As estátuas de nossas vidas e de nossas praças

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2017 | 03h00

Nosso solerte viajante esteve, como dissemos na semana passada, na província de Manitoba, mais especificamente em Churchill, no Canadá, um dos poucos conglomerados urbanos onde é possível apreciar a grandiosa beleza dos ursos-polares. Na companhia de sua cachorrinha Trashie, que, sempre comportada, não desafiou a autoridade do chamado Ursus maritimus, o correspondente britânico confirma que adorou a experiência. 

A seguir, ele responde a pergunta da semana:

Mr. Miles: eu sou absolutamente contra essa estupidez chamada racismo e os malucos que defendem a tese. Lamento profundamente o que aconteceu em Charlottesville, nos Estados Unidos, mas não me convenci da ideia de derrubar estátuas que contam a história de um país. O que o senhor acha disso? 

Lino Dragonesi, por e-mail

“Well, my friend: a história é sempre contada pelos vencedores, mas os derrotados existiram, for sure. Acho que é direito dos vencedores – quanto mais encarniçada e ideológica for a contenda – derrubar os símbolos e ícones do inimigo vencido, especialmente se isso ocorrer no calor da conquista, na dor da perda de entes queridos ou no simples direito à revanche.

Não vejo sentido, however, em destruir lembranças ao sabor dos tempos e de novos ideais. Believe me, my friend: grande parte dos monumentos que enfeitam o planeta têm origem militar. Do obelisco que enfeita São Paulo, for instance, ao Portão de Brandemburgo, a Trafalgar Square ou o Arco do Triunfo. E nem sempre eles exaltam vitórias – o obelisco paulista homenageia os derrotados da Revolução Constitucionalista de 1932 – ou os justos.

George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, é tido, as you know, como um bastião da pátria, mas foi também um escravocrata. Seria justo, portanto, que a capital mudasse de nome e todos os monumentos que o homenageiam fossem destruídos?

Que dilema! Mas a resposta, of course, é não! Humanos são imperfeitos e não têm culpa pelas condições do tempo em que viveram. As pessoas valem pelo que fazem e não pelo que foram e, obviously, quem decide isso são seus descendentes. O general Robert Lee, comandante dos confederados – e cujas estátuas estão no centro das discussões – esteve a ponto de ser um comandante do exército de Abraham Lincoln.

Até prova em contrário, ambos lutaram pelo que consideraram posições justas. O escravagismo estava entre as infames ideias defendidas por Lee, mas não era a base de sua luta. Derrubar suas estátuas equivale a apagar do Brasil todas as lembranças de Dom Pedro II, for instance, que governou por décadas uma nação repleta de escravos.

On the other hand, dear Lino, não é menos verdade que a humanidade adora símbolos, ícones, mitos e lendas. Quer preservá-los, o que é justo. No Brasil, por exemplo, existe mais de uma entidade que defende os interesses e o legado do simpático saci-pererê. 

However, quase sempre sabemos muito pouco sobre as estátuas que colocamos em nossas praças e parques. Temos uma vaga notícia do que fizeram e quase nenhuma informação sobre o que foram. Isso não importa muito. Para quem viaja, importa a beleza da homenagem e do legado. O Arco do Triunfo não teria sido construído por derrotados. Nem a Coluna de Trajano, em Roma, existiria se o mencionado imperador não houvesse vencido os dácios. Outro exemplo monumental: a fabulosa Muralha da China nada mais é do que uma construção militar, criada para matar mongóis e deles defender os chineses. 

Enfim, temos o que temos porque, em algum momento, quisemos que assim fosse. E não devemos, as I see, ter a petulância de ser os tutores de uma nova era politicamente correta. Os que assim o fazem certamente querem o mérito de, some day, ter sua própria estátua na praça, para sempre abençoada pela lembrança dos pombos.”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. 

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