Conversando com as baratas

De algum lugar não mencionado em sua correspondência desta semana, o homem mais viajado do mundo responde a pergunta da semana:

O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2012 | 03h07

Mr. Miles: o que realmente faz a diferença no serviço de uma companhia aérea?

Clarisse B. Ortega, Campinas (SP)

"Well, my dear Clarisse, tenho passado tanto tempo em aviões de carreira que, confesso, já me sinto como certos frequentadores de, as you say, botequins que já chamam as baratas pelo nome. Quando as coisas se banalizam dessa forma, o senso crítico se esvai e sua pergunta me levará a ter mais atenção nas próximas viagens. O que posso lhe assegurar é que, unfortunately, foi-se o tempo do glamour nas alturas. Tenho visto cenas arrepiantes 30 mil pés acima do nível médio dos oceanos.

Recentemente, um cordato passageiro sentado ao meu lado, depois de uma sequência de pontapés de seu vizinho de trás, que pretendia dissuadi-lo de reclinar a poltrona, perdeu o fairplay. Após algumas admoestações verbais bem educadas, o cavalheiro ajoelhou-se na poltrona e desferiu uma saraivada de safanões no espaçoso elemento e o que se viu a seguir foram cenas lamentáveis de pugilato. Thank God, consegui salvar meu whisky e a tripulação apartou os combatentes.

O fato, my dear, é que coisas como essas acontecem porque o avião, na maioria dos casos, não é mais um living room, mas um meio de transporte deselegante como um trem de subúrbio. Essas companhias aéreas americanas que têm trogloditas uniformizados são um bom exemplo do que digo. À elas, by the way, prefiro as companhias esculhambadas, nas quais, mal o jantar (jantar?) é servido, os tripulantes desaparecem para nunca mais voltar.

Acompanhei um caso interessante nesse tipo de aerovia. O senhor ao meu lado terminou a taça de vinho que lhe fora servida na refeição logo após o sumiço dos comissários. Tentou, então, chamá-los pelo botão sonoro criado com esse propósito. Nada ocorreu. Em seguida, vendo que eu o observava, disse-me: 'Quer ver a tripulação aparecer?'

E, sem mais delongas, tirou um cigarro do bolso e o acendeu como se estivesse em Trafalgar Square. Gostei de sua ousadia, mas, em poucos segundos, já havia uma fila de passageiros prontos para denunciá-lo aos tripulantes. Os alcaguetes de sempre, of course.

Eis que, finalmente, um comissário apareceu dizendo: 'You can not smoke here!' (O senhor não pode fumar aqui!). Ao que, educadamente, meu vizinho respondeu, apagando o cigarro em um resto de água que tinha em seu copo: 'Oh, I didn't know it and I'm very sorry... May I have another glass of wine, please?' (Oh, eu não sabia e peço desculpas. O senhor me poderia trazer outro copo de vinho?). Os alcaguetes sentaram e o ardiloso passageiro, of course, ganhou o vinho que desejava.

Quanto às aeromoças, my dear Clarisse, salvo valorosas exceções, tornaram-se pessoas comuns (em outros tempos, elas eram notavelmente incomuns, believe me). Muitas delas notavelmente agressivas e distantes do tempo em que foram moças.

Como não há forma de se produzir alta gastronomia no aquecedor de uma galley e como os assentos tornam-se mais estreitos na exata proporção em que as pessoas ficam mais largas, o único diferencial possível seria, de fato, a delicadeza do serviço. Alguém que lhe sorrisse genuinely, que esticasse seu cobertor durante a noite e que o acordasse com a felicidade que merecem os namorados depois de uma noite de amor. Já houve tratamento assim, a long time ago.

Um dia, I'm sure, um jovem executivo brilhante há de recuperar esses valores. Para mim, as you know, importa-me os destinos. Chegar, conhecer, rever. Nos aviões, sometimes, travo contato com gente interessante. Senão, converso com as baratas."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.