Viagem

Até o carnaval, Bahia celebra fé com festas

De dezembro até o carnaval, uma série de festejos com origem religiosa e muito sincretismo tomam conta de Salvador. Com atrativos até para quem não é tão devoto assim

14/11/2017 | 04h45    

Júlia Belas - ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S. Paulo

Barcos levam oferendas para Iemanjá, em festa dedicada a senhora dos mares

Barcos levam oferendas para Iemanjá, em festa dedicada a senhora dos mares Foto: TEREZA TORRES/SETUR

Não é só sol, praia e axé. A alta temporada em Salvador também é marcada por uma mistura de fé e folia, com algumas de suas festas religiosas mais icônicas. Os festejos começam em 4 de dezembro, com as homenagens a Santa Bárbara (Iansã no sincretismo com as religiões de matriz africana), e vão até o Carnaval. Para o antropólogo Ordep Serra, autor do livro Rumores de festa: o sagrado e o profano na Bahia, a mistura entre religiosos e foliões é parte do ritual.

“Nas festas de largo, uma parte transcorre no recinto sagrado e uma parte transcorre fora. A maior massa vai para fora da igreja, que tem dimensão profana, mas essa parte também tem relação com o sagrado”, afirma. Cantos, rezas e a própria folia fazem parte dos rituais. Um exemplo é a Lavagem do Bonfim, que é considerada o único festejo do Cristo crucificado que tem um tom mais alegre.

“No mundo inteiro, está todo mundo choroso porque Cristo morreu pelos nossos pecados, mas aqui a festa vem de uma releitura de Oxalá, que é uma entidade que gosta de alegria.”

Presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington explica que esses festejos, que fazem parte da cultura local e têm ampla participação da população, passaram a ser mais valorizados. “Festa, para nós, é coisa séria. A gente tem esse lado descontraído do baiano de receber bem, mas temos um grupo de pessoas ligadas a todo esse universo e que vivem disso o ano todo.”

4 de dezembro - Santa Bárbara

Católicos e seguidores do candomblé se vestem de vermelho e participam de uma procissão pelo Centro Histórico para homenagear a santa (Iansã no sincretismo religioso), com direito ao tradicional caruru. De acordo com o antropólogo Ordep Serra, a festa (na foto abaixo) é uma das que mais mantém as suas origens relacionadas ao povo negro soteropolitano. “Existe esse fenômeno em que as classes média e alta se apossam da criação popular. A Festa de Santa Bárbara é a que conserva a maior vitalidade apesar disso.”

 

Católicos e seguidores do Candomblé se juntam para festejar Santa Bárbara (Iansã na religião de matriz africana)

Católicos e seguidores do Candomblé se juntam para festejar Santa Bárbara (Iansã na religião de matriz africana) Foto: Divulgação

8 de dezembro - Nossa Senhora da Conceição

Padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição da Praia é celebrada em um feriado municipal em seu templo localizado no bairro do Comércio. Os festejos contam com um andor com a imagem da santa e de Santa Bárbara, além de um trio elétrico para agitar o público com hinos católicos. “A Festa da Conceição foi muito forte enquanto tinha a comunidade de Água de Meninos ali perto. Mas acabaram, higienizaram e a festa começou a morrer”, explica o antropólogo Serra.

31 de dezembro - Bom Jesus dos Navegantes

Entre o último dia de 2017 e o primeiro dia de 2018, duas procissões marítimas são realizadas tradicionalmente na Baía de Todos os Santos. A primeira vai do Largo da Boa Viagem, na Cidade Baixa, até a Basílica da Conceição da Praia, no dia 31 de dezembro. No dia 1º de janeiro, centenas de embarcações acompanham a Galeota Gratidão do Povo, que conduz a imagem de Bom Jesus dos Navegantes à Boa Viagem.

11 de janeiro - Lavagem do Bonfim

Realizada na segunda quinta-feira do ano, é a segunda maior manifestação popular da Bahia, perdendo apenas para o carnaval. Os devotos caminham da Igreja da Nossa Senhora da Conceição da Praia até a Igreja do Bonfim. “Quem tem fé, vai a pé”, diz o ditado local, uma referência aos 8km de caminhada. Na chegada, baianas em trajes típicos lavam as escadarias com água de cheiro (acima). A ordem é se vestir de branco, cor de Oxalá, orixá relacionado à criação do mundo. “Tem gente que só tem interesse na celebração religiosa, tem gente que vai para a parte da farra, da bebida, e tem o turista que quer conhecer tudo”, diz Edington, da Saltur. 

 

Lavagem do Bonfim é segunda maior festa da Bahia, perde apenas para o carnaval

Lavagem do Bonfim é segunda maior festa da Bahia, perde apenas para o carnaval Foto: TATIANA AZEVICHE/TURISMO BAHIA

15 de janeiro - Festa da Ribeira

Popularmente conhecida como Segunda-feira Gorda, a festa é realizada na segunda-feira após a lavagem do Bonfim. Reúne principalmente moradores da região da Cidade Baixa, que seguem trios e fanfarras pelas ruas. O antropólogo Serra explica que as barracas de madeira utilizadas na Lavagem do Bonfim, decoradas e pintadas, eram levadas para a beira da praia. “Os fregueses ajudavam no transporte das barracas de madeira até a Ribeira e ganhavam cachaça, o que se transformava numa festa.”

1º de fevereiro - Lavagem de Itapuã

Em 2018, o evento, realizado na quinta-feira antes do início do carnaval, completa 113 anos. O ritual, fruto da devoção de pescadores à Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, começa às 2h da manhã com o Bando Anunciador, que anuncia que a igreja será lavada com água de cheiro no dia seguinte. Às 7h, é realizada uma missa, seguida pelo cortejo de baianas, que lavam a escadaria. Depois, trios elétricos e grupos culturais circulam por ali até o início da noite.

2 de fevereiro - Festa de Iemanjá

O bairro do Rio Vermelho fica tomado de pessoas que vêm oferecer presentes – pentes, espelhos, sabonetes, perfumes – a Iemanjá. As oferendas são levadas em balaios, que seguem, no fim de tarde, em um cortejo de barcos. Para os não religiosos, há diversos shows na região e feijoadas nos tradicionais restaurantes à beira-mar.