Caçadores de arqueologia

Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2017 | 01h01

Entre todas as profissões sonhadas na infância, a de arqueólogo ocupou um lugar importante no meu coração. Não que eu soubesse quais eram suas particularidades – na verdade, não sabia absolutamente nada –, mas havia nela um certo sex-appeal que me atraía. Talvez fosse culpa do cinema. “Não pense que é como ser Indiana Jones”, dizia minha mãe. 

Ocorre que as imagens que guardei de mim mesma, vestida com aquelas roupinhas amarronzadas voltaram à tona quando me deparei com a notícia de que pesquisadores encontraram, no sítio arqueológico Jebel Irhoud, no Marrocos, crânios, face e maxilares identificados como sendo da nossa espécie, com idade aproximada de 315 mil anos (!). 

O resultado das escavações lideradas pelo paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, foi divulgado no início de junho pela revista Nature e sugere duas possíveis reviravoltas nas ideias correntes dos pesquisadores. A primeira é o acréscimo de 100 mil anos na conta do surgimento dos Homo sapiens. A segunda é a conclusão de que nossos longínquos parentes bípedes teriam aparecido não apenas na África Subsaariana, mas em todo o continente africano.

A esta curiosa pelo mundo e seus variados tempos, o arregalar de olhos foi inevitável. Mas, imaginar 300 mil anos – passados e futuros – é difícil até mesmo a historiadores, acostumados a lidar com aquela controversa linha do tempo que cabe numa lousa. Admitamos: é muito mais interessante pensar a arqueologia como algo mais dinâmico do que uma distante ciência que entra nas nossas vidas “apenas” como responsável por um ponto de giz inerte nessa linha. Talvez seja por isso que Henry Jones Jr., o Indiana Jones com chapéu e chicote em mãos, tenha tido mais sucesso nessa empreitada de cativar pessoas.

Nem tanto às fantasias cinematográficas, nem tanto ao mau trato que recebe a arqueologia no nosso processo de aprendizado dentro e fora das salas de aula, os sítios arqueológicos espalhados pelo mundo, muitos dos quais abertos à visitação, permitem-nos conhecer muito mais (e melhor) o cotidiano, o imaginário, o conjunto cultural e social de civilizações passadas. 

E nem precisa ir muito longe para encontrá-los (em metros e anos). No Rio de Janeiro, por exemplo, o Sítio Arqueológico Cais do Valongo acaba de se tornar Patrimônio da Humanidade da Unesco. Redescoberto durante a operação Porto Maravilha, suas ruínas testemunham não só o local de desembarque e comércio de escravos africanos no Brasil no século 18, mas também as raízes culturais de toda uma civilização. No bairro da Saúde, o Cais do Valongo pode ser visitado a qualquer momento – é uma caminhada de apenas 7 minutos a partir da Praça Mauá – ou com o tour guiado Raízes Africanas

Fora do Brasil, os últimos sítios arqueológicos onde estive foram os de Tenochtitlán e o de Teotihuacán, ambos no México e de fácil acesso – o primeiro fica bem no centro da Cidade do México. Contextualizadas pelo trabalho de arqueólogos, antropólogos e historiadores, suas ruínas são capazes de trazer ao presente detalhes da cultura, da arquitetura, das organizações econômicas e políticas das civilizações pré-colombianas. Estes sítios são tão importantes ao país que ir à capital sem parar para observá-los (de boca aberta) é como não ir. A experiência fica ainda mais completa quando se inclui no passeio o enorme Museu Nacional de Antropologia, repleto de artefatos arqueológicos.

Machu Picchu (Peru), Acrópole de Atenas (Grécia), Petra (Jordânia)... Não nos faltam sítios arqueológicos para colocar na lista de próximos roteiros de viagem ao lado do Cais do Valongo e dos mexicanos Tenochtilán e Teotihuacán. Todos exemplos de como o turismo responsável pode ajudar a preservar a nossa história material tanto quanto aproximar as pessoas da arqueologia. Melhor que Hollywood. 

Mais Viajar é uma História: O corte no financiamento do Carnaval do Rio de Janeiro

Mr. Miles: Reviajar é preciso

Mais conteúdo sobre:
Viagem

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.