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No Caribe, Santa Lúcia preserva discreta exuberância

Reservada e quase avessa à badalação, Santa Lúcia atrai casais e grupos de amigos interessados em seu clima elegante, que abriga tanto heranças da colonização europeia quanto sabores nativos

Daniel Nunes Gonçalves , Especial para O Estado de S. Paulo

08 Março 2016 | 05h00

CASTRIES  - Eu tinha uma imagem clichê do Caribe. Generalizava as 7 mil ilhas da região como vastas planícies de coqueiros à beira-mar, lotadas de gringos com camisas floridas sacolejando os ombros ao som de um mambo ensurdecedor, à beira da piscina em um mega resort. Ao menos era o que havia vivido em três ou quatro experiências anteriores na área. Até que, no fim de 2015, desembarquei na desconhecida Santa Lúcia, uma das Pequenas Antilhas do Sudeste caribenho. 

Medindo apenas 43 quilômetros de norte a sul e 22 de leste a oeste, aquela que no mapa parecia um pontinho perto da Venezuela se mostraria, ao vivo, uma montanhosa preciosidade verde bem preservada. Em vez de merengue no resort, eu ouviria bom jazz em um hotel butique. E no lugar das excursões de americanos com camisões de cores berrantes, encontrei casais discretos e grupos de amigos a fim de curtir a natureza. 

É justamente por estar fora do circuitão turístico que a ilha descoberta em 1502 por Cristóvão Colombo (no dia da santa siciliana, 13 de dezembro) desenvolveu essa personalidade discreta. Tal perfil acabou atraindo celebridades avessas a holofotes, como o ator norte-americano Matt Damon, que ali renovou os votos de seu casamento em 2013. Já a cantora britânica Amy Winehouse chegou a se refugiar por 6 meses em 2009, em uma de suas idas à ilha para se desintoxicar longe do assédio dos paparazzi. 

As paisagens desertas fizeram com que Santa Lúcia virasse ainda cenário de filmes como os da série Piratas do Caribe. De propriedade de um hoteleiro santa-luciense, o navio pirata local Brigg Unicorn foi rebatizado como Black Pearl para servir de cenário às aventuras de Jack Sparrow. Antes de naufragar acidentalmente em 2014, o Black Pearl funcionava como bar e restaurante na marina de Rodney Bay, pedaço mais movimentado da ilha. 

Duas pontas. Localizada na ponta norte, Rodney Bay concentra o movimento urbano de hotéis, bares e restaurantes, e tem até shopping center. Possui uma bucólica praia de areias brancas onde as crianças podem brincar em um parque aquático flutuante, o St. Lucia Water Park, além da única muvuca noturna que presenciei na ilha: a festa de Gros Islet, que toda sexta reúne quem está cansado de calmaria para tomar rum e ouvir DJs de tuts-tuts em plena rua. Quem preferir um ritmo mais manso pode fugir para o Irie, boteco roots de reggae, na vizinha Church Street. 

Rodney Bay está a 10 quilômetros da capital Castries, base do aeroporto regional George F. Charles – aonde pousam voos regionais vindos, por exemplo, de Barbados (para onde a Gol tem voos diretos). Aeronaves maiores, como as que vêm de Miami, pousam no aeroporto internacional de Hewannorra, em Vieux Fort, na ponta sul da ilha. A 30 quilômetros dali está Soufrière, pacato vilarejo de pescadores que serve como base para quem se hospeda nos mais luxuosos hotéis-butique, a maioria deles encarapitada na montanha à beira-mar.

Nos deslocamentos entre uma ponta e outra, vai-se explorando os cinquenta tons de azul das praias – umas com vento bom para praticar kitesurfe, outras mansas para nadar, remar ou fazer nada. Nos vilarejos, a população de 117 mil pessoas exibe as influências dos colonizadores. Depois de enfrentarem a brava resistência inicial dos caraíbas nativos, franceses e ingleses se estabeleceram, ao longo de 150 anos dos séculos 17 a 19, alternando o domínio da ilha nada menos que 14 vezes. Em 1814 os britânicos levaram a melhor, até que a ilha conquistasse a independência em 1978. 

Ainda que a França tenha deixado marcas na gastronomia, na língua crioula, na arquitetura e na religião (a maioria do povo é católica), a Inglaterra está presente na mão inglesa no trânsito, na popularidade dos jogos de críquete e na política: Santa Lúcia é umas das ex-colônias membros da Comunidade Britânica. A própria rainha já deu o ar da graça por duas vezes. Não por acaso, vêm desses países – assim como dos Estados Unidos e do Canadá – um número cada vez maior de visitantes em busca da elegância discreta de Santa Lúcia.

Chocolate, pão francês e peixada à moda local

Vale a pena dizer sim se o motorista lhe perguntar, poucos quilômetros depois de deixar o aeroporto de Vieux Fort, se você quer experimentar o pão local. Em um pedaço qualquer da estrada, sem placa, cadeira ou glamour, um grupo de padeiros da improvisada Roadside Bakery dá as boas-vindas com uns pãezinhos bicudos, recheados com coco, queijo, salame ou até anis, em uma primeira evidência das vantagens da colonização francesa. Aquele será o início de uma série de degustações que estará por vir – ainda que boa parte dos hotéis ofereça, orgulhosamente, menus internacionais. Mas bom é provar o típico.

A vasta produção de bananas faz com que a fruta esteja por toda parte, desde o prato nacional, feito com figo verde e peixe salgado ao estilo bacalhau, até o catchup e no molho barbecue. O único souvenir tão popular quanto os condimentos de banana é o chocolate. Há séculos produzindo cacau de qualidade em suas fazendas, Santa Lúcia se orgulha por ser grande fornecedora de marcas internacionais como a Hershey’s. 

Não por acaso há visitas a propriedades produtoras e curso rápido de culinária voltada ao doce. Existe até um hotel especializado nisso, o Boucan, que serve pratos e usa, no spa, cosméticos à base do cacau produzido ali mesmo.

Perna de pau. Mas estamos em uma ilha, e só não aproveita a fartura de peixe fresco quem não quer. Eles são destaque em menus de restaurantes de bons hotéis abertos a não hóspedes, como o Windjammer-Landing, em Labrelotte Bay, e também em pontos populares de visitação, como a Pigeon Island, na ponta norte. Nesta, por sinal, o restaurante Jambes de Bois homenageia o pirata francês François le Clerc. Dizem que ele e seus 300 homens foram os primeiros europeus a se estabelecer em Santa Lúcia, nos idos dos anos de 1500, e que usavam Pigeon como base para assaltar os galeões espanhóis que passavam pela região carregados de tesouros. Em francês, jambes de bois significa perna de pau. Acredite: Santa Lúcia foi o lar adotado por um pirata que usava, como nas lendas, uma prótese de madeira em um dos membros inferiores.

Hoje em dia, os bravos homens do Mar do Caribe são pescadores. E costumam celebrar a fartura de, por exemplo, atuns e lagostas, promovendo peixadas coletivas em algumas vilas aos fins de semana. Na sexta, em Anse La Raye, e no sábado, em Dennery, eles armam longas grelhas à beira-mar onde vendem pescado fresco assado na brasa. Trata-se de um encontro das comunidades, mas viajantes são bem-vindos. Não há placas nem lugar para sentar. É só mais um jeito de comer como os locais em Santa Lúcia. 

A BORDO OU COM MÚSICA

1. Rota dos cruzeiros. De dezembro a abril alguns cruzeiros incluem Santa Lúcia em suas rotas, como os da MSC e os da Carnival, com pacotes de sete dias e partida desde a Flórida.

2. Do século 16. Depois que o Black Pearl original usado em Piratas do Caribe naufragou, o barco pirata Black Magic virou a alternativa para passear na réplica de um galeão do século 16. Ruma ao pôr do sol saindo de Rodney Bay.

3. Nada de salsa. O maior evento da ilha, o Festival de Jazz e Artes completa 25 anos. De 29 de abril a 8 de maio, artistas como George Benson, Kool & the Gang e Air Supply dão o ar da graça.

SAIBA MAIS

1. Como ir: a Gol (desde R$ 1.583) voa direto à vizinha Barbados. De lá, voe Liat Air (desde R$ 945) até Santa Lúcia. É possível ir via Miami pela American (R$ 4.266).

2. Visto: não é exigidos dos turistas brasileiros.

3. Moeda: 1 dólar do Caribe Oriental (XCD) vale R$ 1,50.

4. Melhor época: a alta temporada vai de novembro a abril, com clima mais seco. De junho a outubro, os preços caem.

5. Site: saintlucianow.com.

6.  Curiosidade: Santa Lúcia está fora da rota dos furacões que assolam o Caribe de junho a outubro, assim como suas vizinhas Barbados, Dominica e São Vicente e Granadinas. Mas as chuvas nesse período são bastante frequentes.

*O repórter viajou a convite do Turismo de Santa Lúcia.

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