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Balada e diversão nos subúrbios de Paris

Para além do Phériphérique, o anel viário que delimita o centro da cidade, uma nova cena de festas alternativas e mais baratas

Benoît Morenne, The New York Times

11 Outubro 2016 | 03h30

MONTREUIL - Em uma sala escura improvisada dentro de um antigo estúdio de cinema, dezenas de pessoas de 20 e poucos anos bebiam cerveja enquanto assistiam a um filme sobre sua paixão em comum: o surgimento dos bailes suburbanos.

Antes mesmo de o projetor parar e a trilha sonora do filme chegar ao fim, o baixo de uma poderosa música techno atraiu a plateia para uma grande pista de dança, onde a festa se completou, no Espace Albatros, centro de artes em Montreuil, subúrbio a leste de Paris.

Paris tem assistido a uma debandada de sua vida noturna mais interessante para os subúrbios externos ao Périphérique – o anel viário que contorna os 20 arrondissements (distritos) do centro da capital francesa. 

É o caso de Montreuil, onde uma nova geração de baladeiros se instalou em comunidades locais, criando uma alternativa de diversão mais animada e barata do que os clubes parisienses.

“Estávamos aborrecidos com as festas que frequentávamos em Paris”, diz Leny Decret, 26 anos, gerente júnior de uma agência de publicidade digital e um dos fundadores do Tangible Utopia, coletivo musical que produziu o documentário exibido no Espace Albatros. Os pais de Decret foram assistir ao documentário e disseram que o fenômeno tinha um quê hippie.

“Talvez seja essa coisa de ficar juntos de verdade, dividindo um momento”, diz.

A mudança do mundo dos bailes da cidade para a periferia começou por volta de 2009, quando uma manchete do jornal francês Le Monde chamou Paris de “a capital europeia do tédio”. Numa tentativa de reviver o charme noturno da cidade, Eric Labbé, dono de uma loja de discos que virou divulgador de bailes, abriu uma petição online pedindo às autoridades municipais o afrouxamento das regras severas sobre ruído e a melhoria do transporte público após a meia-noite.

Parisienses jovens de classe média criaram coletivos informais de música e artes para se apresentar regularmente em locais nos subúrbios de operários e imigrantes. “Existe um lado aventuroso em ir além do Périphérique para festejar", diz Labbé, responsável pelas relações públicas da boate Zig Zag, no 8.º Arrondissement.

Os organizadores desses festivais suburbanos criaram um ambiente mais aberto e de espírito livre do que o mundo das boates exclusivas – e caras – de Paris.

“É diferente, as pessoas não fazem julgamento aqui”, diz Armand Poulhen, estudante de 24 anos, durante uma festa diurna em Montreuil. Os ritmos contagiantes, luzes e balões contribuíam para emprestar um ar de festa comunitária.

Em geral, essas festas suburbanas são realizadas nos fins de semana. As que ocorrem nos meses de primavera e verão aproveitam a luz do dia, ao ar livre. Muitas são gratuitas, e as que cobram ingresso sempre ficam abaixo do mínimo de 20 euros que se paga pela entrada em uma boate parisiense.

Estranhos no ninho. O público é formado em boa medida pela juventude classe média do centro da capital francesa, que se sente especial por ir a bairros que normalmente não frequenta. A sensação de aventura faz parte da atração, dizem alguns baladeiros. No Espace Albatros, Nicolas Boivin, 24 anos, que trabalha com publicidade, diz que foi a curiosidade a respeito de lugares fora da cidade o que o fez procurar festas na periferia, longe do “padrão” parisiense.

Os bailes surgem como bolhas de som e energia em ruas comuns de bairros negligenciados nos arredores de Paris. Um centro de artes e clube noturno ocasional, o 6B, em um antigo prédio industrial em Saint Denis, norte de Paris, atrai fãs abastados de música eletrônica a um bairro onde o desemprego é de quase 20%, o dobro da média nacional.

“Sair do 6B é como tomar uma bofetada na cara”, diz Benedetta Bertella, de 31 anos, DJ em bailes dos subúrbios com seu marido. Ela descreve acampamentos de sem-teto do lado de fora de algumas das boates onde toca. “Você pensa, caramba, nós estamos festejando aqui.”

MUDANÇA DE PERFIL DIVIDE MORADORES

Algumas das pessoas que moram nas comunidades que começaram a receber bailes encaram os baladeiros parisienses como invasores. Queixas contra o barulho foram feitas em 2015 às autoridades locais, e alguns moradores de L’Ile-St.-Denis, do outro lado do Sena, em frente ao 6B, registraram reclamação contra o prefeito e o dono do centro de artes.

Em um blog dos residentes, um vizinho identificado como Eric reclamava dos “baladeiros parisienses que vêm estragar nossas noites, porque as pessoas de outros lugares não querem suas festas por perto”.

Já outros, como Mady Senga-Remoué, de 35 anos, que mora perto do 6B, afirma que as mudanças têm influência positiva no bairro. Ela enfatiza que o espaço funciona como centro comunitário. “É como uma colmeia”, disse Mady, acrescentando que ela e alguns vizinhos costumam participar das festas.

Em alguns dos bairros, as festas alternativas chegam ao mesmo tempo em que começam mudanças urbanas. Nas últimas décadas, parisienses que fogem dos aluguéis caros foram morar na periferia e levaram galerias vanguardistas, microcervejarias e centros de artes para longe das avenidas arborizadas do Barão de Haussmann.

Não está claro o quanto isso afetou quem mora nos subúrbios, embora sociólogos tenham assinalado uma elitização crescente em áreas específicas, como em Montreuil. Em 2013, o jornal francês Libération destacou preocupações dos moradores com o aumento do preço da moradia. Agora as festas podem ser acrescentadas à lista. 

As autoridades locais enxergam oportunidades para dar uma cara mais atraente às suas cidades e ter uma programação cultural diversificada. Uma série de eventos de fim de semana em Bobigny, noroeste de Paris, ocorreu em um terreno da prefeitura. Em Nanterre, La Ferme du Bonheur, barracão de madeira que abrigou festas organizadas pelo coletivo La Mamie’s, aparece no site da prefeitura, embora tenha sido construído ilegalmente em área pública.

A prefeitura de Paris tenta coordenar ações com os municípios vizinhos e incentivar o crescimento coletivo como destino de música eletrônica. A cidade criou um Conselho da Noite, para estimular a cidade a relaxar e se divertir um pouco.

COMO CHEGAR

Há metrô e trem para os subúrbios de Paris. O Espace Albatros fica a 10 minutos a pé da estação Croix de Chavaux, na linha 9. Para ir ao 6B, pegue a linha D do trem (RER), e desça na estação Saint Denis. Funcionamento entre 5h30 e 00h30, com variações. Veja linhas e horários parisbytrain.com.

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