Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Coyoacán, onde a arte encontrou a revolução

Distrito na Cidade do México preserva as casas-museus de Frida Kahlo e Diego Rivera e a de Trotsky e Natália Sedova

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2017 | 04h30

Coyoacán chegou a mim, pela primeira vez, por meio de um cubano. O distrito, a quase uma hora de metrô do centro histórico, é o cenário de boa parte da elogiada obra de Leonardo Padura, O Homem que Amava os Cachorros. O romance trata do encontro trágico de dois personagens históricos, Leon Davidovich Trotsky, o líder do Exército Vermelho na Revolução Russa, e seu carrasco, Ramón Mercader.

Apesar de o livro ser uma ficção, Coyoacán não aparece na trama por acaso. Foi realmente ali que, na década de 1930, Trotsky e Natália Sedova, sua companheira, encontraram abrigo após serem deportados da União Soviética por Stalin. Primeiro, moraram com Diego Rivera e Frida Kahlo na Casa Azul (há menções sobre a época no local). Depois, mudaram-se para uma casa vizinha, às margens do Rio Churubusco, onde o exilado passou seus últimos dias até ser assassinado por Mercader dentro dela, em 1940. 

Por isso, quando encontrei finalmente a casa descrita por Padura (na esquina das ruas Viena e Abasolo há uma placa indicando as direções) foi como se tivesse sido transportada à primeira metade do século 20 e todos aqueles personagens estivessem ali, vivenciando comigo um mundo em ebulição. 

 

O acervo que a casa-museu preserva inclui fotografias históricas em versões originais (já que muitas delas foram adulteradas por Stalin em seus anos no poder), objetos pessoais de Natália e Trotsky, manuscritos, mobília e utensílios domésticos da época, além de caricaturas modernas do líder político.

Para quem não conhece a história da Revolução Russa e de um de seus mais importantes líderes, vale aguardar a visita guiada e gratuita pela casa, marcada pelos tiros que sofreu durante a estada de Trotsky e pelas adaptações feitas para tornar o lugar mais seguro – ou uma verdadeira prisão. O jardim, parte importante do dia a dia da família, continua vivo e guarda os restos mortais do casal. Entrada: 40 pesos ou R$ 7; bit.ly/casatrotsky

 

Frida e Diego. Quem gosta de arte e quer conhecer um pouco da vida dos dois mais populares pintores mexicanos deve apostar em dois museus: o Museu Frida Kahlo, em Coyocán, e o Museu Estúdio Diego Rivera, em Barranca del Muerto, a cinco quilômetros do primeiro.

O Museu Frida Kahlo funciona na casa onde a pintora nasceu e viveu grande parte de sua vida. Colorido, iluminado e arborizado – o jardim merece atenção especial –, o local abriga pinturas da artista de todas as fases de sua carreira e objetos pessoais, como cartas, diários, livros, louças, pincéis e uma infinidade de artigos de decoração. No Dia dos Mortos, em novembro, é montado ali um altar com as famosas caveiras, flores e figuras da tradição mexicana, como esqueletos, animais alados e insetos. 

Também estão expostos a cadeira de rodas e o colete ortopédico que Frida usou ao longo de anos e que tanto marcaram sua obra. As filas para a entrada são longas, mas é possível evitá-las comprando tíquetes no site (200 pesos ou R$ 34).

 

 

Composto por duas casas geminadas, o Museu Estúdio Diego Rivera foi construído no início dos anos 1930 para Rivera e Frida, por um dos mais importantes arquitetos mexicanos da época, Juan O’Gorman. As duas casas são ligadas por uma passarela no telhado, e uma longa fileira de cactos cerca as construções.

O amplo estúdio de Rivera emociona quem já assistiu, em algum momento, imagens do pintor trabalhando. Lá estão grandes esqueletos de papel machê, objetos de cerâmica pré-colombiana e outros de uso pessoal, como pincéis, balança para pesar tinta em pó e cadeiras. 

Ao subir um andar pela estreita escada, o visitante encontrará o quarto de Rivera, bastante simples, mas original. Repare na janela estreita, retangular, que rodeia o teto e permite uma visão do sol durante quase todo o dia. Custa 31 pesos ou R$ 6, e as visitas guiadas são gratuitas.

 

Noite agitada. Quando a visita aos museus acabou, decidimos aproveitar para conhecer melhor o distrito antes de seguir o longo caminho de volta – do metrô até os museus são cerca de 20 minutos caminhando. Um acerto: o andar descompromissado nos trouxe uma das noites mais animadas da viagem, cultural e gastronomicamente falando. 

A primeira parada foi no Mercado de Coyocán, a três quadras da Casa Azul. Como já era fim de tarde, muitas das barracas estavam fechadas. Mesmo assim, não saímos de lá sem experimentar um belo ceviche. 

Seguimos para o centro de Coyoacán, onde fica o Jardim Centenário, inaugurado em comemoração aos cem anos da independência mexicana. Amplo, com jardins bem cuidados e vida cultural vibrante, está rodeado por uma feira de artesanato e dezenas de bares e restaurantes. Nosso escolhido foi a taqueria El Chamán, onde provamos taco recheado de carne de costela e queijo e degustamos o mezcal, a versão menos destilada (e mais saborosa) da tequila. / BRUNA TONI, COLABOROU BIA REIS

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