Viagem

Tour guiado leva ao Cais do Valongo, que virou Patrimônio da Unesco

Sítio arqueológico no Rio recebeu título no domingo. Passeio histórico revela a história da área da cidade conhecida como Pequena África

11/07/2017 | 04h20    

Mônica Nobrega - RIO DE JANEIRO / O ESTADO DE S.PAULO

Antigo Cais do Valongo, na região portuária do Rio. Sítio arqueológico foi titulado Patrimônio da Unesco. 

Antigo Cais do Valongo, na região portuária do Rio. Sítio arqueológico foi titulado Patrimônio da Unesco.  Foto: Fabio Motta/Estadão

Fazia mais de hora e meia que caminhávamos pela zona portuária da cidade do Rio de Janeiro quando, depois de atravessar a Avenida Barão de Tefé em meio ao barulho e à poeira dos ônibus, chegamos a um enorme buraco no chão, isolado por cordas. A aproximação mostrou que ali havia ruínas de pedra. Estávamos no Cais do Valongo, principal porto de desembarque de africanos traficados como escravos para o Brasil ao longo de mais de três séculos, e uma das paradas mais emblemáticas do tour Raízes Africanas.

O Sítio Arqueológico Cais do Valongo entrou no domingo (9 de julho) para a lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco. O conjunto de ruínas foi redescoberto em 2011, durante escavações feitas no contexto das obras da área chamada de Porto Maravilha. Hoje, o que restou do antigo cais integra o roteiro de visitação da área conhecida como Pequena África, que abrange também o Morro da Conceição, Saúde e Gamboa. 

Há algumas semanas, antes da concessão do título pela Unesco, tive a sorte de estar no Rio exatamente em um fim de semana em que havia um tour a pé guiado organizado pelo projeto Revelando o Brasil. O grupo organiza mais de uma dúzia de roteiros a pé, sempre com viés histórico e cultural, sempre sem preço fixo: o valor de R$ 20 é sugerido, mas você paga quando acha que deve no final. 

Não é preciso nem fazer inscrição, basta aparecer no ponto de encontro divulgado, em geral, no site e no Facebook. Na ensolarada manhã de sábado, éramos cerca de 30 turistas em frente ao Museu de Arte do Rio, o MAR, que já é uma atração. O museu empresta banheiro e bebedouro para encher garrafinhas – outros itens para o passeio são protetor solar, boné e calçado confortável.

A bem informada guia Karen Eline puxou a caminhada. Havia outro grupo, em inglês, que nos acompanhava de perto. Na Igreja e no Largo de São Francisco da Prainha, aonde o mar chegava antes dos aterramentos que foram feitos posteriormente em direção à Baía de Guanabara, o passeio começou de fato. A caminho da Pedra do Sal passamos por casas geminadas de dois andares que atualmente estão em ruínas e que, contou a guia, abrigavam pessoas negras que fugiam da situação de escravidão. “Um verdadeiro quilombo urbano”, disse Karen Eline. 

A guia contou a história da Pedra do Sal, que ganhou o nome porque era ponto de passagem dos escravos que descarregavam o produto em questão. A tradicional roda de samba que ocorre às segundas-feiras na pedra teve sua edição cancelada na semana passada. Segundo os organizadores, ações da prefeitura visaram impedir a realização do evento por meio de uma blitze da Guarda Municipal – o prefeito Marcelo Crivella negou a pretensão de acabar com a roda de samba. 

Outra das descobertas do tour veio depois da passagem pelo Cais do Valongo e pelo Jardim Suspenso do Valongo. Já no bairro da Gamboa, na rua Pedro Ernesto, chegamos a um conjunto de três casinhas do século 18. A ligação do lugar com a história da escravidão no Brasil também foi descoberta por acaso. 

No atual Memorial dos Pretos Novos foram encontrados milhares de fragmentos de ossos humanos, que eram de africanos traficados que não sobreviveram às péssimas condições do transporte em navios. 

No atual Memorial dos Pretos Novos foram encontrados milhares de fragmentos de ossos humanos, que eram de africanos traficados que não sobreviveram às péssimas condições do transporte em navios.  Foto: Fabio Motta/Estadão

Ao comprarem as três casas e começarem reformas, Merced e Petruccio Guimarães descobriram enterrados sob as construções milhares de fragmentos de ossos humanos. Os estudos mostraram que o local era usado para enterrar africanos que não resistiam às duríssimas condições em que eram transportados nos navios de tráfico e morriam antes mesmo de serem vendidos. Conhecido como Cemitério dos Pretos Novos e hoje transformado em sítio arqueológico, está entre os pontos mais tristes – e necessários para que não seja esquecido o horror – da história da escravidão de africanos no Brasil. 

As próximas edições do tour Raízes Africanas estão marcadas para o próximo sábado, 15 de julho, e 19 de agosto.