Cem anos de um certo atraso

Nosso estimado viajante, sem dar pista alguma de seu atual paradeiro, responde a mais uma pergunta de seus leitores:

O Estado de S.Paulo

10 Abril 2012 | 03h08

Querido mr. Miles: é nesta semana que relembramos o centenário do naufrágio do Titanic, ocorrido em 14 de abril. Já li algumas vezes que o senhor estava convidado para a viagem inaugural do malfadado transatlântico e acabou dando a sorte de perder o horário do embarque. Adoraria se o senhor nos contasse com detalhes o que de fato ocorreu. Obrigada. Maria Célia Lourdes Jardim, por e-mail

"Well, my dear, antes de mais nada é preciso que eu faça uma correção. Não tive sorte em perder o horário do embarque. Tive, sim - e ainda tenho -, uma enorme vergonha de ter faltado a um compromisso previamente agendado. Foi, se não me falha a memória, o único acontecimento em que atrasei em toda a minha extensa vida de viajante. Shame on me!

O fato é que fui convidado para aquela viagem inaugural por meu velho amigo Austin Sturridge, um dos diretores da White Star Line, empresa proprietária do RMS Titanic. Lembro-me que fiquei muito animado com a travessia rumo a Nova York e até preparei um guarda-roupa renovado em Saville Row.

Ocorre, darling, que, naquele tempo, as estradas de rodagem britânicas deixavam muito a desejar. Poucas delas eram pavimentadas e a manutenção, I'm afraid to say, era mais que precária. Tratava-se, as always, de um dia muito chuvoso em nosso reino e, por precaução, saí cedo de casa rumo a Southampton, a bordo de meu Vauxhall B-Type. Eis que durante a travessia de uma charneca em Sussex, os pneus do carro começaram a girar em falso por causa da lama. Esforcei-me para escapar do atoleiro mas, em poucos minutos, o veículo estava irremediavelmente atascado. Somente três horas mais tarde consegui ser rebocado por um caminhão do exército. Quando cheguei ao porto, só pude ver o majestoso transatlântico desaparecendo na linha do horizonte.

As pessoas julgam que exagero quando afirmo que eu teria preferido participar da trágica travessia do que atrasar-me para o embarque. Mas é fato. Há um ditado britânico que ilustra a minha maneira de pensar: 'A pontualidade é a cortesia dos reis e a obrigação dos educados'. Sigo pensando e agindo dessa forma no século 21 quando, unfortunately, esses princípios parecem antiquados. Hoje, de modo nada civilizado, as pessoas julgam dispor do tempo alheio e pouco se incomodam em atrapalhar a vida de quem quer que seja. A decadência da pontualidade é, ao meu ver, o fim do comprometimento. Em breve não saberemos mais o que são as horas, os dias, os meses e os anos. Voltaremos ao desentendimento bíblico da Torre de Babel.

Meu saudoso amigo Millôr Fernandes, RIP, escreveu a respeito: 'Pontual é alguém que resolveu esperar muito', sentenciou, com sua sempre fina ironia. O que significa, on the other hand, que os não pontuais são aqueles que resolveram fazer os outros esperarem muito. Caso, por exemplo, de Cameron (N.da R.: Cameron Diaz, atriz), que já atrasou em três encontros que marcamos (I'm sorry, mas não haverá um quarto, dear). Sua explicação? 'Não fique triste, Miles: eu nasci com três semanas de atraso e ainda não consegui recuperar esse tempo.' Amazing, isn't it?

Pois aí está minha história, darling. Alguns leitores certamente dirão que essa minha aversão às tardanças é típico pedantismo originário da célebre pontualidade britânica. Pois saibam todos que os britânicos mal-educados também atrasam muito em seus compromissos. E que a expressão pontualidade britânica não resulta do comportamento de meus conterrâneos, mas do fato de que, oficialmente, o relógio que marca a hora exata do planeta fica aqui, em Greenwich, bem na linha do meridiano zero."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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