhecia e onde a língua não era a minha, exacerbou a sensação de fragilidade. Daí a experiência agridoce: ao mesmo tempo em que vi minha independência - conquistada com dificuldade - escorrer entre os dedos, fui obrigado a confiar nos meus companheiros. Ao mesmo tempo em que me senti de volta à infância, passei a admirar o esforço dos outros para que aproveitasse a viagem tanto quanto eles. E isto é muito tocante.

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