California dreamin

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2017 | 03h00

Nosso correspondente inglês, que, como a maioria de seus compatriotas, não é exatamente um francófilo (a tradição de refregas entre os dois povos deixou feridas permanentes), deu seu braço a torcer e entusiasmou-se com a escolha globalista do povo francês. “Uma lição gaulesa contra o nacionalismo e a xenofobia que, shame on us!, não soubemos repetir aqui em nossas ilhas. O mundo, my God, está ficando de cabeça para baixo.”

A seguir, ele comenta a correspondência da semana:

Olá Mr. Miles, tenho 22 anos e sou da capital de São Paulo. Gostaria de lhe pedir um conselho sobre a seguinte situação: estou de férias marcadas em Los Angeles, mas viajarei sozinha, pois nenhum dos meus amigos pode me acompanhar. Passarei 20 dias entre L.A., San Diego e São Francisco. Tenho algumas atrações já agendadas, mas tenho medo de que, por estar só, acabe não me divertindo tanto quanto como se estivesse com alguma companhia. E até mesmo não consiga organizar meus passeios. O senhor teria alguma sugestão para mim? - Danielle Yessenhart, por e-mail

Well, my dear: eu teria uma ótima solução para todos os seus problemas. Mas, unfortunately, acabei de consultar minha agenda e de descobrir que, devido a compromissos anteriormente assumidos, não vou poder, pessoalmente, acompanhá-la em sua american journey. Seria delightful.

Anyway, darling, não vejo motivo para preocupações. Se você tivesse programado suas férias para a Somália, que é um dos países mais pobres e perigosos do continente africano, eu certamente recomendaria que você contratasse uma dupla de vigorosos guarda-costas. Mas, embora a Califórnia tenha sido governada por Conan, o Bárbaro (também reconhecido como o Exterminador do Futuro), trata-se de um Estado de pessoas civilizadas. A não ser, é claro, que você acenda um cigarro, situação que as transforma em uma horda de hunos.

Viajar sozinho, as I do, oferece algumas vantagens preciosas. A primeira delas é o total domínio que você terá sobre sua agenda, podendo manipulá-la do jeito que preferir, sem aquelas crises de relacionamento que se observam quando o seu (ou sua) colega de jornada manifesta interesses divergentes. Não são poucos – I can testify – os amigos do peito que, no decorrer de uma viagem, transformaram-se em inimigos mortais em virtude do acúmulo de pequenas desavenças no dia a dia de suas férias.

A outra regalia oriunda de uma viagem solitária é a extraordinária possibilidade que você terá de fazer novos amigos. Verifico, em suas linhas, que essa é a questão que a preocupa. Pois fique tranquila, darling. A não ser que você sofra de algum tipo patológico de timidez, como meu falecido amigo Jerome (N. da R.: J.D. Salinger, escritor americano, autor de O Apanhador no Campo de Centeio, célebre por sua permanente reclusão), suas chances de conhecer gente com quem compartilhar as emoções da jornada são remarkable

Para isso, of course, você terá de fazer tours – haverá outros estrangeiros na mesma situação que a sua –, frequentar baladas e bares adequados à sua idade e, eventualmente, dormir em albergues. 

Haverá chatos pelo caminho. That’s unavoidable. Mas não se preocupe: os da Califórnia são iguais aos de São Paulo ou de Londres. 

Em Los Angeles, desde que você não se perca naquelas intermináveis alças de viaduto em que um único erro pode levá-la diretamente à Tijuana, no México, eu diria que você tem boas chances de encontrar alguém à espera de uma vaga como figurante em um filme B de uma produtora independente – que, claro, um dia talvez venha a se tornar Tom Hanks.

Em San Diego, conforme o swell, os surfistas serão a sua melhor chance. Já em São Francisco, well, você pode até achar algum chinês divertido, mas, estatisticamente, suas maiores oportunidades serão os hippies velhos do Haight-Ashbury ou os gays do Castro. 

Vai ser igualmente divertido, don’t you agree?” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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