Corredor das artes

Mais do que uma boa desculpa para conhecer Haia, a reabertura de importantes museus da cidade é a chance de ver - e sentir - de perto obras-primas de Escher, Rembrandt e Vermeer

MÔNICA MANIR / HAIA, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2014 | 02h06

Diga lá: o que sabemos de Haia? Talvez que Rui Barbosa ganhou ali o apelido de Águia de Haia, pelo seu discurso em defesa da igualdade dos Estados. De Roterdã, não mais que se trata do principal porto marítimo da Europa. Afinal, é para Amsterdã que vai a maior parte dos brasileiros que visita o país - quase 120 mil em 2013.

Pois Haia e Roterdã têm os seus porquês nessa rota. A primeira acaba de reabrir seu museu mais charmoso, o Mauritshuis, para o qual retornou a famosa Moça com Brinco de Pérola. A segunda ostenta uma criatividade impressionante na arquitetura, típica de quem precisa fazer malabarismos num país com a maior densidade populacional do continente: 488 pessoas por quilômetro quadrado.

Além disso, tanto uma quanto outra nunca perderam a majestade. Conhecida como a cidade da paz e da justiça, Haia é a sede do governo holandês e abriga nos seus bairros elegantes muitos membros da família real e mais de 100 embaixadas. Roterdã tem um nobre passado de reconstrução e atividade mercantil intensa. Um passeio de barco até aquele milhão de contêineres no porto dá a dimensão de que a gente mal sabe o percurso do que consome.

As duas ainda dividem uma vida noturna agitada, cafés, lojas de departamento de luxo, acolhedoras ruelas cheias de lojinhas e, sim, museus. Museus com o que há de melhor da Era de Ouro holandesa e do modernismo, com peças de todas as outras correntes, com investimentos na surpresa, na interatividade e na educação, nos lembrando que há mais arte no dia a dia do que sonhamos em imaginar.

*A repórter viajou a convite da Hollande Alliance

MAURITSHUIS: A volta dos clássicos
Não era uma pré-estreia cinematográfica, mas não deixava de ser. Moça com Brinco de Pérola retornava à sua casa depois de provocar filas homéricas em fãs ocidentais e orientais, gente como o 1,2 milhão de japoneses que replicaram 2,4 milhão de vezes no Facebook a emoção de ver ao vivo a inspiração do filme de Peter Webber.
Audioguia em mãos, lá fui eu e mais um tanto de espectadores ao segundo andar do Mauritshuis. Direto ao ponto, direto a Vermeer, direto ao mistério. Ao ver um naco do turbante azul, me emocionei. Meisje met de Parel, seu nome em holandês, me olhava de lado sobre o fundo preto, a boca entreaberta querendo dizer sabe-se lá o quê, um ponto branco em cada junção dos lábios, a sombra na maçã esquerda do rosto e um foco de luz saindo do brinco de gancho. "Parece mais prata que pérola", pensei, meio em dúvida quanto às minhas referências de joalheria. Falando em referências, lembrei de imediato o que tinha lido sobre Vermeer: um dos raros artistas cujo trabalho transcende tempo e espaço.
Transcendeu, por supuesto. Mas o fato de Vermeer voltar a seu país deu outro tom à visita. O pertencimento fez com que tudo se encaixasse, incluindo a reforma de 30 milhões pela qual o museu Mauritshuis passou durante dois anos. O casarão do século 17, no centro de Haia, mudou as janelas e a climatização e transcendeu a sua imexível porta-com-porta com o Parlamento holandês para a porta do vizinho do outro lado, um prédio do princípio do século 20, onde foram acomodadas oficinas e biblioteca e onde ficarão as exposições temporárias.
De acintosamente diferente no prédio original, apenas o elevador transparente que une a rua ao lobby subterrâneo, no qual estão a lojinha, a cafeteria e a nova entrada de acesso aos dois edifícios. Mudanças sutis reavivaram as paredes e o teto, e a iluminação valorizou não só a Moça mas todas as demais obras da Era de Ouro neerlandesa - entre elas Lição de Anatomia, para a qual seguiram os aficionados por Rembrandt, e O Pintassilgo, de Carel Frabitius, cujo interesse tem tudo a ver com o best-seller de Donna Tartt (The Goldfinch), vencedor do prêmio Pulitzer de 2013, que a Companhia das Letras lança em setembro.
No livro, um menino de nome Theo sobrevive ao atentado a um museu no qual morre sua mãe e do qual ele leva uma obra que ela amava - O Pintassilgo. "O quadro o arrastará para o submundo da arte", anuncia a sinopse, sinistramente. Uma curiosidade: tente achar o Pintassilgo no filme de Weeber; ele está lá, contracenando com Scarlet Johannson.
Intimista. Não é à toa que tais pinturas atraem romancistas (o filme de Webber se inspirou no livro de Tracy Chevalier). A diretora do museu, Emilie Gordenker, lembra que muitas obras dessa época não exigem conhecimento religioso nem mitológico. Refletem cenas do cotidiano burguês, o mundo doméstico, uma atmosfera mais íntima que, aliás, o Mauritshuis também cultiva. As salas do museu são pequenas, e você pode chegar perto do seu objeto do desejo sem pito nem apito.
Mas Emilie atina para um problema, se esse sucesso todo transbordar. Antes da reforma, diz ela, a audiência era de 260 mil visitas ao ano. Longe deles chegarem a 1 milhão de pagantes. Esse povo prima pela qualidade, não pela quantidade, pensei. Povo sensato, justo e esperto, o povo de Haia.

PANORAMA MESDAG: Questão de perspectiva 
Uma escada giratória, sem grandes rodeios, e voilà: a praia! Mais precisamente, Scheveningen. Mais precisamente ainda, o badalado balneário no século 19, em 360 graus, com areia branca e fofa quase ao alcance dos pés. Se você subir a escada giratória falando, vai cair em silêncio. Se subir em silêncio, vai cair das tamancas. O Panorama Mesdag é mais uma mágica neerlandesa.
Surgem pescadores puxando redes, soldados, vilarejos, carruagens, burrinhos em fila, dunas, igrejas, mirantes, pontes, cúpulas, um farol e, no meio disso tudo, ponteada na areia, uma mulher atrás de um cavalete. Uma referência a Sientje Mesdag-Van Houten, mulher de Hendrik Willem Mesdag, autores do painel.
Hendrik e Sientje se casaram em 1856. Vinham de uma família de comerciantes, estavam com o futuro garantido, quando ele decidiu, com o apoio dela, seguir sua veia artística aos 35 anos. Pintou muitas cenas marítimas, e patrocinava os artistas da Escola de Haia. O convite para retratarem Scheveningen surgiu quando os panoramas eram um hype. Lá por 1870, as telas gigantescas atraiam milhões de pessoas na Europa com cenas bíblicas e batalhas pintadas a óleo.
O Panorama Mesdag atingiu 14 metros de altura numa circunferência de 120 metros. Hendrik se esmerou no mar, enquanto Sientje cuidava da praia. Em 1.º de agosto de 1881, o casal lançou a obra. Mas, quatro anos depois, a empresa que a gerenciava faliu. Hendrik comprou seu próprio panorama em 1886 e, desde então, seus descendentes cuidam do empreendimento.
Do ponto de vista do encantamento, o lucro é certo. A luz natural faz o panorama mudar de figura a cada estação. No inverno, é como sentir a brisa fria. No verão, o sol invade o cenário e você sente o impulso de pular a cerca para buscar uns sapatos de madeira falsamente esquecidos ali. De longe, parecem tamanho 35; de perto, são umas bacias enormes. Questão de perspectiva. O Panorama Mesdag, enfim, é isto: uma artimanha da perspectiva. Um truque que eles até revelam como funciona, mas você faz questão de esquecer logo depois.

ESCHER IN HET PALEIS: Onde pássaros viram tartarugas
Há certo desconcerto no início: tem alguma coisa estranha aqui. Pássaros se transformam em peixes, que se transformam em pássaros, que viram tartarugas, que viram cavalos, que passam a ser pássaros, que se desdobram em casebres e nesse ritmo vai até que uma fluente correnteza d'água sobe por uma torre em vez de descer. Aí você ri. E passa o restante da viagem chamando de Escher tudo o que é ilusão. Um relógio analógico sem ponteiro? Escher! Um prédio de estrutura invertida? Escher! Um político que pense no povo? Escher!
Nascido em 1898, filho de engenheiro, esse holandês aprendeu a lidar com madeira desde cedo, mas não ia bem na escola. E a matemática não era o problema… Maurits Cornelis Escher era cobra nos números e na geometria, o que fica evidente no Escher in Het Paleis, museu que Haia ostenta na Lange Voorhout.
É um museu-palácio, a residência de inverno de 1901 a 1934 da rainha-mãe Emma e o escritório das três gerações seguintes de poderosas (Wilhelmina, Juliana e Beatrix) até 1984. Tem um dos bulevares mais bonitos da Holanda e abriga uma série de eventos culturais agora, no verão, especialmente para as crianças.
Voltando ao acervo fixo de Escher, a joia da coroa entre as 105 obras é Metamorphose III, circunferência de 7 metros de diâmetro na qual dá para sacar o que ele queria dizer com infinitude. Repare também nas suas paisagens italianas e esferas de madeira antes de ir ao 2.º andar, onde a pedida é interagir com espelhos, quebra-cabeças, projeções na parede e um quarto de chão enxadrezado, levemente inclinado, no qual anões parecem Golias, e Golias parecem anões. Há um painel de fotos no qual os visitantes brincam com a inversão de tamanho. Tem noiva (de véu e grinalda) subjugando marido, criança puxando orelha de adulto...
Outra marca do lugar são os lustres de cristal de dimensão formidável. Um tubarão, uma estrela, um contrabaixo, uma caveira, um guarda-chuva, uma aranha, um cavalo-marinho se reproduzem ad eternum pelos espelhos. A guia de sotaque britânico me toma delicadamente o caderno de anotações e escreve o nome do designer: Hans van Bentem - aquele a quem Madonna encomendou um revólver para pendurar em casa. Revólver de mentira, claro. Só para reverter conceitos.

Em jogo interativo, visitantes criam sua própria exposição
O Gemeentemuseum criou um esquema para atrair crianças e jovens a ponto de eles não implorarem para ir embora ou chafurdarem no tédio de um celular. A mágica tem dois nomes: entrada livre para menores de 18 anos e Wonderkamers, um jogo interativo por computador.
Na última etapa, os touchscreeners criam a sua própria exposição. O diretor do museu, Benno Tempel, brinda com eles o sucesso da mostra - e tudo vai para um site em que as imagens podem ser compartilhadas.
A produção da garotada está relacionada ao acervo, que concentra quase 300 trabalhos de Mondrian somados a outros intérpretes do De Stijl, a mais importante contribuição holandesa para a arte moderna. O Victory Boogie-Woogie, por exemplo, quadro inacabado de Mondrian em homenagem a Nova York, motiva os alunos a dançarem o Boogie-woogie e conhecer in loco, ali do lado, o que estão vendo virtualmente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.