Arte|Estadão
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Com tutela ou com liberdade?

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2016 | 03h00

A primavera garante os primeiros brotos das begônias que nosso correspondente tem em sua residência no Condado de Essex. Mr. Miles, no entanto, prepara suas malas para viajar rumo a Budapeste, onde vai visitar o sábio Andor Stern, que mora, aliás, em terras brasileiras. Miles adora ouvir as histórias de Andor, autor de uma frase que nosso viajante adotou. “Quando estreitamos os limites, Miles, a vida fica mais difícil. Quanto mais aberto formos a tudo, inclusive ao que inicialmente não nos pareceu certo, mais viveremos em harmonia.”

É a esse universo sem limites e, unfortunately, com fronteiras demais, que o peregrino britânico tem dedicado sua existência.

A seguir, a pergunta da semana: 

Querido Mr. Miles: já tenho netos, creio que sou culta, mas meu inglês não é bom. Por isso, prefiro sempre viajar com excursões do que sozinha. O senhor pode compreender essa  opção? - Rosangela Assis Boni, por e-mail.

“Indeed, dear Rosangela! O importante é que você viaje. E como se diz culta, which I believe, não vejo qualquer inconveniente na maneira como você o faz. Há inúmeras maneiras de conhecer o mundo e todas elas, exceto as mesquinhas – as que visam impingir ideias, ideais e credos – são, usually, muito valiosas.

Veja bem, darling: quando se viaja com uma excursão ou qualquer outro tipo de pacote fechado, você está exercendo a escolha pelo destino. Mas nunca pelos detalhes. Se o passeio incluir programas limitados, você será refém de cada um deles. Mas, com cultura e informação, terá a oportunidade de aproveitar os momentos livres para suas próprias investidas. 

Digamos que você seja uma apreciadora de vinhos. Nos restaurantes incluídos em excursões, raramente a carta vai lhe oferecer a variedade ambicionada. E, quando houver algum vinho destacado, ele terá o chamado tourist price – uma pequena metáfora para roubo à mão desarmada.

Nesse caso, será melhor você fugir um pouco do roteiro e buscar seus próprios experimentos, aqueles que garantem a química de uma viagem especial.

Quando se viaja sob tutela (e esse é o caso), só a informação qualificada pode salvar o passageiro de alguns problemas recorrentes. Já contei, certa vez, nesse espaço, sobre questões divertidas (mas não corretas) relacionadas a guias de viagem, desses que usam microfones na primeira fila dos ônibus. A maior parte deles, I must say, é formada por gente correta, informada e muito bem graduada. Mas existem alguns personagens que nos enganam direitinho. 

Certa feita, em viagem pelo interior da República Checa, comecei a estranhar os dados fornecidos pela simpática Slata. Comparando suas observações com os dados de um livro confiável, descobri que Slata ampliava tudo em cerca de 30%, no nobre intuito de valorizar seu país. Assim, a ponte de 300 metros chegava a quase 400. A montanha de 1.200 metros subia para perto da 1.500. And so on... 

Quando viajamos por nossa própria conta, temos maior arbítrio. Podemos decidir, of course, todos os passos de nossa viagem e só o acaso pode mudar nossos planos – situação, by the way, muito bem-vinda. Que tal uma parada inesperada para ver um artesão de rua concebendo um trabalho incomum? Ou uma não-planejada visita a uma livraria que, pela vitrine, pareceu-lhe interessante?

A liberdade, darling, faz parte do viajar. Mas a tutela também pode fazer, se assim você se sente melhor. 

Qual é o sentido de viajar sem alguém que a conduza pela mão, se você correr o risco de sentir-se perdida ou assustada? Keep going, dear Rosangela. O mundo fica mais amplo quando cada pessoa decide visitá-lo.”

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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