Lee Jae-Won/Reuters
Lee Jae-Won/Reuters

Atrás das (pacíficas) linhas inimigas

Os ônibus de turismo na fronteira entre a Coreia do Norte e a do Sul estão cheios, uma vez que viajantes caçadores de aventuras querem visitar aquela que é tida como uma das fronteiras mais perigosas do mundo. As atuais tensões políticas só serviram para atrair mais turistas estrangeiros.

HEIKE SONNBERGER , PANMUNJEOM , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2013 | 02h10

Richard e Betty Podol chegaram à fronteira do território inimigo vestindo roupas de ginástica. Em frente ao casal de aposentados de Washington, soldados da Coreia do Sul e americanos se mantêm imóveis como bonecos de cera.

Os quartéis azuis em Panmunjeom, onde passa a linha de demarcação militar entre as Coreias, brilham ao fundo sob a luz do sol. "Aqui é tão calmo", diz Richard Podol, de 84 anos, olhando para elas com ar sonhador.

Sessenta anos antes, quando era responsável pelo fornecimento de alimentos para as tropas na linha de frente, o veterano de guerra podia ouvir artilharia desde sua base em Seul. Hoje, escuta-se apenas a voz dos guias de turismo. "Duas linhas, por favor, duas linhas. Tirem apenas fotos do que está diante de nós, não dos prédios atrás."

Trinta turistas internacionais visitam o quartel onde o fim da Guerra da Coreia foi negociado há 60 anos. Eles têm dez minutos para olhar ao redor e tirar fotos antes de o guia turístico dizer, com uma voz estridente: "Precisamos ir. Nós precisamos ir.".

Por outro lado, onde ficam os soldados norte-coreanos, outro grupo de turistas internacionais está de guarda. A visitação tem funcionado tão bem como sempre, mesmo após o ditador norte-coreano Kim Jong Un ameaçar os Estados Unidos com um ataque nuclear e suspender o trabalho na zona industrial de Kaesong, último projeto em conjunto com a Coreia do Sul.

Ônibus lotados. Antes mesmo de o ônibus virar a esquina, os soldados no lado sul abrem espaço para os seus semelhantes norte-coreanos, que levam os visitantes pelo mesmo roteiro. O tour ao sul da "fronteira mais perigosa do mundo" custa o equivalente a 80.

Às vezes carregados de tensão, os passeios atraem um número particularmente elevado de turistas que procuram aventura. Uma coisa boa para as fotos é que o quartel havia acabado de ser pintado.

O ônibus no qual Leland Sakai, de 63 anos, viaja está praticamente cheio. "Meus amigos nos Estados Unidos disseram que sou louco e que devo apenas manter minha cabeça abaixada", diz o professor aposentado do Colorado. Mas agora é a hora mais emocionante para vir aqui. "Já vivi a maior parte da minha vida", brinca ele, com linhas de sorriso espalhando-se por seu rosto.

Não parece que Sakai tenha nada a temer. "Tudo está como sempre, minha senhora", disse um soldado americano chamado Cody. Bonito, bem barbeado e boa prosa, aos 27 anos, ele e outros colegas fotogênicos levam grupos de 4 a 8 turistas por Panmunjeom a cada dia.

Às vezes Cody ouve uma explosão à distância, provavelmente outro javali ou veado que pisou numa mina enterrada na zona desmilitarizada. Mas o soldado de Oregon diz que ninguém aqui está nervoso porque não acham que Kim Jong Un correria o risco de iniciar uma guerra que quase certamente lhe custaria o poder.

Batalha de nervos. À luz destas palavras tranquilizantes, o comportamento nervoso de Jeongwon, nossa guia turística de 35 anos, parece ainda mais bizarro. Ela repete tudo o que é proibido em voz alta e pelo menos duas vezes em seu microfone portátil. À noite, ela deve ficar rouca. "Não pode tirar fotos aqui! Você não pode tirar fotos!" E, claro, ninguém está autorizado a apontar o dedo na direção da Coreia do Norte.

Não é só uma questão de aderir à rotina que as duas Coreias inimigas mantêm há décadas no paralelo 38. A licença de guia turístico de Jeongwon também está em jogo.

Ela diz que todos os guias são regularmente avaliados pelo comando militar na fronteira e aqueles que não têm o controle de seus turistas perdem sua autorização para trabalhar.

Mas, neste dia, tudo se move suavemente. Pela primeira vez em 60 anos, o veterano Richard Podol visitou o lugar de onde, quando jovem, tem muitas memórias "educacionais e inquietantes". Durante a visita, ele até se aventurou em um túnel secreto norte-coreano. "Ele não conseguia se segurar", diz sua mulher, Betty. "Eu quase tive que levá-lo de volta."

Sakai, o professor aposentado do Colorado, voa para casa com a sensação de que a guerra não é tão iminente quanto os apresentadores norte-americanos enfatizavam. "Eu vou dizer aos meus amigos: 'venham aqui e vejam por si próprios como as coisas realmente são na Ásia", diz ele, radiante. Enquanto isso, a guia Jeongwon está sentada na frente do ônibus, chupando uma pastilha para garganta.

 

SAIBA MAIS

 

Como ir: entre 3 mil e 3.500 turistas ocidentais vão à Coreia do Norte a cada ano – chineses são entre 20 e 30 mil. Para se deslocar pelo país e visitar pontos de interesse, é obrigatório estar acompanhado de um guia indicado pelo governo. Na prática, significa contratar uma agência. A Koryo Tours (koryogroup.com), de Pequim, tem opções de tours em grupo ou individuais e é responsável por metade dos visitantes ocidentais na Coreia do Norte a cada ano.

Para visitar apenas a zona desmilitarizada é possível contratar um passeio de um dia em Seul, na Coreia do Sul, distante 50 quilômetros de Panmunjeom. Faça a pesquisa no site oficial da capital, visitseoul.net.

Visto: é exigido de brasileiros para entrar na Coreia do Norte – o pedido precisa ser feito por meio da agência contratada. Não é exigido na Coreia do Sul para viagem a turismo com permanência de até 90 dias

Dicas: para quem vai à Coreia do Norte, o guia será uma espécie de babá. Todos os atos do visitante, de tirar uma foto a uma caminhada pela rua, devem ser autorizados e acompanhados por ele. Tentar burlar a vigilância pode resultar em problemas – para o guia, principalmente.

 

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