Cenário de ficção, Capadócia oculta vida subterrânea

Paisagem lúdica já serviu de inspiração a filmes como 'Guerra nas Estrelas' e de refúgio a cristãos no século 7

Marianna Aragão, O Estado de S.Paulo

10 Março 2009 | 01h48

Os imensos vales pontuados por torres de pedra marrom são a primeira imagem de quem chega à Capadócia. Mas o cenário lunar não resume as surpresas da região formada por meia dúzia de cidadelas e vilas, situada a cerca de 700 quilômetros de Istambul.

 

Acima das esculturas naturais há o céu de azul forte, riscado vez ou outra por coloridos balões. Embaixo da terra, é possível visitar e sentir o ar abafado das cavernas subterrâneas onde viviam cristãos em fuga, ao longo do século 7. Sem falar ainda nas dezenas de igrejas cavadas nas montanhas, gigantes formigueiros que já serviram de cenário para filmes como Guerra nas Estrelas.

Uma das paisagens mais lúdicas do mundo, a Capadócia começou a tomar forma há mais de 3 milhões de anos com a erupção de dois vulcões. A rocha macia que cobriu a planície da região passou a ser esculpida pela ação do vento e da chuva, dando origem às divertidas formações apelidadas de "chaminés de fada", pela semelhança com cogumelos. As cavernas surgiram com os primeiros habitantes, que abriram túneis e talharam casas, escolas e igrejas nas rochas e debaixo da terra.

Até a década de 50, muitas famílias ainda viviam ali. Hoje elas são a opção de hospedagem preferida dos turistas. Na cidade de Göreme, a maioria das pensões e pousadas fica nessas exóticas cavernas. Devidamente equipadas, é claro, com aquecedor e chuveiro elétrico (a temperatura média na região é de cerca de 13 graus durante o dia e, à noite, despenca).

 

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A localidade é um bom ponto de partida para explorar a região: a maioria das cidades fica a um raio de 15 quilômetros do local. De lá, é possível visitar a pé o Museu a Céu Aberto, uma das principais atrações da Capadócia, e suas capelas decoradas com afrescos bizantinos. A de Santa Catarina leva na parede a pintura de São Jorge - venerado no Brasil, mas pouco conhecido em sua terra natal. Observe que muitos dos afrescos têm os rostos rabiscados, resquício do período iconoclasta.

Em um centrinho, distante poucas quadras da maioria das pousadas, está a rua principal de Göreme. Lotada de agências de turismo, é o local para alugar um carro e comprar um pacote com o famoso voo de balão. O passeio ocorre nas primeiras horas da manhã, quando as vans recolhem os viajantes nas pensões e nos hotéis. Depois do café, os 20 passageiros se espremem na cesta de vime por uma hora e meia, com a devida recompensa: o melhor ângulo dos surreais vales capadócios.

Subsolo

A visita à cidade subterrânea de Derinkuyu faz parte do roteiro básico da região. A comunidade não é a única, mas uma das maiores construídas pelos cristãos, há mais de mil anos. Ali chegaram a viver 1.500 pessoas. Em pequenos grupos, pode-se percorrer alguns das centenas de túneis que ligam grandes salões (as casas) a espaços compartilhados, como a cozinha (que tem até sistema de ventilação) e a igreja (dois largos corredores transversais em forma de cruz).

Um pouco de disposição e de preparo físico são requeridos no passeio. Afinal, você terá de encarar sete andares para baixo e muita, muita escada pela frente. Em alguns pontos, a distância entre o chão e teto obriga o visitante a andar curvado. Mas, para saber como era a vida no mundo subterrâneo, o esforço vale a pena. E muito.

À moda antiga

Em Avanos, a 12 quilômetros de Göreme, uma das atrações é conhecer as famosas técnicas locais de artesanato em cerâmica, tradicionais desde os tempos dos hititas, em 2000 a.C. O clã Galipe, que há cinco gerações se dedica ao ofício, recebe os turistas em sua fábrica e mostra todas as fases da produção das peças - quem quiser pode até se arriscar a fazer um vaso. A demonstração é gratuita, mas obviamente termina na irresistível lojinha da olaria.

O guia que acompanha o grupo conta que a produção artesanal em Avanos entrou em crise nos últimos anos. Segundo ele, é tradição na vila que a criança comece a trabalhar aos 11 anos. Mas uma das exigências da União Europeia para que os turcos possam entrar no bloco é, não por acaso, a redução do trabalho infantil. É a antiga e tradicional Turquia em choque com a modernidade e a abertura para o Ocidente.

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