Cenário cultural descolado ao sul de Amsterdã

Distante meia hora de trem da capital, Utrecht mistura ritmos e públicos em vida noturna criativa

Joel Weickgenant, NEW YORK TIMES, UTRECHT, O Estado de S.Paulo

09 Março 2010 | 02h55

De repente, Noam Cohen, vocalista da banda de hardcore Essa Rotina é um Inferno, parou seu show no clube ACU (acu.nl), em Utrecht, e gritou para a plateia: "Há muito espaço aqui", apontando a distância entre os músicos e a multidão, quase toda vestida de preto. E tomou uma atitude. Com o som agressivo da banda ao fundo, pulou na plateia berrando slogans e puxando ouvintes para mais perto do palco.

A fórmula cara a cara funciona muito bem no ACU. O bar tem staff formado por voluntários e é considerado um dos melhores de música underground de Utrecht, que fica a meia hora de trem ao sul de Amsterdã. Em uma noite trivial, músicos e plateia se misturam ali, refletindo o espírito singular da cidade. "Muitos que estiveram aqui nesta noite nós conhecemos pelo nome", diz Cohen.

Utrecht costuma ser sugerida como passeio de um dia aos turistas hospedados na capital holandesa. Mas merece mais. Neste reduto de artistas, pipocam eventos culturais de múltiplos perfis - de cenas modernas às tradicionais, que remetem ao passado medieval da cidade.

Ideias inovadoras estão tomando forma em edifícios antigos. Numa tarde de sábado do último outono, luzes holandesas refletiam um exuberante jogo de sombras nas construções góticas do Domtoren, a torre cercada pela Domplein, a praça principal do centro. O local é ponto de partida do núcleo antigo de Utrecht. Uma série de longas avenidas e cemitérios levam até a região do Oudegracht, o velho canal e, hoje, epicentro da vida social.

A região mantém seu charme peculiar. A varanda do Kafe Belgie é ideal para assistir ao desfile de motos saboreando uma cerveja Orval. Logo abaixo está o Tabou Haar en Jazz (www.tabouhaarenjazz.nl), combinação de salão de beleza e loja de discos, com extensa coleção de álbuns de cantores de jazz nacionais.

A área se mostra hostil apenas para quem busca moradia. Sem encontrar um quarto por lá, e guiada pelo espírito da cidade, Monique Sep foi criativa. "Só achei um ateliê, onde vivi secretamente por 15 anos." Hoje, ela coordena um projeto para ajudar artistas que buscam onde viver - e seus esforços têm impulsionado o cenário cultural da cidade. Há quatro anos, graças ao projeto, Rikkert Paauw e Boudewijn Rijff alugaram um armazém afastado do centro, onde funciona o Vechtclub (vechtclub.nl), famoso por abrigar eventos de diferentes gêneros musicais.

A cada mês, o "t Oude Pothuys (pothuys.nl) - decorado com violões pendurados no teto - se transforma em karaokê estudantil. A proposta do idealizador Eric Kerns é retomar as noites dos antigos luister cafés, onde o público interagia verdadeiramente com a banda. Após a borda norte do Oudegracht fica o Ekko (ekko.nl), um clube capaz de mesclar a banda underground Texas Balmorhea ao som eletrizante do DJ residente na mesma noite.

No bairro Vogelenbuurt está o Café Averechts (averechts.nl), onde você poderá ver o dinamarquês MC Hansen ensaiando um som estilo old school americano: mistura de folk com guitarra acústica. Como o ACU, o Avarechts também conta com voluntários, que lutam pela permanência do lugar. Com volume baixo, salão coberto e fumódromo, tentam não incomodar os vizinhos. Tudo para manter a música tocando.

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