Daniel Nunes Gonçalves|Estadão
Daniel Nunes Gonçalves|Estadão

Mergulho e trekking em Santa Lúcia, no Caribe

Até as águas do mar são aquecidas – nada menos que 27 graus – no deslumbrante mergulho aos pés das montanhas gêmeas. Outro banho possível é o de lama supostamente embelezadora

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Março 2016 | 05h00

SOUFRIÈRE - Você mal percebe e já está dirigindo em uma estrada na cratera de um vulcão, cercado por poças de lama fervilhante e cascatas de água aquecida. Em terra ou no mar, a natureza de Santa Lúcia surpreende.

Dá um frio na barriga especial descer a 18 metros de profundidade, com cilindro de oxigênio nas costas, nesse que é um dos mais virgens pontos de mergulho de todos os 28 países do Caribe. Afinal, basta saltar do barco e afundar sob a linha d’água no ponto apelidado de Superman’s Flight para sentir uma correnteza permanente arrastando todo o grupo. Nada de pânico. Como já tínhamos sido orientados, é preciso respirar calmamente e deixar-se levar pelo fluxo, imitando o mergulhador guia. Ele estica o corpo, joga os braços para cima e sai “voando” como o Super Homem. Pronto: a trupe de heróis submarinos já está pronta para flutuar por 40 minutos, ladeando o paredão submerso. Na mira estão peixes coloridos, corais-de-fogo amarelos e formações incríveis que vão de “cérebros” marinhos a belas folhagens, de potes a tubos habitados por moreias, lagostas e cavalos-marinhos.

Anse Chastenet, a Shangri-lá dos mergulhadores em Santa Lúcia, fica perto de Soufrière e aos pés do maior cartão-postal da ilha: as montanhas gêmeas Pitons (que aliás batizam a boa cerveja de produção local). Gros Piton e Petit Piton são respectivamente o grande pico, com 770 metros, e o pequeno, com 743, imponentes maciços de uma ativa formação vulcânica submarina. De tão belos, eles são o foco de quem passeia de barco para fotografá-los ao pôr do sol e dos hóspedes que pagam caro para vê-los das sacadas nas melhores pousadas. É aos pés dos Pitons que acontecem tanto o mergulho do Voo do Superman quanto as explorações de snorkeling perto da areia da praia e com água a 27 graus. Em Anse Chastenet, o apaixonado pelo fundo do mar pode vestir o colete com cilindro ali mesmo na orla e entrar caminhando no mar, sem necessidade de pegar um barco. Bastam alguns metros para um profundo abismo de 20 metros abrir-se sob suas nadadeiras. 

Quentura. Declarados Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2004, os Pitons preservam tanto a exuberância submarina de 168 espécies de peixes, além de corais, tartarugas-marinhas e tubarões-baleia, quanto as mais de 148 espécies de plantas da floresta tropical que as cobre. Subir ao topo do Gros Piton virou um programa sedutor para quem gosta de trekking. O maior dos picos é o mais acessível para caminhadas. Íngreme, seu caminho requer um total de 5 a 6 horas para subir e descer. A pirambeira extenuante sob o sol conduz a uma vista que só os aventureiros de pernas fortes se atrevem a desfrutar. 

Ainda mais quentes são as experiências em território vulcânico nos arredores mais planos de Soufrière. Quando você menos percebe, a estrada que conduz a Sulphur Springs já está cruzando a cratera colapsada do vulcão. A gente nota pela cheiro. O aroma de enxofre domina o deck que beira grandes poças de lama cor-de-chumbo borbulhante, com gêiseres que jorram a 10 metros de altura nas noites de lua cheia. 

Ali perto, nas piscinas naturais de águas quentes e lama supostamente boa para a pele, ninguém resiste ao programa de índio caraíba: lambuzar-se com barro, às vezes branco, outras grafite. Com tempo e um bom guia, vale a pena entrar na trilha para experimentar o raro prazer do banho de cachoeira de água morna. As de água fria, como a Toraille, de 18 metros, são igualmente lindas e tentadoras.

Dormir cara a cara com a natureza

Esqueça televisão, ar-condicionado e playlists musicais. Quem se hospeda em um dos quartos sem a quarta parede, tendência na hotelaria de Santa Lúcia, não precisa desses artifícios. Como uma tela viva, a paisagem do Mar do Caribe adornada pelo contorno dos Montes Pitons encanta o olhar a partir de qualquer ponto do apartamento – seja da cama, da banheira de hidromassagem ou da piscina particular com borda infinita. 

A brisa e o aroma de maresia permanentes dispensam qualquer ventilador ou refrigeração de ar. Dá até para tomar banho de sol sem roupa, já que só os pássaros observam de camarote. O período entre a noite e o amanhecer é o melhor para entender que ninguém aqui precisa de jazz ou reggae. Cigarras e grilos entoam para embalar os sonhos e dão lugar à algazarra da passarada ao nascer do sol.

“Construímos um hotel onde a folhagem da mata, a fragrância das flores e o canto das aves são parte da hospedagem”, orgulha-se Karolin Troubetzkoy, proprietária do premiado Jade Mountain. O ousado projeto arquitetônico é de autoria de seu marido, Nick Troubetzkoy. Das aulas matinais de ioga no imenso terraço ao restaurante com jazz ao vivo, do spa à oficina de confecção de barras de chocolate, a interação com a natureza é absoluta. 

Quase no nível da praia, junto da mesma montanha que abriga o Jade Mountain, fica o Hotel Anse Chastenet, que também derrubou a quarta parede nos quartos mais altos e virou um must para casamentos e luas de mel. A alguns quilômetros, mais perto das Pitons, impõe-se o Ladera, antiga fazenda de cacau que em 1982 se transformou em hotel de luxo para provocar o mesmo prazer: fazer os hóspedes de suas 32 suítes viverem a profunda experiência de dormir, de forma destemida e confortável, imersos na natureza de Santa Lúcia.

RUÍNAS DE 200 ANOS E TIROLESA ENTRE ÁRVORES GIGANTES

Na porção norte da ilha, outros dois passeios encantam os apaixonados por natureza. O primeiro é a suave caminhada às ruínas de um forte de 200 anos no topo do morro na Pigeon Island, parque verde à beira-mar que se tornou palco do famoso festival de jazz de todo mês de abril. “Outras aventuras bem legais de Santa Lúcia são as descidas em tirolesas”, recomenda Tauana Medeiros, bióloga que passava com o marido Bruno sua lua de mel na ilha – foram os únicos brasileiros que conheci em Santa Lúcia. 

De fato, a sequência de nada menos que oito trechos de cabo de aço em meio às árvores gigantes da Rain Forest Adventure é um grande barato. Dá para descer velozmente deslizando pendurado a 12 metros de altura – e por extensões de até 60 metros que parecem não ter fim.

SAIBA MAIS

1. Como ir: a Gol (desde R$ 1.583) voa direto à vizinha Barbados. De lá, voe Liat Air (desde R$ 945) até Santa Lúcia. É possível ir via Miami pela American (R$ 4.266).

2. Visto: não é exigidos dos turistas brasileiros.

3. Moeda: 1 dólar do Caribe Oriental (XCD) vale R$ 1,50.

4. Melhor época: a alta temporada vai de novembro a abril, com clima mais seco. De junho a outubro, os preços caem.

5. Site: saintlucianow.com.

6.  Curiosidade: Santa Lúcia está fora da rota dos furacões que assolam o Caribe de junho a outubro, assim como suas vizinhas Barbados, Dominica e São Vicente e Granadinas. Mas as chuvas nesse período são bastante frequentes.

*O repórter viajou a convite do Turismo de Santa Lúcia.

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