Viagem

Conheça Chiloé, o cenário chileno da nova série da Globo

Ao sul do Chile, província manteve preservados arquitetura singular e costumes seculares. Agora, está em evidência na série ‘Os Dias Eram Assim’

18/04/2017 | 05h00    

Igor Giannasi - O Estado de S. Paulo

Casas construídas sobre palafitas, típicas de Chiloé

Casas construídas sobre palafitas, típicas de Chiloé Foto: Igor Ginnasi//Estadão

CASTRO - Ao sul do Chile, um local de ares bucólicos e arquitetura marcante reserva surpresas para quem troca destinos turísticos mais tradicionais no país – como a capital Santiago, Deserto de Atacama ou as estações de esqui do Valle Nevado. Formado por um conjunto de mais de 50 ilhas, a província de Chiloé reserva áreas de natureza intocada e hotéis charmosos. 

Castro, a capital, dá as boas-vindas com suas casas que seguem estilo similar, com telhas de madeira revestindo as paredes. Também no mesmo padrão, as palafitas na área central, às margens do Oceano Pacífico, enchem os olhos com o colorido de suas pinturas.

Foi essa arquitetura singular que chamou a atenção de Carlos Araújo, diretor artístico da série Os Dias Eram Assim, que acaba de estrear na TV Globo. A produção passou duas semanas na região em janeiro – na trama, Renato (vivido por Renato Góes) é obrigado a se mudar para o Chile. Ali, ele acaba se envolvendo com a médica Rimena (Maria Casadevall).

A madeira, aliás, define a cultura do arquipélago desde quando os povos nômades desbravaram o território com suas embarcações. Antes da colonização pelos espanhóis, não havia o conhecimento do metal e os indígenas criaram um sofisticado método de encaixe das estruturas de madeira sem a necessidade do uso de pregos. 

A técnica foi incorporada na construção de igrejas – são cerca de 50 no arquipélago – após a chegada de missões jesuíticas na região, nos séculos 17 e 18. A Unesco reconheceu 16 delas como Patrimônio da Humanidade, considerando as igrejas de Chiloé como “exemplos excepcionais da bem-sucedida fusão das tradicionais culturas europeia e indígena para produzir uma forma única de arquitetura de madeira”.

Em 1936, porém, um incêndio de grandes proporções destruiu boa parte das palafitas em Castro. Quase que renascendo das cinzas, a partir dos anos 1980, com o apoio do governo federal de então, os casebres restantes passaram por um processo de reforma e revitalização que resultou na criação de charmosos hotéis, cafés e galerias de arte onde antes só havia moradias.

No início deste ano, inclusive, o arquiteto local Edward Rojas, de 65 anos, foi agraciado com o Prêmio Nacional de Arquitetura 2016 – algo considerado uma quebra de paradigma no país. Ele mesclou a tradição dos carpinteiros locais com novos elementos, sem desfigurar as características chilotas, em projetos como o Museu de Arte Moderna (MAM), em Castro, a Cocineria de Dalcahue, e a reformulação e recuperação de palafitas e igrejas. “Buscamos um equilíbrio entre o velho e o novo, o tradicional e o contemporâneo.”

Lugar de gaivotas. No idioma indígena williche, Chiloé significa “lugar de gaivotas”, mas não são só elas que aparecem pelo arquipélago. Rota migratória de diversas espécies de aves, como flamingos, a região foi visitada pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), durante a viagem que serviu de base para escrever o livro A Origem das Espécies

Para ter um contato mais próximo com a natureza, o Parque Nacional de Chiloé, a 60 quilômetros de Castro, e o Parque Tantauco, no extremo sul da maior ilha, em Quellón, são os mais indicados. Não é difícil encontrar nos hostels e hotéis opções de excursões com trekkings, cavalgadas e passeios de barco. Como o arquipélago fica numa região de clima temperado úmido, é sempre bom levar uma capa para não ser pego desprevenido pela chuva durante as atividades. 

 

Arco-íris duplo visto do quarto do hotel Tierra Chiló

Arco-íris duplo visto do quarto do hotel Tierra Chiló Foto: Igor Giannasi/Estadão

SAIBA MAIS

Aéreo: SP – Castro – SP: R$ 1.239 na Latam, com conexão em Santiago. Castro está a de 2 horas de voo da capital chilena.

Terrestre: alugar um carro é uma das opções para se locomover em Chiloé. Na Rentacars.com, um modelo econômico para sete dias sai a partir de R$ 1.279 no cartão.

 

Clima: o inverno, entre junho e agosto, costuma ser a estação mais chuvosa. Nessa época, o sol nasce por volta das 8h30 e se põe às 16h30. Já no verão, o amanhecer é mais cedo, às 6 horas, e o dia pode ficar claro até as 23 horas. A temperatura anual, em média, fica em torno dos 11 graus, mas pode chegar aos 25 e 26 na estação mais quente. 

 

Site: bit.ly/visitechiloe.

ONDE FICAMOS

Tierra Chiloé. Da ampla janela, a vista parece ser a de um grande lago, circundado por áreas verdes e algumas poucas construções. Na verdade, o que se vê do quarto do hotel Tierra Chiloé é uma parte do Oceano Pacífico, já que a construção está localizada na península de Rilán. Vez ou outra, o cenário é incrementado com um arco-íris duplo logo depois de uma das chuvas típicas da região.

A arquitetura do hotel-butique homenageia a cultura local das palafitas em sua fachada de filetes de madeira. Por dentro, o design ganha ares contemporâneos e confortos como spa, jacuzzi, sauna seca e úmida e sala de massagens. No restaurante, o cardápio mescla cozinha internacional com pratos típicos, como o tradicional curanto.

O local passa por um processo de ampliação para dobrar os atuais 12 apartamentos. A reforma deverá ser concluída no início do segundo semestre. O hotel fecha durante a baixa temporada, de maio a outubro. Estadia mínima de três diárias, a partir de US$ 1.390, com traslado de Castro, todas as refeições, open bar e duas excursões. 

*O repórter viajou a convite do Turismo do Chile.

De olhos bem abertos no Bosquepiedra

Local reserva trilha no lado oeste do arquipélago, na Ilha de Cucao

Elena Bochetti, responsável pelo parque privado Bosquepiedra, em Cucao 

Elena Bochetti, responsável pelo parque privado Bosquepiedra, em Cucao  Foto: Igor Giannasi/Estadão

CUCAO - O cajado de madeira na mão demonstra a intimidade de Elena Bochetti com a natureza. Na caminhada pela mata, é o instrumento que ajuda a responsável pelo Bosquepiedra, em Cucao, no lado oeste da ilha principal do arquipélago de Chiloé, ao conduzir os visitantes do parque privado de preservação ambiental. 

Acredite: você também vai precisar de um. Os aventureiros (oito pessoas no máximo) recebem bastões de trekking profissionais para realizar a trilha. O objeto é muito útil, especialmente se o passeio for acompanhado pelas típicas chuvas da região, que deixam a terra úmida e escorregadia – o repórter comprovou isso, se equilibrando após alguns deslizes. Todo o percurso é composto de passarelas, apoiadores e pontos de observação.

São mais de 30 espécies de árvores, com destaque para caneleiras e aveleiras, num total de 10 hectares (100 mil metros quadrados) de parque. Nada melhor do que ficar com os sentidos atentos para desfrutar dessa imersão verde. O aroma de uma folhagem, a “fofura” da terra que cobre um entrelaçamento de raízes, o som da água da corredeira, a coloração surgida do desgaste de uma rocha... 

A mata nativa, explica a guia, tem formação secundária, originada por cima da vegetação que restou das queimadas provocadas pelos antigos colonos, nos anos 1940. Durante o trajeto, Elena mostra exemplos da força da natureza: árvores que brotaram por cima de troncos afetados pela ação do fogo. 

“A ideia é que não seja apenas um conhecimento intelectual, nós perseguimos que as pessoas tenham um compromisso com a preservação ambiental”, diz ela, que deu início ao parque em 1991. Nascida em Santiago, Elena foi criada no sul do Chile e, desde pequena, manteve uma relação de proximidade com a natureza do local. 

De volta às raízes. Ao ingressar na faculdade de agronomia, em Veneza, na Itália, percebeu a necessidade de preservar a região onde cresceu – e começou a correr atrás do projeto assim que voltou da Europa. “Não havia dinheiro, não havia luz elétrica, não havia telefone, não havia nada”, conta. Naquele momento, o dinheiro de um fundo governamental de preservação ambiental tirou a ideia do papel.

No primeiro ano de funcionamento, ela lembra, apenas 75 pessoas passaram pelo parque. Já em 2016, o número foi multiplicado por sete: 525 visitantes – metade deles, estrangeiros. Parece pouco? “Não é muito. Porém, nosso objetivo não é ser um turismo massivo”, explica.

Os passeios pelo bosque ocorrem todos os dias, às 11 e às 15 horas, mas é preciso fazer a reserva por telefone ou e-mail. As visitas guiadas são em espanhol, inglês e alemão. Os ingressos custam 10 mil pesos chilenos (cerca de R$ 50) para adultos e 6 mil (cerca de R$ 30) para crianças.

Caiaque ou cavalo para contemplar a natureza

Um passeio na Península de Rílan, uma área rural de belas paisagens na cidade de Castro

Cavalgada, passeio oferecido pelo hotel Tierra Chiló 

Cavalgada, passeio oferecido pelo hotel Tierra Chiló  Foto: Igor Giannasi/Estadão

CASTRO - Café da manhã tomado, agasalho – de preferência, impermeável – no corpo, é hora de ir para a entrada do hotel, ponto de encontro para a excursão. Em um grande mapa estilizado do arquipélago de Chiloé, o guia nos localiza: estamos na Península de Rílan, uma área rural de belas paisagens na cidade de Castro. Passa um pouco das 9 da manhã e o grupo ali reunido se dirige a um pequeno cais logo abaixo do prédio.

Os trajetos entre as cidades e ilhas de Chiloé nos passeios oferecidos pelo hotel Tierra Chiloé são feitos pela embarcação batizada de Williche (nome dos povos indígenas da região). Todo feito de madeira, o barco foi construído por carpinteiros locais, utilizando o metódo tradicional da cultura chilota. 

A bordo, queijos diversos e iguarias à base de salmão acompanham os viajantes até chegar ao destino, a ilha de Quehui. A vista é distraída com os montes verdejantes ali, uma revoada de pássaros acolá e até algum animal marinho que submerge tão rápido que nem é possível identificá-lo. Um passageiro diz que é um pinguim. Não há como ter certeza – olhos mais atentos da próxima vez. 

 

Passeio de barco até a Ilha de Quehui 

Passeio de barco até a Ilha de Quehui  Foto: Igor Giannasi/Estadão

Já na ilha, o participante escolhe a atividade, como caminhada ou andar de caiaque. Como Chiloé tem vocação para o trekking, caminhar pelas trilhas da região é uma boa oportunidade para apreciar o verde de seus montes e, de quebra, saborear as amoras encontradas pelo caminho. Os mais aventureiros podem usar caiaques para deslizar nos lagos formados pelas águas do Oceano Pacífico. 

Outra opção de atividade oferecida pelo hotel – dessa vez, em terra firme – é a cavalgada. Seja para um cavaleiro de primeira viagem ou um montador já experiente, o passeio permite conhecer os campos da Península de Rílan, passando por suas criações de ovelhas e plantações de macieiras. Pode ser feito na versão mais rápida, de meia hora, ou, para os mais animados, de até 2 horas. 

CURIOSIDADES

O nordeste de Chiloé é uma das áreas com mais alto índice de baleias azuis do Hemisfério Sul. A melhor época para vê-las é de setembro a abril – siga para a baía de Puñihuil, em Ancud, a 1 hora de Castro, para passeios de barco.

Museus para entender as tradições locais

Três museus para conhecer melhor a região chilena

Fachada da Casa Museu Francisco Coloane, em Quemchi 

Fachada da Casa Museu Francisco Coloane, em Quemchi  Foto: Igor Giannasi/Estadão

CASTRO - A preocupação com a preservação do patrimônio cultural de Chiloé não se restringe às suas casinhas de madeira. É possível conhecer um pouco mais da cultura e dos costumes do lugar visitando seus museus – 18 em todo arquipélago. Nós visitamos três deles. 

Museu das Tradições Chonchinas

museodechonchi.blogspot.com

Instalado em uma casa de madeira do início do século 20, ao estilo neoclássico chilota, o museu da cidade de Chonchi reproduz como era vida de seus habitantes naquela época, com móveis e objetos doados por seus moradores. 

As mulheres da casa se reuniam no costurero, cômodo onde faziam trabalhos manuais como tricô e bordados. Ali também se aqueciam com o calor emanado pelo braseiro, um buraco no chão.

Ao lado, está a mesa posta na sala de jantar, com talheres e cerâmicas antigos. Há também um quarto, com camas, armário e objetos de higiene pessoal. 

No salão principal, onde eram recebidas as visitas, um piano vertical ajuda a compor o ambiente. Na parede, retratos dos antigos proprietários da residência, Don Clemente Andrade e sua mulher, Verónica Álvarez. 

Casa Museu Francisco Coloane

casamuseocoloane.cl

Graças aos esforços da diretora da Biblioteca de Quemchi, Teolinda Higueras, o museu em homenagem ao escritor chileno Francisco Coloane (1910-2002) se tornou realidade. O autor de, entre outras obras, Terra do Fogo, livro de contos que mostram o embate entre o homem e a natureza no sul chileno, nasceu na cidade e cresceu na casa dos avós. O museu simula a moradia de Coloane, já que a palafita original ficou inabitável depois que a maré subiu quando a região foi atingida por um terremoto, em 1960. 

Para conseguir uma casa com as características de uma construção da época, Teolinda organizou uma atividade comunitária muito comum em Chiloé: a minga. Em julho de 2010, uma equipe de TV francesa registrou os moradores levando a casa para o local onde funciona ao museu, ao lado da biblioteca. Cenas do documentário são exibidas no museu: da proteção das estruturas até os bois arrastando a casa para o mar, onde foi puxada por um barco para o destino final. 

Museu de Arte Moderna (MAM) 

mamchiloe.cl

Um grupo de artistas e arquitetos chilenos criou, em 1988, o Museu de Arte Moderna em Castro, mas foi só dois anos depois que ele ganhou sede própria: um galpão abandonado, doado pela prefeitura, projetado nos anos 1970 e localizado no parque municipal. 

O conceito arquitetônico do museu mescla o antigo e o moderno. A fachada mantém as características originais, mas uma intervenção de grafite em uma das paredes dá a dica do que se verá no interior. Nas amplas salas de exposição, as estruturas do telhado à mostra transparecem o passado.

Patrimônios sacros

Quatro igrejas para conhecer na região

Interior da Igreja de São Francisco de Castro 

Interior da Igreja de São Francisco de Castro  Foto: Igor Giannasi/Estadão

Igreja Nossa Senhora do Rosário de Chonchi 

Localizada no centro da cidade de Chonci, foi construída em 1893. Estrelas brancas destacam-se na abóbada azul arqueada – já um tanto desgastada, apesar de a reforma da igreja ter sido concluída em 2009. Uma faixa na parede traz fotos mostrando todo o processo de restauração do local. Tornou-se Patrimônio da Unesco em 2000.

São Francisco de Castro 

A igreja chama a atenção no centro de Castro por seu colorido – a maior parte é pintada de um amarelo forte e a ponta das duas torres, de roxo. Mistura características neogóticas e clássicas com a tradição chilota. O projeto é do arquiteto italiano Eduardo Provasoli, e foi construída entre 1910 e 1912. No ano 2000, também foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Nossa Senhora do Rosário de Chelín 

A construção atual data de 1888. Tem inspiração no estilo neoclássico e as colunas de madeira da área interna foram pintadas para parecer mármore. Fica próxima do cemitério local, onde grande parte dos túmulos têm o formato das casinhas típicas de Chiloé. 

Foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco no ano de 2001.

Nossa Senhora das Dores de Dalcahue

É uma das mais antigas igrejas de Chiloé, construída em 1858 no lugar onde havia uma capela jesuíta. O templo atual começou a ser construído em 1893 e foi concluído apenas em 1902. Caracteriza-se por ter uma entrada com nove arcos. Tornou-se Patrimônio da 

Humanidade pela Unesco em 2000.

Costumes e culturas

Para se acostumar com termos como 'minga', 'curanto', 'chicha'...

Preparação do prato curanto, que leva mariscos, frango, linguiça e batatas

Preparação do prato curanto, que leva mariscos, frango, linguiça e batatas Foto: Igor Giannasi/Estadão

1. Minga

Talvez pela distância do continente – são duas horas de voo entre Santiago e o aeroporto de Castro –, Chiloé preserva fortemente suas tradições. Um exemplo é a minga, reunião de moradores para realizar alguma tarefa em prol da comunidade. Geralmente, o grupo se junta para transportar – isso mesmo, transportar – uma casa de um lugar para outro. Na Casa Museu Francisco Coloane há um vídeo que demonstra o passo a passso.

2. Curanto 

Vai ser difícil para um turista presenciar uma minga, mas há a chance de experimentar um prato que também faz parte do ritual. O curanto é a mais tradicional receita chilota e tem uma maneira peculiar de preparo. Em um buraco na terra, coloca-se a brasa coberta de pedras, onde serão cozidos os ingredientes – mariscos, carnes de frango e porco e batatas –, distribuídos em camadas alternadas com folhas de nalca, planta típica de folhas largas.

3. Chicha 

A bebida típica de Chiloé é a chicha, espécie de cidra de maçã. Diferentemente de outras regiões do Chile, em que as videiras produzem vinhos premiados, as condições climáticas do arquipélago não são as melhores para cultivar uvas. Não deixe de provar quando estiver na região – vai ser difícil encontrar a chicha feita de maçã no resto do país, já que a mais comum é mesmo a feita de uvas.

CURIOSIDADES

No caminho para o Parque Nacional, prove as deliciosas empanadas do Tradiciones Morelía. O negócio é familiar, tocado por Morelía Nain, suas duas filhas e o marido. Peça a de salmão – afinal, o Chile é um dos maiores produtores do peixe.