Caça ao chocolate nas ruas de Paris

Para compensar as calorias a mais, siga a rota numa bicicleta Vélib, o muito eficaz sistema da capital francesa

Amy Thomas, The New York Times

06 Janeiro 2009 | 03h00

Os franceses deram a muitos itens o status de pura arte: moda, paquera, foie gras. O chocolate não é uma exceção. Com lojas a exibir trufas como se fossem diamantes, a experiência de entrar em uma chocolateria parisiense pode ser sublime. O problema, claro, é encaixar essas deliciosas visitas quando se está em uma cidade repleta de atrações como Paris. Meu conselho: dedique um dia inteiro para o roteiro das docerias - e faça isso com estilo. Na minha última estada por lá, aluguei uma bike nos totens do Vélib, o muito eficaz sistema de bicicletas da capital francesa, e cumpri o circuito que incluía oito das melhores chocolaterias da cidade. Assim, enquanto ia de pralines para pavês, circulei nos arredores da Torre Eiffel, cruzei o Rio Sena e zanzei pelas ruas de Saint-Germain-des-Près na companhia de outros ciclistas. Em termos práticos, as bikes foram essenciais. De que outra forma eu poderia rodar por cinco arrondissements (distritos) em poucas horas, enquanto simultaneamente gastava as calorias de um dia de excessos? A maratona gastronômica começou no centro da cidade, com a mais antiga casa da minha lista, a Michel Cluizel, que faz os doces desde 1948. Desci da bicicleta bem perto de uma estação de Vélib, na esquina das Ruas de l'Echelle e Sait-Honoré, e entrei na loja onde se destaca uma fonte de chocolate. Na prateleira, barras contendo até 99% de cacau. Na butique, hoje gerenciada pela filha de Michel, Catherine, descobri o macarolat (1,55 euros ou R$ 5,02). Essa versão de chocolate do tradicional macaron é uma concha amarga recheada com amêndoas e avelãs. Uma rápida pedalada para oeste me levou até a porta da Jean-Paul Hevin. O ambiente da loja, com armários de madeira escura contendo preciosas caixas de bombom, até seria intimidador, não fosse a amabilidade dos vendedores. Escolhi o caramel buche (3,20 euros ou R$ 10,36). Maior que um bombom individual e menor que uma barra de Hershey, era uma mistura perfeita de caramelo e chocolate amargo. Na Avenida Victor Hugo, no 16 º Arrondissement, encontrei o mais excêntrico pâtissier da minha lista: Patrick Roger. Não apenas pelas esculturas que faz com o cacau (como uma fazenda em tamanho real, por exemplo) e pela vitrine da loja (pode ser uma família de pinguins de chocolate), mas por seu sabor elaborado. O Jamaica, por exemplo, tem um rico gosto de café arábica; o Jacarepagua é uma mistura de limão e menta. Há, ainda, o Phantasme, feito com farinha de trigo. Cada um custa menos de 1 euro (R$ 3,24). Depois de 90 minutos por lá, eu estava em total delírio - por causa de Paris e do açúcar. Passei o Sena, deixei para trás a Torre Eiffel e cheguei ao 7º Arrondissement. Michel Chaudun é reconhecido como artista e escultor de chocolate (suas aquarelas decoram a loja, ao lado de ovos de chocolate Fabergé e estátuas africanas). Após 22 anos transformando cacau em sublimes bombons, ele influenciou muitos integrantes da nova geração de chocolatiers da cidade. Seus pavês são particularmente adorados e derretem na boca. A degustação foi seguida de novas pedaladas, passando novamente pelo Sena, perto da Ponte Alexandre III, com seus dourados. Finalmente, cheguei ao 6º Arrondissement e à loja de Jean-Charles Rochoux, onde esculturas de gnomos feitas com chocolate quase abalam a reputação artística de suas famosas trufas. Christian Constant, por sua vez, mescla ao cacau doses de especiarias (como açafrão) e flores (que tal ylang-ylang?). Também não saia da cidade sem provar as obras de Pierre Marcolini, o único belga do grupo, com chocolate de sete regiões da América do Sul e da África. Quando entrei na loja do pâtissier Pierre Hermé, sabia que estava fazendo a coisa certa: foi (perdoe-me pela expressão) como voltar a ser criança em uma loja de doces. Tortas adornadas com frutas vermelhas, grãos de café e raspas de chocolate me esperavam. "Um Plenitude, por favor." Peguei meu tesouro e rumei para um parque nos arredores. Lá provei o bolo recheado com musse de chocolate e ganache, caramelo crocante e flor de sal. O amargo do chocolate, o leve toque salgado. Morri e estava no céu? Não. Apenas havia passado um dia único na cidade das luzes e do chocolate.

Mais conteúdo sobre:
chocolate Paris

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.