Marina Valle/Arquivo Pessoal
Marina Valle/Arquivo Pessoal

Cercado de água

Grand Roque é a ilha principal do arquipélago - dali, partem lanchas para os 'cayos', ilhotas de cenário exuberante, e 'bajos', bancos de areia com pouco além de você e seu guarda-sol

MARINA VALLE / LOS ROQUES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2012 | 03h10

Éramos seis - duas francesas e dois casais de brasileiros - espremidos num bimotor da Chapi Air, partindo de Caracas com destino a Los Roques, no Caribe venezuelano. A aeronave mais parecia uma Kombi com asas e o som do motor - pó-pó-pó -, contribuía para a analogia.

Ganhando uma altitude de 1.500 metros, sobrevoávamos um mar azul-marinho agitado. Vinte e cinco minutos depois, uma geografia diferente no horizonte chama nossa atenção. "Ces't pas vrai!", disse a francesa Matilda, enfermeira de Bordeaux, sem acreditar no que via. Todos os rostos se colaram na janelinha: uma barreira de corais emoldurava um colossal espelho turquesa pontilhado por ilhotas, bancos de areia, lanchas e veleiros que rabiscam de branco todas as nuances de azul das águas.

Pousamos em Gran Roque, a principal ilha onde ficam todas as pousadas, aos pés de um monte rochoso - daí o nome, "grande rocha". Antes da abertura do Parque Nacional do Arquipélago de Los Roques, em 1972, o lugar vivia exclusivamente da pesca. A atividade é ainda importante para a economia local - representa 90% da produção nacional de lagostas. Mas é principalmente do turismo que vivem os cerca de 1.800 habitantes do arquipélago. O posto de destino número um do Caribe venezuelano, que nos remotos anos 1980 eram da popular Isla Margarita, é hoje de Los Roques, que recebeu em 2011 cerca de 60 mil visitantes, segundo dados do Conselho Comunal de Los Roques.

Antes de alcançarmos a guarita, onde se deve pagar a entrada do Parque Nacional (180 bolívares fortes, equivalente a R$ 85 no câmbio oficial), os funcionários das pousadas já estavam a postos, nos esperando para transportar com seus carrinhos nossas bagagens pelas ruas de areia. Pousadas, casas simples de moradores, mercadinhos, agências de mergulho, restaurantes e bares se espalham entre quatro avenidas paralelas, marcadas pelo barulho dos geradores.

As cerca de 60 hospedagens são acanhadas, com não mais que dois pisos, porém decentes e acolhedoras, bem ao estilo das pousadinhas domiciliares de Fernando de Noronha (PE) e Caraíva (BA). Quase todas trabalham com sistema de pensão completa e têm chuveiro frio - mas Wi-Fi não falta. O que as difere são a conservação dos aposentos e a qualidade dos serviços e da comida. Há desde quartos-butique, equipados com TV de LCD, cama box e dock para iPod, até acomodações só com ar condicionado - necessidade básica em Los Roques, onde a temperatura não costuma sair da casa dos 30 graus.

De 'cayo' em 'cayo'. Como chegamos às 10 da manhã, ainda tínhamos um dia inteiro pela frente. O desejo de se atirar naquelas águas cristalinas era tão ardente quanto o sol. A ilha de Gran Roque em si não tem areias atraentes, portanto é necessário seguir de lancha para pegar praia nos cayos (ilhotas) ou nos incontáveis bajos, como são chamados os bancos de areia, sem quaisquer vegetação ou árvores.

A extensão do parque abarca 365 ilhas, "uma para cada dia do ano", como me disse o biólogo Yuruaní Fuentes, que conheci no barco para Dos Mosquises, onde fica a Fundação Científica de Los Roques. Mas vale saber que apenas 25 estão abertas para o turismo, o suficiente para se deslumbrar com a beleza das paisagens. Alguns cayos abrigam bases de pesquisa científica e casas particulares - os tais imóveis "burgueses" que o presidente venezuelano Hugo Chávez disse querer expropriar, quando, em outubro de 2011, anunciou que pretendia "nacionalizar" o paraíso caribenho.

Os passeios em Los Roques partem por volta das 9 horas do píer ao lado do aeroporto (na realidade, só uma pista de pouso e decolagem). O barqueiro desembarca um casal aqui, outra turma ali, ajuda a montar o guarda-sol e vai embora. No mesmo esquema pinga-pinga, retorna para buscar o pessoal no fim do dia. Para Madrisquí e as Francisquís del Medio e de Abajo, as mais próximas de Gran Roque (5 minutos), as pousadas geralmente incluem os transfers no pacote. O informativo pregado na parede da recepção listava ainda uma dúzia de passeios, mais distantes e cobrados à parte (em média 160 bolívares fortes, cerca de R$ 75). Vale a pena: eles nos levaram aos cantos mais idílicos do arquipélago. Combine no dia anterior, para não ficar sem lugar na lancha.

Marmita esperta. No primeiro dia de dolce far niente, começamos de leve e escolhemos Francisquí del Medio. O almoço foi enviado para ser feito na praia, embalado em porções individuais dentro de um cooler - outro item indispensável em Los Roques, já que a maioria das ilhas não conta com restaurantes ou quiosques. Os funcionários das pousadas os transportam nos carrinhos até o píer e os acomodam nas lanchas.

Caprichada, nossa "marmita de praia" trazia salada ou pasta fria, sanduíches, frutas, biscoitos, refrescos e Soleras, a cerveja número um de Los Roques. Se porventura você fechar uma pousada que não inclui o lunch box, o que é minoria, o Arrecife Café, ao lado do píer, dispõe dessa facilidade (200 bolívares fortes por pessoa ou R$ 94, com sanduíche, sobremesa, frutas, água e duas cervejas). Com ele ninguém corre o risco de passar o dia com fome ou sede para, com perdão do trocadilho, morrer na praia.

As noites em Grand Roque são agradáveis, acariciadas por uma brisa boa. Crianças brincam pelas ruas, jovens se encontram na pracinha e as mulheres se reúnem, regradamente, numa ruela próxima à lagoa para jogar a Loteria de Objetos, espécie de bingo ilustrado que dá o prêmio de 700 bolívares (R$ 330) por noite.

Há poucos restaurantes e algumas pousadas acabam abrindo os seus para o público. O El Galeón (das 17 horas à meia-noite, com reservas), na Pousada Natura Viva, tem menu de três e quatro pratos focado em pescados, por cerca de 450 bolívares (R$ 210). Mas vale a pena optar por pensão completa ao fechar o pacote de hospedagem. O menu do jantar, com entrada, prato principal e sobremesa, surpreende. Nossa cozinheira, Ana, preparava ceviches, ratatouilles, pescados e frutos do mar grelhados, além de doces caprichados, como tiramisú e mousse - receitas que aprendeu com o italiano Giorgio Serloni, proprietário da Acquamarina, onde nos hospedamos.

Em ambiente familiar, as refeições eram servidas em mesas comunais, momento em que os hóspedes compartilham as experiências do dia e jogam conversa fora. Cinco dias - confira a sugestão de itinerário ao lado - é tempo suficiente para curtir o ócio nas ilhas próximas e descobrir cantos escondidos, como Cayo de Água e Boca de Cote, com cenários que lembram A Lagoa Azul (1980), com Brooke Shields. Com uma semana ou mais você consegue repetir os cayos e até se aventura a passar um dia num bajo - dessa vez ao estilo de Tom Hanks, no filme Náufrago (2000).

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