Viagem

As múltiplas facetas da Cidade do Cabo

Agregadora desde as grandes navegações, cidade pode ser aventureira ou baladeira, moderna ou clássica, do chá ou da cerveja. Só depende de você

06/12/2016 | 05h00    

Mônica Manir / Cidade do Cabo - O Estado de S. Paulo

“Aweh, my bru”, “Howzite, boet”, “Haibo, brother”. Seja em qual das 11 línguas oficiais for (africâner, zulu, xhosa, tswana, inglês... o cardápio é grande), uma coisa é fácil de decifrar. My bru, meu amigo, a Cidade do Cabo fala à alma. Se você está precisando dar uma guinada no astral, revigorar a esperança, sentir que o mundo-vasto-mundo é vasto e, ao mesmo tempo, aconchegante, encoste o casco do seu navio aqui. 

Máscaras tribais, como estas à venda no bairro de Bo-Kaap, são um dos destaques nas compras pela Cidade do Cabo.

Máscaras tribais, como estas à venda no bairro de Bo-Kaap, são um dos destaques nas compras pela Cidade do Cabo. Foto: Mônica Manir/Estadão

Há algumas teorias sobre essa energia mágica da cidade. Tem gente que lembra seu caráter multicultural, vindo desde os tempos em que o povoamento do Cabo ganhou a reputação de “Taverna dos Sete Mares” por juntar marinheiros da Europa e do Oriente. 

Outros usam um critério mais alternativo: o feng shui. Imagine-se refestelado, sentado confortavelmente numa poltrona, olhando para o mar a seus pés. Protegida pelo paredão da Table Mountain nas costas, abraçada pelas igualmente montanhosas Lion’s Head e Devil’s Peak e aberta para o oceano à frente, a Cidade do Cabo conjuga yin e yang de um jeito peculiar. A Table Mountain também tem um formato próprio, chamado “jumen”, associado à nutrição e à prosperidade. Em outras palavras, my boet, a cidade é uma mãe. 

Mother City, aliás, é seu codinome mais famoso. Localizada numa estreita península no extremo sul do continente, foi a primeira cidade fundada na África do Sul. Num país matriarcal por natureza, sua posição é privilegiada.

Mandela também a desejou fortemente, como mãe e musa. Já homem livre, ele confessou que, na prisão, olhava através da Table Bay, na direção da silhueta da Table Mountain sempre que podia. “Para nós, em Robben Island, Table Mountain era um raio de esperança. Representava o local para o qual sabíamos que íamos voltar.” E voltou. Foi aos pés dela, na Cidade do Cabo, que Madiba se instalou depois de 27 anos de cárcere. 

Bondinho leva ao alto da Table Mountain: feng shui natural

Bondinho leva ao alto da Table Mountain: feng shui natural Foto: Mônica Manir/Estadão

Memórias. Os anos de apartheid estão presentes em museus, musicais, visitas à Robben Island e reportagens de jornais que vira e mexe destacam algum personagem daqueles árduos tempos de discriminação contra os negros. 

Em setembro, por exemplo, Winnie Madikizela-Mandela, segunda mulher de Madiba, foi manchete do Cape Times no seu aniversário de 80 anos. Apareceu remoçadíssima num jantar no Belmond Mount Nelson, hotel famoso por hospedar Churchill nos seus tempos de jornalista e Agatha Christie nos seus tempos de Agatha Christie. À boca pequena, perguntava-se que poção detox ou botox Winnie havia tomado para se apresentar pelo menos 20 anos mais jovem. À boca grande, pregavam-se discursos de longa vida para que ela pudesse ver o povo de fato liberto, numa economia ainda bastante desigual no país. 

Você sentirá que o morador do cidade não esqueceu o passado, mas quer virar a página. O cenário favorece muito, seja por ter uma das sete novas maravilhas do mundo, a Table Mountain, seja por contar com uma população que recebe muito bem o turista e que intuiu que só a arte transforma. 

Não à toa, a cidade foi Capital Mundial do Design em 2014. Também vai inaugurar um megamuseu de arte contemporânea em setembro do ano que vem, o Zeitz MOCAA. A cidade gosta de usar uma máxima de Mandela: “Não dá para ficar se lamentando quando se está ocupado com coisas construtivas”. 

A proposta, enfim, é curtir intensamente o lugar, seja você aventureiro, baladeiro, bom garfo, bom copo, colecionador de histórias tocantes ou um garimpador de lojas e galerias. Se jogue, my bru.

Robben Island, a prisão onde ficou Nelson Mandela, hoje é um ponto turístico próximo à Cidade do Cabo

Robben Island, a prisão onde ficou Nelson Mandela, hoje é um ponto turístico próximo à Cidade do Cabo Foto: Siphiwe Sibeko/Reuters

ANTES DE IR:

Aéreo: R$ 2.693 na South Africa, com o menor tempo de escala (2 horas) entre Johannesburgo e a Cidade do Cabo. Com voos para Johannesburgo desde outubro, a Latam vai até a Cidade do Cabo por R$ 3.414. Na British, custa R$ 6.303 (escala em Londres), e na Emirates, R$ 4.919, com escala em Dubai.

Moeda: 1 rand sul-africano vale R$ 0,24. 

 

Vacina: é obrigatória contra a febre amarela. Tome ao menos dez dias antes do embarque e apresente o Certificado Internacional de Vacinação.

Carro: Pense bem se vale alugar um, já que a África do Sul adota a mão inglesa e o trânsito é pesado, embora as estradas sejam boas e sinalizadas. O Uber é boa opção e muito recomendado pelos locais – é considerado mais seguro no país do que os táxis.

Passeio: A Cidade do Cabo já foi chamada de Pequena Amsterdã por causa de seus canais. Esses canais viraram túneis, que você pode conhecer numa caminhada subterrânea de 3 horas – há trechos de 1652. Os canais hoje conduzem a água doce e limpa que desce da Table Mountain. Pede-se o uso de galochas ou sapatos antiderrapantes, lanternas e fôlego para subir uma escada de 3 metros. A saída é do Castelo da Boa Esperança e guias são indispensáveis. Reservas podem ser feitas online.

Bate-volta: Se o tempo permitir, vá até a prisão onde ficou Mandela. Ali você verá a cela que ele ocupou, de pouco mais de 4 metros quadrados, iluminada por uma diminuta janela e decorada com uma cama, um banquinho e uma moringa. A Robben Island é lar de 132 espécies de pássaro e foi tombada pela Unesco. As saídas da V&A Waterfront’s Clock Tower ocorrem às 9h, 11h, 13h e 15h, diariamente. O tour inclui a travessia, passeio de ônibus pela ilha com guia e o encontro com um ex-prisioneiro político do lugar: 300 rands (R$ 73); o passeio pode ser agendado pela Internet.

Turistão: Tem gente que acha um mico pegar o ônibus turístico de dois andares, mas na Cidade do Cabo ele funciona bem. O áudio, por exemplo, é divertido e crítico ao mesmo tempo. E você pode escolher entre 4 rotas – ou ficar com as 4 -, que levam a pontos icônicos como a Table Mountaint, o District Six (bairro do qual a comunidade negra foi arrancada durante o apartheid), o V&A Waterfront e os vinhedos de Constantia. O site da companhia detalha os roteiros para que você escolha com antecedênica. 

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VIAGEM A CONVITE DA SOUTH AFRICAN AIRWAYS, DA CAPE TOWN TOURISM E DO BELMOND HOTELS

O Cabo da Boa Esperança

Um dos pontos mais ao sul do continente oferece variadas atrações, animais e muito vento

A mais ou menos uma hora e meia da Cidade do Cabo fica o Cabo da Boa Esperança, que Bartolomeu Dias descobriu em 1488. É uma viagem que vale não só pelo aspecto histórico, mas pela paisagem em si, de vegetação rasteira e avestruzes altivos. Várias eram as placas na estrada alertando para os baboons (babuínos), “perigosos animais selvagens”. Não vi nenhum, mas, se visse, o alerta era para não alimentá-los, sob pena de multa. Para instituir uma multa, a prática deve ser comum. Biólogos afirmam que os babuínos se tornam agressivos quando recebem comida dos humanos. 

Grupo faz pose para foto no Cabo da Boa Esperança

Grupo faz pose para foto no Cabo da Boa Esperança Foto: Mônica Manir/Estadão

Ao chegar ao Cabo via Uber – o navegante do nosso tempo –, foi difícil abrir a porta do carro, tamanha a ventania. Ali entendi por que Bartolomeu o chamou originalmente de Cabo das Tormentas. A Boa Esperança veio depois, quando d. João II soube que, ao dobrá-lo, via-se a ligação entre o Atlântico e o Índico e a chance de chegar mais rápido às Índias. A minha boa esperança foi quando vi que havia um funicular levando turistas ao farol de Cape Point, 87 metros acima, onde uma placa aponta que o Rio de Janeiro está a 6.055 quilômetros de distância.

Ali, no farol, criaram um museu, com a devida explicação de que não estávamos no extremo do continente. Esse mérito pertence ao Cabo das Agulhas, mais ao sul, verdadeira junção entre os dois oceanos. O ingresso custa 125 rands (R$ 30). Para usar o funicular você desembolsa mais 58 rands (R$ 14), ida e volta. 

 

Em Cape Point, uma placa marca as distâncias das cidades - o Rio de Janeiro está logo ali, a 6.055 km de distância.

Em Cape Point, uma placa marca as distâncias das cidades - o Rio de Janeiro está logo ali, a 6.055 km de distância. Foto: Mônica Manir/Estadão

Na volta, mais placas sobre animais, dessa vez apontando “Peinguin Viewing”, “Peinguins in Roadway” e “Boulders”. É a chance de conhecer a colônia de pinguins africanos de Simon’s Town. As aves estão ameaçados de extinção, em especial por causa da destruição de seu hábitat, de vazamentos de óleo, do aquecimento global e de atitudes insanas de turistas. 

De novo, a informação básica é conter o instinto materno e não alimentar os bichos. Os bicos dos pinguins são tão afiados quanto lâminas de barbear. Caso se sintam ameaçados, não terão pudor de beliscar um dedo ou um nariz. Mesmo com aquele jeitinho fofo.

A Table Mountain

1085 metros acima do nível do mar, a montanha pode ser acessada de teleférico - e tem vista de tirar o fôlego

Bondinho leva ao alto da Table Mountain: feng shui natural

Bondinho leva ao alto da Table Mountain: feng shui natural Foto: Mônica Manir/Estadão

“Abriu o tempo, vá!” Foi a ordem mais ouvida quando cogitei subir a Table Mountain, que se eleva a 1.085 metros acima do nível do mar. Venta bastante na Cidade do Cabo, e a tecnologia não conseguiu estabelecer exatamente quando uma nuvem vai se encastelar em cima da montanha de granito. Se puder esperar, vá o mais tarde possível, à beira do pôr do sol. É a hora mais dourada.

Para acessar o pico, você pode pegar o Cableway, teleférico que opera desde 1929 e que transporta 65 pessoas por viagem, o que dá cerca de 800 pessoas por hora. É gente pra dedéu, e ele não é subutilizado. Daí se deduz que a procura é grande. Por isso vale comprar o ingresso antes pelo tablemountain.net, o que o livra de pelo menos uma das filas, a da bilheteria. Adultos pagam 240 rands (R$ 59), ida e volta. 

 A subida dura 5 minutos. O piso do teleférico roda 360 graus e, num certo momento, uma das janelas se descortina à sua frente, o que permite tirar fotos sem aquela névoa de vidro embaçado. No caminho, dá para ver gente subindo a montanha a pé, uma opção interessante para quem tem panturrilhas em dia. O trajeto, de cerca de 3 horas a partir da base da montanha, permite observar os fynbos, vegetação muito cultuada por sua diversidade. Mas folhetos indicam que se faça a caminhada com alguém que já conheça o esquema, que se leve um kit de primeiros socorros e víveres e que se volte antes de escurecer. 

 Já no platô, a sugestão é fazer uma das três visitas guiadas, gratuitas: a Dassie Walk, de 15 minutos; a Ágama Walk, de 30 minutos; e a Klipspringer Walk, de 45 minutos. Se quiser ir por conta, acione o GPS do celular e baixe o aplicativo Table Mountain Cableway áudio tour, que funciona offline.

Turistas comemoram um aniversário o topo da Table Mountain. Subida pode ser feita de bondinho, que leva 5 minutos até o topo.

Turistas comemoram um aniversário o topo da Table Mountain. Subida pode ser feita de bondinho, que leva 5 minutos até o topo. Foto: Mônica Manir/Estadão

Contemple. A vista é uma coisa de louco. Pena que a febre da selfie e seu respectivo pau tenha contaminado todos os continentes. Quase ninguém para apenas para contemplar... Dali dá para ver, por exemplo, o prédio do Parlamento, já que a cidade abriga o poder Legislativo. E o Cape Town Stadium, um dos elefantes brancos da Copa, casa do Ajax Cape Town, mas que hoje também recebe shows e outros eventos para diminuir os custos monumentais da manutenção. Ninguém, no entanto, parece fazer vodu da Fifa. Pelo contrário: os moradores enfatizam que a Copa abriu os olhos do mundo para o país.

 O Café, no platô, oferece opções de lanches, pratos e vinhos. No dia da minha visita, flagrei um grupo de amigos que comemorava o aniversário de 25 anos das loiras Dominique e Elnette. Levavam um bolo de cobertura amarela e uma cesta de piquenique a tiracolo. Passariam a tarde ali, rindo, bebendo, comendo frutas e bolo. Estes sabem contemplar, pensei. 

 Também flagrei Kelly, de 30 anos, e sua mãe. Kelly ajustava os cabos que a desceriam 112 metros penhasco abaixo. O instrutor do rapel dava dicas do que aconteceria, mostrava que poucos metros adiante havia outros instrutores à sua espera e que, se ela se assustasse com um lagartinho na escalada (o instrutor simulava um berro), estaria segura por este e aquele gancho. Kelly pratica rapel, mas não se exige experiência prévia para fazer isso na Table Mountain. Como diz o folder da Abseil Africa, basta pesar mais de 40 kg e ter certo grau de insanidade.

Churrasco à moda da Casa

Ou, como dizem os sul-africanos, "Nice day for a braai, boet!"

Os sul-africanos, como os brasileiros, não dispensam uma carne na brasa

Os sul-africanos, como os brasileiros, não dispensam uma carne na brasa Foto: Mônica Manir/Estadão

O passatempo preferido do sul-africano é preparar um braai, um churrasco. “Nice day for a braai, boet!”, dizem. Assim como normalmente acontece no Brasil, são os homens que encostam o umbigo na churrasqueira, enquanto as mulheres cuidam dos acompanhamentos. Na grelha eles enfileiram boerewors (salsichas frescas), sosaties (espetos feitos normalmente com cubos de carne de cordeiro, intercalados com cogumelos, cebolas e ameixas secas), pão de alho, costelinhas de porco, frango marinado. 

Aviso sobre o ritual porque vai que o convidam para um braai e você diz “não” por ignorar seu significado profundo para os sul-africanos. Se te chamarem para um chop’n dop, saiba que vai beber mais que comer nesse churrasco. Tudo bem, porque a quantidade de cervejas artesanais do país é grande e de boa qualidade. 

 Tem braai para comer na rua também. Uma boa dica é o churrasco coreano do Galbi, com grelhas no centro da mesa. Fica numa galeria da Long Street e, entre outros, serve um combinado safári interessante, com filés de avestruz, javali, zebra e kudu, uma espécie de antílope. Mais interessante fica se acompanhado do purê de batata rústico, feito com manteiga, ervas e alho. O preço convida. O safári, por exemplo, sai por 260 rands, algo como R$ 60, e dá para quatro pessoas sem sacrifício. 

Se quiser um braai mais requintado, vá ao Shortmarket Street, uma investida dos chefs Luke Dale-Roberts e Wesley Randles. É um lugar transado, decorado com um megapainel de borboletas do artista Mark Rautenbach, muita madeira e couro, e vasos de xaxim – inclusive no banheiro (o uso do xaxim não está proibido na África do Sul).  Provei um filé alto, ultramacio, regado com molho café com leite e acompanhado de erva-doce glaceada.

Poderia ter escolhido de acompanhamento batata frita em gordura de pato ou minichurros também de batata. Poderia ter escolhido como prato principal a porchetta ou o kingklip (peixe de carne branca), que alimentavam meus colegas de mesa. Ficaria deliciada com tudo, imagino, porque tudo parece ter uma pitada de arte. A média de preços é 200 rands por prato (R$ 49), um valor em conta pela qualidade da comida e do lugar. A Cidade do Cabo convida a engordar.

As compras descoladas da Cidade do Cabo

43 galerias no centro da cidade oferecem de tudo um pouco para quem quer deixar alguns rands na cidade

Variedade no mercado Old Biscuit Mill: ali, encontra-se de vinho a sapatos e brinquedos

Variedade no mercado Old Biscuit Mill: ali, encontra-se de vinho a sapatos e brinquedos Foto: Mônica Manir/Estadão

Na primeira quinta-feira do mês, galerias do centro ficam abertas das 17h às 21h oferecendo arte e eventos culturais (alguns gratuitos) num clima muito lekker, muito bacana. O que começou com seis galerias em 2012 se estendeu para 43 neste ano. A sugestão é dar uma olhada antes no site e pré-selecionar uns pontos. Entre tantos, tem a Chandler House, estúdio de design pequeno, que também é loja e galeria. 

Michael Chandler, o dono, faz uns bustos de cerâmica com a cabeça aberta que chama de vasos frenológicos. São bonitos, como são bonitos os pratos com o logo da VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) e as canecas escorridas de dourado. Fica na Church Street, onde também pululam a Smith, a 99 Loop e a Olive Green Cat, uma joalheria que mistura diamante (a pedra do país) com resina. 

 Já na Bree Street, perpendicular à Church, você encontra a Skinny LaMinx, a Youngblood e a Villa 47, com sua culinária que mescla comida mediterrânea e asiática. Sim, restaurantes, bares e cafés também estão na jogada. Todas os locais da First Thursday abrem durante a semana até as 17h. Aos sábados, fecham às 14h.  Quem prefere shopping vai se esbaldar com o V&A Waterfront e suas mais de 450 lojas. Legal dar uma olhada na Watershed, no andar térreo.

É uma feira de artesanato e design com 150 stands, aberta aos sábados das 10h às 19h de outubro a abril e das 10h às 18h de maio a setembro. Uma das coisas mais diferentes que vi ali são vestidos que servirão em você de qualquer jeito. A vendedora faz ajustes na hora usando uma máquina de costura portátil que fica escondida atrás de um manequim. De quebra, ela emenda um turbante na sua cabeça, sem que isso signifique, pelo menos para ela, uma apropriação indevida da cultura africana. Complicado é reproduzir aquela amarração sozinha em casa.

Woodstock é um bairro antigo, de 1666, com vibe moderna. Destaque para o Old Biscuit Mill, ex-fábrica de biscoitos no coração do bairro que, aos sábados, reúne uma trempa de iniciativas no Neighbourgoods Marke. A Old Biscuit tem de artesanato e vinho a sapatos e brinquedos educativos, tudo barato. Come-se muito bem em estandes que juntam uma miscelânea de sotaques gastronômicos. Se quiser algo mais premiado, tente uma mesa no The Test Kitchen ou no Burrata.

Heranças e sabores

Os encantos de Bo-Kaap, um bairro de inúmeras influências

Entrei em Bo-Kaap pelo mosaico de casas coloridas, e isso já é meio caminho andado para sentir que vale passar mais tempo nesse bairro de origem sui generis: muitos ali são descendentes dos escravos da Malásia, Indonésia e África, importados pelos holandeses durante os séculos 17 e 18. Pela vestimenta dos moradores, é possível perceber que domina ali a religião muçulmana, e não muito longe se avista a Auwal, primeira mesquita oficial da África do Sul. Foi fundada pelo imã Abdulla ibn Abd al-Sallaam, conhecido por seu ativismo.

Repleto de casas coloridas, o simpático bairro de Bo-Kaap tem uma história rica - e temperos saborosos

Repleto de casas coloridas, o simpático bairro de Bo-Kaap tem uma história rica - e temperos saborosos Foto: Mônica Manir/Estadão

Quem quiser mergulhar na história local tem terreno fértil no Museu Bo-Kaap, aberto de segunda a sábado, das 10h às 17h. Adultos pagam 20 rands (R$ 5). O prédio fica na mais antiga casa da região. 

A comida (ah, a comida) é fonte de prazer em Bo-Kaap. Se deseja experimentar a autêntica gastronomia malaia, estique as canelas até o Kombuis. Fica no alto da August Street. Ainda que chegue suando, você logo se refrescará com a acolhida do casal Yusuf e Nazli Larney, que recheiam seu prato de histórias (Yusuf, especialmente). Nazli pilota a cozinha. Ela oferece, entre tantos pratos, denningvleis (cubos de cordeiro assados com legumes e pasta de tamarindo). 

Com um pouco mais de tempo disponível, há um tour que sai do museu e que orienta os turistas na compra de ingredientes que eles usarão no próprio almoço, como gengibre, coentro, cardamomo e canela. O workshop ocorre na casa de um morador, que ensina a fazer samoosas e um curry original. O tour se chama Cape Malay Cooking Safari. Mais detalhes no site da companhia

A vista do Kombuis é panorâmica, mas dela não dá para distinguir o Noon Gun, canhão que dispara ao meio-dia de segunda a sábado, desde que nenhum desses dias seja feriado. O canhão tem uma história que vale conhecer. Adianto que na verdade são dois canhões. E que um cavalo já foi morto por um dos disparos. Chegue lá às 11h15 e saberá todos os detalhes. 

A hora do chá

Um dos costumes herdados da colonização britânica, a bebida é parte dos roteiros da cidade

Como toda colônia britânica, a África do Sul é farta em chás – ou infusões. O mais famoso é o rooibos, ou chá vermelho, que fica ótimo com mel e uma rodela de limão e pode ser deixado em infusão por dias que não amarga. Comprei uma versão com maçã e menta numa loja de souvenirs, mas você encontra rooibos, darjeeling, oolongo e outros em lugares mais “orgânicos”, como o Tea Bar, na Long Street, que agrega ao cardápio a marca da produção sustentável. 

O farto bufê do chá da tarde Belmond Mount Nelson Hotel é de dar água na boca

O farto bufê do chá da tarde Belmond Mount Nelson Hotel é de dar água na boca Foto: Mônica Manir/Estadão

Se quiser experimentar um glamouroso chá da tarde, a pedida é outra: o Belmond Mount Nelson Hotel (bit.ly/belmondcape), carinhosamente chamado de Nellie, aquele do jantar para Winnie. Seu chá já virou uma instituição na cidade. Entre 13h30 e 17h30, você pode se sentar de frente para um jardim de rosas e saborear, ao som do piano, uma sequência de minissanduíches de rosbife, salmão defumado, rúcula, maionese de ovo ou pepino, acrescidos de miniquiches e miniempanadas crocantes e seguidos de uma mesa de tortas, merengues, sonhos, scones e mais uma miríade de docinhos. A carta de chás é tão difícil de escolher quanto. Uma sugestão é o blend da casa, que leva darjeeling, kenya, assam, keemun, ceyloon e pétalas de rosa do jardim lá de fora. Preço por pessoa: 295 rands (R$ 72).

Para quem prefere café, há uma disseminação de redes de coffee shops pela cidade. A Black Insomnia mistura grãos brasileiros com os de Uganda e Guatemala; a Deluxe acrescenta grãos etíopes e costa-riquenhos, com música bem boa ao fundo. Quer algo mais tranquilex? Procure um assento no Café Nood. Ainda tem o Truth Coffee, o Rcaffe, o Rosetta, o Jason Bakery, a Daily Buzz... A Cidade do Cabo está se dobrando à cafeína.

A noite é uma adulta

Na Cidade do Cabo, todas as tribos se encontram em Long Street

Long Street é a parada para quem quer conhecer a noite da Cidade do Cabo. Fica no Central Business District, ou CBD, e ostenta prédios em estilo vitoriano superiluminados. É um lugar interessante para perceber as tribos que mapeiam a cidade. Enquanto na esquina do Cappello negros e negras descem ao chão numa espécie de kuduro estonteante, na diagonal desse prédio descendentes de holandeses e britânicos fazem levantamento de copo na Beerhouse, que oferece 99 marcas de cerveja e uma varanda comprida. Na mesma calçada está a 169, a casa noturna mais barulhenta do pedaço, com seu R&B e uma varanda comprida também, que permite acompanhar e paquerar quem passa lá embaixo. 

A Beerhouse, na Long Street, tem 99 rótulos de cerveja e uma convidativa varanda

A Beerhouse, na Long Street, tem 99 rótulos de cerveja e uma convidativa varanda Foto: Mônica Manir/Estadão

Já De Waterkant é o hub para fashionistas. Lembra Greenwich Village, em Nova York. Gays gostam muito do lugar, com uma megaoferta de bares e casas noturnas. A redondeza confirma quão receptiva é a cidade à comunidade LGBTs. Em Camps Bay e a pegada é mais sofisticada e atraente para as celebridades. Leonardo di Caprio lá esteve. E Scarlet Johansson. E Charlize Theron. E o príncipe Harrry. O Café Caprice, com sua cultuada carta de drinques, é o preferido deles. Mas faça reserva porque a fila costuma ser grande.

Seja em que ponto estiver, nas altas horas da noite recomenda-se cuidado com carteiras e celulares. Policiais com walkie talkie rondam as áreas de maior aglomeração, mas por precaução saia como faria em qualquer cidade grande do Brasil: apenas com o essencial. 


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