Confissões e ficções para uma viagem que deu errado

Ninguém é tão 'cool' quanto George Clooney em 'Amor Sem Escalas'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2017 | 04h05

E u prefiro viajar sozinho. Quem faz a minha mala ainda é a minha mãe. Tenho dificuldade para escolher entre beef or chicken. Fui confundido com um traficante de drogas no aeroporto de Barcelona. Detesto comprar ímãs de geladeira para amigos e parentes. Tive pensamentos impuros na Capela Sistina. Passei uma noite caçando baratas em um quarto de hotel em New Orleans. O item número 1 da minha nécessaire é manteiga de cacau. Gastei um dia de viagem tomando cerveja sem álcool em Berlin. Criei um quiproquó em um famoso fast-food de Chicago depois de pedir kidnapping (sequestro) em vez de napkin (guardanapo). Quase morri engasgado com um pretzel no Central Park... 

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Como se vê, nunca tive uma viagem perfeita, uma viagem dos sonhos, irretocável, daquelas que a gente manda emoldurar e coloca na parede da sala. Nas minhas andanças, sempre tem alguma coisinha fora do roteiro, um imprevisto, um atraso, uma dor de barriga ou atentado. Confesso uma certa irritação quando leio relatos de viagens onde tudo funciona como um relógio suíço, o hotel é maravilhoso, o restaurante é incrível, o metrô é eficiente e o viajante tem sempre aquele arzinho de George Clooney (em Amor Sem Escalas). Não caras, vocês também não são o George Clooney arrastando uma mala de rodinha por um aeroporto do Texas. Ninguém de verdade é...

Nada de novo no front: amo viajar. Quem não gosta? A ideia de embarcar em um voo e explorar outro país é o que me faz trabalhar um ano inteiro, acordar cedo, engolir sapos e superar o tédio dos dias repetidos. Mas tudo vale a pena se as férias não são pequenas. Tudo vale a pena se no fim são 10, 20 ou 30 dias de novos ares e descobertas. 

A partir de agora, uma vez por mês, estarei aqui para dar o meu testemunho de tudo aquilo que deu maravilhosamente errado, daquilo que não aconteceu como planejado e que, por isso mesmo, tornou-se inesquecível. Também pretendo fazer uma selfie das minhas próprias manias e esquisitices quando estou pagando de turista e me perdendo por aí. 

O melhor da viagem não será postado no Instagram, o melhor da viagem vai estar marcado feito um arranhão, uma cicatriz ou uma ressaca homérica. O melhor da viagem é aquilo que não deveria ser publicado. Mas será...

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