ION DAVID/DIVULGAÇÃO
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Atalhos para águas cristalinas

Em pleno final de inverno, eu caminhava sob um sol escaldante. Sem nuvens no céu, fazia uns 30 graus. A trilha não era das mais difíceis, com 7 quilômetros de percurso e algumas subidas íngremes. Passei por cachoeiras deslumbrantes, mas só deu para olhar. O destino era Rei do Prata, uma queda d'água com aproximadamente 20 metros de altura e um poço azul cercado de rochas por todos os lados, que coroa a visita de forma cinematográfica. O local fica nas proximidades de Cavalcante, cidade que abriga boa parte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

PEDRO SIBAHI / CAVALCANTE , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2013 | 03h20

Diferentemente da vizinha Alto Paraíso, que se tornou destino místico e conta até com pista de pouso para óvnis, Cavalcante desponta como opção para os viajantes mais interessados em curtir a natureza.

Visitar cachoeiras é o ponto forte da cidade, que reúne aproximadamente cem quedas dentro do município - a contratação de guia é obrigatória ou necessária em boa parte dos percursos. Fora isso, o parque nacional garante centenas de quilômetros de cerrado preservado para admirar. Com sorte, é possível até avistar uma onça suçuarana ou o veado-campeiro que inspira o nome local.

Quando passei por essas terras fiz o caminho obrigatório até Brasília e, de lá, percorri mais 310 quilômetros de carro, com uma paradinha para reabastecer e sacar dinheiro em Alto Paraíso, no último terço da viagem. A estrada dá voltas ao redor de morros e requer atenção nos trechos com depressões, sob risco de "decolar" do asfalto. Pode ser um pouco cansativo, mas ter um veículo próprio, minimamente preparado para estradas de terra, compensa pela independência.

É de carro ou jipe que se chega à maior parte das trilhas, como a que leva para o circuito de cinco cachoeiras na Fazenda Veredas, a 7 quilômetros da cidade. O início do cânion onde estão as quedas fica a 1.500 metros da sede da fazenda, mas, depois, é preciso atravessar rochas e fazer pequenas escaladas, o que limita o passeio para quem tem dificuldade nesse tipo de terreno. Se tiver pique, a recompensa virá em paisagens belíssimas, água fresca e uma mata quase intocada.

Quem tiver disposição para mais uma caminhada longa pode visitar a Ponte de Pedra, formação rochosa que lembra um arco, com jeito pré-histórico. Segundo geólogos, o lugar foi esculpido pela natureza ao longo de quase 2 bilhões de anos. Para chegar a essa paisagem insólita, é preciso entrar pela Reserva Renascer, a 9 quilômetros de Cavalcante.

A partir da base, são mais três quilômetros de caminhada leve e 900 metros de subida íngreme até desembocar no Rio São Domingos. De lá, a vista para o Vão dos Órfãos e a borda norte da Chapada dos Veadeiros é merecedora de pelo menos uns três minutos de silêncio.

Quilombola. Mais acessível que o Rei do Prata e quase tão bela quanto, a cachoeira Santa Bárbara fica nas proximidades da comunidade conhecida como Engenho II, a 22 quilômetros de Cavalcante. Essa área é domínio do povo calunga, descendente de escravos que fugiram da mineração no século 19. Hoje eles se espalham por 20 vilarejos, abarcando também os municípios de Teresina de Goiás e Monte Alegre, e formam o maior remanescente de quilombo no Brasil.

A cultura calunga é rica em elementos da tradição católica misturados com a matriz africana. Esse sincretismo se manifesta nos eventos de cunho religioso, como a Festa do Divino, que ocorre entre os meses de maio e junho nas capelas do Vão das Almas e do Vão do Moleque, próximas da comunidade do Tinguizal, mais ao norte do Engenho. Nesse período é comemorada a colheita e a fartura nas lavouras, com uma homenagem ao Espírito Santo.

Misturando ritos tribais do Congo e de Angola, a Congada acontece no dia 13 de outubro, também em Tinguizal. Essa festa é uma das mais animadas, com música, cantos e danças.

O ápice ocorre durante a procissão na qual é encenada a cerimônia de coroação do Rei Congo e da Rainha Ginga de Angola - uma personagem da história africana, a Rainha Njinga Nbandi, do século 17.

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