Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

As sete colinas contra um modelo caduco de cidade

Com um olhar contemporâneo sobre a tradição e o patrimônio, a parte mais histórica de Lisboa reinventa seu apelo

Mônica Nobrega, Lisboa / O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2017 | 04h25

Depois de meses de obras que começaram em fins de 2015, o Cais do Sodré finalmente está livre dos tapumes. Há algumas semanas exibe novo visual: calçadão, espreguiçadeiras, restaurante, café, livraria, menos carros. 

A renovação de uma área importante para a história marítima da capital portuguesa representa um bom resumo da Lisboa turística de agora, essa que tem frequentado as listas de destinos mais descolados do planeta. E cujo segredo está em reinventar seu apelo por meio de um olhar contemporâneo sobre a tradição e o patrimônio. 

É na velha Lisboa que está a novidade. Em bares no topo de prédios, movidos a drinques e vista dos telhados e do Rio Tejo. Na hotelaria moderninha instalada em palacetes de séculos passados. Nos hostels diferentes de outros que você já viu pelo mundo, e que fazem da capital de Portugal uma referência nesse tipo de hospedagem. Na noite lisboeta, que dá sinais de ter se cansado um pouco do Bairro Alto e busca frescor na antiga área de bordéis, degradada até pouco tempo atrás. 

A onda novidadeira segue para o também histórico bairro de Belém, ponto de partida das navegações portuguesas nos séculos 15 e 16. Inaugurado em outubro, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT) ergueu na margem do Tejo um edifício curvilíneo branco, ostensivo quando visto do chão firme, mas quase imperceptível se observado de um barco no meio do rio.

É um contraponto à monumentalidade acrítica dos vizinhos Padrão dos Descobrimentos e Torre de Belém. Uma provocação sintonizada com este tempo em que é preciso fazer perguntas em vez de apenas celebrar os ditos conquistadores. 

Do outro lado da cidade, o Parque das Nações segue sendo visitado graças ao Oceanário. Turistas vão até lá também para um passeio no teleférico que, a bem da verdade, liga nada a lugar nenhum. Mas, sem ter ainda completado 20 anos, data que será celebrada em 2018, a área já começa a envelhecer. 

Representa um modelo caduco de cidade, que prioriza carros e torres envidraçadas de escritórios e hotéis. Vale como um bate-volta a partir da Lisboa verdadeiramente moderna: a velha cidade-mirante assentada sobre sete colinas, caminhável e com história para contar. 

Sintra. A rede de transporte público dá conta das necessidades do turista. Há metrô e os fotogênicos bondinhos, chamados de elétricos. Trens suburbanos, os comboios, partem da estação Rossio, na Baixa Pombalina, centrão da cidade, para a vizinha Sintra, onde o News Museum (8 euros) foi inaugurado há pouco mais de um ano, em abril de 2016. 

O museu traça uma trajetória da imprensa portuguesa e mundial por meio de um acervo quase todo virtual e interativo. São vídeos, paredes transformadas em telas sensíveis ao toque e óculos de realidade virtual com informações e curiosidades suficientes para uma tarde. Dá até para brincar de ser apresentador de televisão, com performance filmada e publicada no YouTube. 

Prepare-se para mais crítica ao mundo como ele é. A exposição Macho Media, em cartaz até o fim do ano, questiona o machismo na imprensa. A histórica Lisboa tem olhado com atenção para o novo mundo. Mas de um jeito diferente. 

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