Viagem

Comer, dormir, pegar carona com moradores: conheça a onda do turismo compartilhado

Ao consumir serviços vendidos diretamente por moradores, o viajante ganha em autenticidade, mas vale ficar atento: não há garantias convencionais nessa relação

29/09/2015 | 05h00    

Mônica Nóbrega - O Estado de S. Paulo

Diogo e Mariana oferecem jantares para muitos no EatWith

Diogo e Mariana oferecem jantares para muitos no EatWith Foto: Eder Turziani

Um apartamento ou quarto na casa de alguém. Carro para passear e a companhia de um morador que conhece os melhores lugares. Mais tarde, jantar com comida caseira no aconchego de uma sala de estar, com pessoas interessantes que contam histórias do mundo. Detalhe: você está bem longe de casa. E pagando por tudo isso. 

Ideias de economia compartilhada têm mudado a forma de viajar dos turistas caçadores de tendências. O modelo é baseado em trocas comerciais entre pessoas físicas que se conectam por meio das plataformas digitais – sites ou aplicativos. Hotéis, restaurantes e city tours regulares deixam de fazer parte da viagem, ou pelo menos de parte dela. Muda até o jeito de se deslocar. Tudo em nome da autenticidade das experiências e, em alguns casos, da economia de dinheiro. O medidor de qualidade são resenhas online.

O site de acomodações AirBnB e o aplicativo Uber de corridas em carros particulares viraram os expoentes dessa tendência ainda controversa. Mas considerada sem volta por estudiosos. “O viajante tem buscado experiências, e a tecnologia permite novas formas de vivê-las”, diz a professora de turismo e hotelaria da Universidade Anhembi Morumbi, Thais Funcia, que pesquisa tecnologias digitais e a decisão de compra do consumidor do turismo.

Previsões. Feito pelo buscador de passagens aéreas Skyscanner com um grupo de 56 profissionais de turismo e tecnologia, o relatório Viagens no Futuro: Ano 2024 afirma que “as viagens colaborativas – que usam redes sociais e sites de avaliações na hora do planejamento – serão a forma escolhida pelos viajantes para satisfazer seus desejos de explorar um destino através do olhar dos locais”.

Outro ensaio de futurologia, da empresa de tecnologia para viagens Amadeus, buscou prever os perfis dos turistas em 2030. O documento Future Traveller Tribes 2030 mapeou seis “tribos”; ao menos três são consideradas simpáticas à economia compartilhada nas viagens: a dos conectados buscadores de capital social, a dos puristas culturais em busca de imersão no desconhecido, e a dos viajantes éticos, atentos a impactos ambientais e sociais. 

“Como consumidores, esperaremos foco maior na experiência e na responsabilidade ética”, prevê o diretor de vendas da Amadeus, Paulo Rezende.

Reduzir o desperdício é um aspecto positivo que emerge da economia compartilhada – ou colaborativa, como também é chamada. O morador vende aquilo que já tem – as horas em que seu carro está desocupado, o quarto vazio, seu conhecimento da cidade, sua refeição. O turista ganha contato mais genuíno com aspectos da vida local. 

Espinhos. A principal crítica é à informalidade da relação de compra e venda. “Será preciso regular para garantir a igualdade na competição com a cadeia profissional do turismo”, considera o professor do Centro Universitário Senac, Fernando Kanni, que pesquisa turismo e sustentabilidade. “Há conflitos e nós teremos de fazer o debate sobre essa novidade, porque não tem volta”, afirma a professora Thaís Funcia. 

“Não sou contra”, diz a presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), Magda Nassar. “Mas pode ser uma decepção se o turista, por falta de assessoria profissional, não souber exatamente o que está comprando.” 

É mesmo um aspecto que merece atenção. Segundo o Procon de São Paulo, como não se trata de uma relação comercial convencional, problemas com serviços da economia compartilhada precisam ser analisados caso a caso. A segurança dos dados pessoais nos ambientes digitais é outra preocupação. 

Não há garantias, mas o gostinho de autenticidade do turismo compartilhado pode ser um instigante convite a descobrir o mundo sob outros olhares. Avalie os prós e contras – nós mostramos o caminho.

COMER

Jantares de Alessandro Francês. Desde 2003, ele já recebeu 340 convidados

Jantares de Alessandro Francês. Desde 2003, ele já recebeu 340 convidados Foto: Divulgação

Desde março, a psicóloga Mariana Haddad, de 29 anos, e o chef de cozinha Diogo Fernandes, de 32, já receberam em seu pequeno apartamento paulistano visitantes franceses, americanos, italianos e um chinês. Foram três jantares organizados para forasteiros, nos quais serviram pratos brasileiríssimos como caruru de Cosme e Damião, vatapá e moqueca paraense, receita que leva tucupi e jambu.

Os estrangeiros encontraram o casal por meio da plataforma EatWith.com (“o AirBnb da comida”, dizem publicações mundo afora) e pagaram US$ 35 por refeição, por pessoa. Para Diogo, que trabalha cozinhando em eventos, a experiência vem garantindo alguma renda extra e, principalmente, muito aprendizado. “Mostramos um pouco da gastronomia brasileira”, diz ele. “E aprendemos sobre o mundo, a cultura das pessoas.”

O site EatWith nasceu em 2012 em Tel-Aviv, para logo em seguida ceder ao chamado do Vale do Silício e mudar para São Francisco, onde recebeu um aporte de US$ 8 milhões da gigante companhia de investimentos americana Greylock Partners. Hoje, está em 150 cidades – no Brasil são quatro, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói e Brasília. O slogan “reserve um lugar na mesa do chef” pretende valorizar os cozinheiros inscritos na plataforma, que são aceitos depois de uma seleção baseada nos pratos que pretendem vender, espaço de que dispõem e habilidades para receber.

O comissário de bordo Alessandro Francês (foto), de 43 anos, do Rio de Janeiro, é outro anfitrião brasileiro no EatWith. Desde 2013, recebeu 340 convidados. Suas refeições começam na mureta da Urca, em frente à porta de sua casa, onde convida a um brinde antes da sequência de “pratos brasileiros com releitura contemporânea”, como o pão de mandioca e receitas que levam tapioca, pimenta dedo-de-moça, bacuri e outros ingredientes nacionais. “Estou acumulando amigos, devendo viagens para toda parte do mundo”, brinca. O comissário chegou a convidar uma turista da Estônia, que depois do jantar iria dormir na rodoviária, para ficar em sua casa até o horário do ônibus.

Alessandro faz também o caminho contrário. “Sempre vou jantar em casas de moradores quando viajo”, conta.

Filhotes. Há uma versão brasileira do EatWith. O novato Dinneer. com lista anfitriões em 37 cidades pelo País – fonte bem servida de jantares completos de temáticas nacionais e internacionais: galinhada com pequi em Goiânia (R$ 22 por pessoa), tailandês em Porto Alegre (R$ 55 por pessoa), noite de cervejas e hambúrgueres em Niterói (R$ 132).

Em Nova York, Chicago, Washington D.C. e na indefectível São Francisco você pode reservar os jantares em casas de moradores pela plataforma Feastly, lançada em 2014.

DORMIR

Casa completa. Essa, no Guarujá, está no Alugue Temporada

Casa completa. Essa, no Guarujá, está no Alugue Temporada Foto: Alugue Temporada

Presente em 190 países, com 1,5 milhão de acomodações cadastradas e 40 milhões de hóspedes já abrigados, o AirBnB.com virou uma espécie de padrinho da economia do compartilhamento no ramo do turismo. A empresa, criada em 2008 em São Francisco, tem, hoje, o terceiro maior valor de mercado da indústria de hospedagem, sem ser dona de nenhuma propriedade. Virou referência mundial no serviço de colocar em contato proprietários de imóveis e quartos e turistas que buscam uma hospedagem fora dos hotéis.

Governos locais mundo afora vêm travando batalhas para conseguir que o AirBnB pague impostos. O que não afeta em nada o sucesso da plataforma. Sua fama só faz crescer, tanto que em algumas cidades e em determinadas épocas, é difícil encontrar uma acomodação do jeito que você quer, no valor que pode pagar.

Alternativas. Sim, elas existem. A megacomunidade de viajantes TripAdvisor.com.br opera desde 2008 o seu serviço de aluguel de imóveis de temporada. São 720 mil acomodações pelo mundo e um selo, o Pague no TripAdvisor, que garante devolução do dinheiro caso o imóvel não esteja disponível na data e hora combinada.

O AlugueTemporada.com.br, subsidiário no Brasil do serviço americano HomeAway.com, tem no catálogo 24 mil imóveis no Brasil e 1 milhão no exterior. A plataforma é restrita a casas, apartamentos e flats – não há quartos.

 

PASSEAR

Que tal "alugar" um amigo para te mostrar os melhores lugares da cidade?

Que tal "alugar" um amigo para te mostrar os melhores lugares da cidade? Foto: Rent a Local Friend

Ter um amigo que mora na cidade para onde vai viajar equivale a ganhar um prêmio na loteria turística. Ao lado de um morador descobrem-se os sonhados lugarzinhos, aqueles que nunca são invadidos pelas hordas de turistas e que dão à viagem o sabor de experiência autêntica.

Pois na falta do amigo de verdade, é possível alugar um. O Rent a Local Friend tem atuação internacional – são 35 cidades –, mas a origem é brasileira. Foi criado como blog de dicas espertas pela jornalista Alice Moura enquanto morava em Londres e, há três anos, virou plataforma profissional que conecta turistas e moradores dispostos a alugar seu tempo como “amigos”. O que significa levar o visitante para passear e receber por isso. 

Hoje, são cerca de 1,5 mil local friends (amigos locais) na rede, disponíveis para fazer passeios que duram 4 ou 8 horas. Os próprios local friends definem seus preços – que podem ser vistos no perfil de cada um no momento da busca. Também há filtros por interesses, como natureza, crianças, fotografia e outros, e por idiomas. O pagamento e as avaliações que os turistas deixam depois dos tours são feitos no site – o aplicativo está com lançamento marcado para outubro. 

Com a mesma orientação, colocar moradores e visitantes em contato para combinar passeios, o Tours By Locals, empresa de Vancouver, tem um diferencial: os preços são por passeio, não por pessoa. Assim, quem viaja em grupo tem a vantagem de pagar menos por um tour privado. São 1,6 mil guias em 134 países, escolhidos com base em fotos e no perfil de cada um, que descreve formação e experiências. O pagamento é online.

De tudo. WithLocals.com conecta visitantes e moradores guias na Índia e no Sudeste Asiático. Além de passeios personalizados e alternativos aos circuitos convencionais, a plataforma mistura outros serviços turísticos: tem a versão para comer na casa de um morador e a que permite agendar aulas de habilidades locais – como conceitos da medicina chinesa em Cingapura e confecção de lanternas de papel na Tailândia. 

APRENDER

Confeitar cupcakes, uma opção em Chicago

Confeitar cupcakes, uma opção em Chicago Foto: Dabble

Entre procurar uma escola formalmente estabelecida, pagar matrícula e ficar atrelado por vários dias ou semanas das férias, ou simplesmente agendar uma aula mais informal dada por um morador em sua própria casa ou espaço de trabalho, a segunda opção é uma ótima forma de ter um primeiro contato com atividades típicas de certos destinos turísticos. Aulas rápidas durante uma viagem são também uma forma de fazer amigos. 

Duas boas plataformas que atuam como catálogos de aulas rápidas têm foco nos Estados Unidos. Baseada em Nova York e presente também em Los Angeles e Chicago, a CourseHorse.com é uma startup com cerca de 50 mil opções de aulas. No ano passado, a empresa recebeu um aporte de investidores no valor de US$ 1,3 milhão.

A Dabble.co está renovando seu site – a nova versão estreia em outubro, junto com o aplicativo para Android e iOS. As aulas custam de US$ 15 a US$ 40. Quem seria mais indicado para ensinar a preparar bacon que um cozinheiro interiorano do Missouri, na cidade de St. Louis? 

TRANSPORTE

A 'nave espacial' de Katelin Schroeder passeia com turistas

A 'nave espacial' de Katelin Schroeder passeia com turistas Foto: Divulgação

O Uber enfrenta a ameaça de ser definitivamente proibido em São Paulo, mas segue firme e operante em 60 países. Nos Estados Unidos, há pelo menos outros dois serviços similares – ou seja, que conectam motoristas em carros particulares e passageiros em busca de uma corrida – bem consolidados.

O Lyft.com está em 60 cidades. Especificamente em Nova York, Los Angeles, São Francisco e Austin, oferece a opção de compartilhar o carro e os custos com desconhecidos que estejam indo na mesma direção. No caso do Sidecar, dividir o carro e o pagamento da corrida é exatamente o foco. Ao indicar o destino ao aplicativo, você recebe uma lista de corridas possíveis, com preço e a identificação do motorista. Está em dez cidades norte-americanas.

Sem locadora. Dividir o carro que passa muito tempo parado na garagem é a última moda em economia criativa na costa oeste dos Estados Unidos – a mesma região onde fica o Vale do Silício das startups. Nasceu em São Francisco o Getaround.com, um catálogo online e via aplicativo (inclusive para Apple Watch) de carros de moradores disponíveis para locação.

A ideia tem funcionado bem para jovens como Katelin Schroeder, cujo Honda Civic 2007 passava a semana na garagem, de onde só saía para viagens de fim de semana, especialmente para acampar no parque nacional Yosemite, o favorito da proprietária. Agora, a “nave espacial”, como Katelin apelidou, passa muitos dias em passeios com turistas.

Outro integrante da rede Getaround e proprietário de um Prius 2008, Curtis Roger define assim a sua relação com a plataforma: “Tenho um locatário regular, um fotógrafo que vem a São Francisco a trabalho. Ele acha que faço-lhe um favor deixando que use meu carro, e eu acho que ele é que está me fazendo um favor pagando para usar meu carro.”

O Getaround tem cerca de 1,5 mil veículos oferecidos para locação em quatro cidades dos Estados Unidos – São Francisco, Portland, Washington D.C. e Chicago – e acumula investimentos de US$ 40 milhões, dos quais US$ 24 milhões vieram no fim de 2014, da gigante do setor automotivo Cox Automotive.

O valor da diária, que começa em cerca de US$ 50, é similar ao preço mínimo das locadoras de veículos convencionais. A vantagem aparece principalmente para o aluguel por um curto período: em média, a locação custa entre US$ 6,50 a US$ 9 por hora para um modelo médio.

A plataforma RelayRides.com, também nativa de São Francisco e que já recebeu US$ 50 milhões em investimentos, tem funcionamento similar – e ainda os benefícios de ter carros disponíveis em 300 aeroportos (e 2 mil cidades) pelos Estados Unidos. A RelayRides oferece seguro para os envolvidos e incentiva o contato pessoal como forma de tornar a operação mais amigável e, portanto, segura e confiável. 

Carona. Em vez de seguir com o carro vazio, o proprietário anuncia sua viagem numa plataforma digital e angaria caroneiros, que pagam um valor em geral mais baixo que o das passagens dos ônibus intermunicipais e interestaduais. Funcionam assim os dois aplicativos de caronas compartilhadas mais consolidados do mercado brasileiro, BeepMe e Tripda – esse segundo tem ainda a funcionalidade que permite que mulheres motoristas e caroneiras se conectem e viajem apenas entre si.

Viagens entre mulheres são possíveis também no Blablacar.com, que opera em 19 países, a maioria na Europa, mas também no México e na Turquia. A rede tem 20 milhões de integrantes, segundo a empresa. Como exemplo, uma viagem entre Lisboa e Porto é anunciada a 15 euros. De trem, o mesmo trecho custa 30 euros na tarifa regular.

 

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CUIDADOS DE SEGURANÇA

l. Avaliações: leia resenhas sobre o morador, a hospedagem, a aula, o passeio; quanto mais numerosas e, claro, positivas, maior a chance de uma boa experiência.

 

2. Revisão: perguntar não tem contraindicação. Questione o dono do carro sobre as condições mecânicas e dê uma olhada geral para identificar danos pré-existentes. Retire pertences de outros.

 

3. Visível: marque encontros em lugares públicos e tenha um celular em mãos.

 

4. Instinto: se algo parece estranho, siga sua intuição e retire-se da situação imediatamente.