Viagem

Um roteiro pela Berlim de David Bowie

Do prédio simples em Schnöneberg, onde viveu nos anos 1970, ao estúdio no qual gravou o icônico ‘Heroes’, as ruas da capital alemã parecem pulsar na batida do astro pop

14/01/2016 | 22h41    

Fabiana Caso - ESPECIAL PARA O ESTADO

Vista do edifício onde David Bowie viveu entre 1976 e 1978 no distrito de Schoeneberg, em Berlim.

Vista do edifício onde David Bowie viveu entre 1976 e 1978 no distrito de Schoeneberg, em Berlim. Foto: Fabrizio Bensch/Reuters

Existe um som e um ritmo em que cada cidade pulsa, que acaba se infiltrando na cadência de seus moradores. Depois de uma temporada de excessos nos Estados Unidos, David Bowie foi atraído a Berlim nos anos 1970, atrás de uma vida mais calma e anônima quando o lado ocidental era uma ilha cercada pelo espesso muro. O astro, morto dia 10, deixou rastros na capital alemã, que inspiram um tour sonoro cujo nome poderia ser B(owi)erlin.

Na época de sua chegada, Bowie andava magnetizado pela criatividade eletrônica de bandas alemãs como o Kraftwerk e Neu!, influências que ele incorporou, absorveu e acabou sintetizando para audiências mais amplas em seus álbuns Low (1977) e Heroes (1977), o último concebido e inteiramente gravado em Berlim.

Uma das diversas faixas instrumentais do álbum ‘Low’

Quando morei em Berlim em 2013, vivia seguindo as pegadas cintilantes que o astro inglês deixou por lá de 1976 a 1978, ouvindo músicas de sua fase eletrônica como trilha sonora para descobrir a cidade de metrô. Por outro lado, minha chegada coincidiu com o lançamento de The Next Day (2013), onde Bowie revisitava Berlim em tom nostálgico, costurando passado e presente na canção Where Are We Now, revendo pontos e contando já no primeiro verso que ele teve de pegar um trem em Potsdamer Platz, o que seu interlocutor nunca imaginaria possível.

Em 2013, Bowie revisitou Berlim nesta música, citando pontos como Potsdamer Platz, KaDeWe e o clube Dschungel

E não era mesmo nos idos dos 1970, quando Bowie gravava no Hansa Ton Studio, ali pertinho, no número 38 da Köthener Strasse, vendo o muro da sala de gravação cortar a ex-movimentada praça em duas, então reduzida a areia.

Quem vê as estruturas metálicas da enorme estação e os arranha-céus envidraçados de ângulos pontudos do atual centro comercial da Potsdamer Platz (potsdamerplatz.de) não imagina o cenário inóspito da época em que Bowie compôs Heroes, dentro da Meistersaal, mais conhecida como The Big Hall By The Wall – um enorme salão de feições neoclássicas que já foi galeria de arte, salão de festas para os nazistas e se tornou um dos estúdios de gravação mais cobiçados do mundo por sua acústica.

Outra das faixas instrumentais e eletrônicas do álbum ‘Low’, puramente inspirada na cidade separada

Dê uma olhada no entorno do edifício do Hansa, hoje apinhado de prédios, e tente imaginar que ele era a única construção em pé naquela rua, sobrevivente de bombardeios insistentes, no tempo em que era frequentado por Bowie. Pela janela do salão-estúdio, podia-se avistar o muro a cerca de 100 metros, bem como os guardas em uma das torres de vigilância.

Quando buscava inspiração para letras, em seu costume de escrever no estúdio, Bowie flagrou um beijo entre o seu produtor Tony Visconti e a cantora alemã Antonia Maass, que estavam ao lado do muro. Foi o suficiente para inspirá-lo a escrever Heroes ali mesmo, sobre o amor heroico à sombra das balas e do obstáculo intransponível, que poderia ser vencido pela paixão. O estúdio continua na ativa em outro andar, mas é possível agendar visitas no hansatonstudio.de ou no musictours-berlin.com, que tem outros tours temáticos do astro.

A versão de Bowie em alemão para “Heroes”, que também foi gravada por ele em francês, como “Héros”

Rume ao bairro de Schnöneberg para o prédio onde Bowie e Iggy Pop moraram, no 155 da Hauptstrasse – o governo alemão cogita rebatizar a rua como David Bowie Strasse –, a apenas alguns passos da estação de metrô Kleistpark. O que impressiona na fachada é a austeridade e simplicidade, o amarelo-bege e as janelas de vidro em nada se destacam na paisagem, parecendo o lugar perfeito para quem queria uma vida mais “realista”.

A faixa mais popular de ‘Low’, onde Bowie ameaça não sair de seu quarto azul

Se na época em que os músicos viviam ali o bairro era boêmio, cheio de bares e tipos alternativos, hoje é mais uma pacata região residencial, que conserva alguns redutos da comunidade gay. Mas ainda está lá, no número 157 da mesma rua, um dos lugares que eles frequentavam: o Anderes Ufer, um dos primeiros bares abertamente gays da Europa, hoje chamado Neues Ufer. Dizem que David e Iggy gostavam de aparecer por lá em solidariedade à causa. Vale sorver um café ou drinque e imaginar os dias em que os dois flanavam pela rua e as noites em que davam o ar da graça ali, hoje um lugar tranquilo e simpático.

Música de abertura do álbum ‘Heroes’

Não muito longe, na divisa de Shöneberg e Charlottenburg, no número 50 a 55 da Nürnberger Strasse (estação Augsburger Strasse), o lendário clube Dschungel era um lugar de festa para Bowie e Iggy – algo como o Studio 54 de Nova York, revisitado também em Where Are We Now. Veja a impressionante fachada art déco da construção do final dos anos 1920, que hoje abriga o Hotel Ellington depois de sediar farras dançantes nos anos 1970. Em uma pegada bem diferente, o clube punk SO36 (Oranienstrasse 190, estação Kottbusser Tor; so36.de) também vivia na agenda noturna dos dois, no então bairro rocker de Kreuzberg. Hoje, o local tem shows e festas que vão do hip hop a reggae.

Vizinho ao Kreuzberg, o bairro de Neuköln concentra a comunidade turca até hoje e foi homenageado por Bowie em uma das faixas instrumentais do álbum Heroes. Vale procurar um kebab por ali e observar os moradores.

Em um círculo do tempo, a faixa-título do álbum de despedida Blackstar (2016) de certa forma evoca de novo a atmosfera sonora da cidade a partir da batida eletrônica que se mistura ao jazz.

Outra música instrumental do álbum ‘Low’, em homenagem ao bairro de Neuköln

Trilha sonora

l Marcos em Londres

Bowie nasceu no bairro de Brixton – e o mural pintado ao lado da estação de metrô virou local de peregrinação de fãs. Ziggy Stardust nasceu no 23 da Heddon Street, onde foi clicada a foto do álbum. E foi no Cafe Royal da Regent Street que Bowie festejou o fim de Ziggy, ao lado de Mick Jagger.

l  Blocos carnavalescos

Como por aqui tudo vira carnaval, dois blocos decidiram homenagear Bowie. Em

Olinda, o Bumba meu Bowie se concentra no sábado de carnaval (6) no Mosteiro de São Bento, a partir do meio-dia. São Paulo terá o Tô de Bowie na terça (9) nas ruas de Santa Cecília.

O macacão usado por Bowie em na turnê de Aladdin Sane em 1973 faz parte da mostra David Bowie Is, com mais 300 objetos de sua carreira

O macacão usado por Bowie em na turnê de Aladdin Sane em 1973 faz parte da mostra David Bowie Is, com mais 300 objetos de sua carreira Foto: Divulgação

l  Exposição multimídia

A mostra David Bowie Is – que esteve no Brasil em 2014 – fica no Groninger Museum, em Groningen ( a 2 horas de trem de Amsterdã), até 13 de março. São 300 objetos da carreira de Bowie, como figurinos, instalações, documentos e fotos. Ingressos a 23; davidbowie-groningen.nl

l Tributo em Nova York

Um show-tributo com Cindy Lauper, The Roots, Perry Farrell (e boatos de participação de Mick Jagger), marcado para 31 de março no Carnegie Hall, já está com ingressos esgotados. Um show extra será realizado em 1º de abril, com ingressos desde US$ 325 - o início das vendas está previsto para esta sexta-feira (15). Mais: musicof.org.


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.