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Cuzco irrompe em festa e exalta raízes em junho

FÁBIO VENDRAME - O Estado de S.Paulo

03 Junho 2014 | 02h 06

Inti Raymi (Festa do Sol), a peregrinação de Qoyllur Rit'i e a renovação da ponte suspensa Q'eswachaka movimentam os Andes e atraem turistas à região nesta época do ano

O frio aumenta, a chuva cessa, o sol alcança o ponto mais alto no céu. Esfria a Cordilheira dos Andes, brilham suas gentes. Junho chega, os andinos celebram. O mês mais festivo da temporada requenta esperanças. Dias irrompem em alegria. Máscaras, trajes, símbolos, bandeiras, comidas. Montanhas coloridas, montes de pessoas bailam, brindam, trocam, compartilham. Ninguém fica com mais, ninguém fica com menos. São todas parte de um só contexto, parte de uma tradição viva movida a fé e reciprocidade. Cuzco, alma e coração inca, vira o epicentro de buliçosos festejos.

Alguma popularidade entre os brasileiros o Inti Raymi já desfruta há certo tempo. A Festa do Sol este ano terá seu ápice na terça-feira, dia 24. Começa no Qoricancha, avança sobre Huacaypata e culmina em Sacsayhuamán. Desde o hasteamento da wifala, pavilhão do arco-íris, a mega-encenação refaz a trajetória e resgata o júbilo inca.

Desfiles, exposições, danças, encontros gastronômicos, leitura de poemas em quéchua, apresentações musicais e outras manifestações culturais - serão 260 no total - preenchem o calendário junino de ponta a ponta. Em meio a tudo, no dia 17 a procissão de Corpus Christi ganha as ruas da cidade. É a hora também de compartilhar o chiriuchu, o prato emblemático cusquenho que congrega ingredientes da serra, da selva e da costa - síntese da integral expansão inca pelo território peruano.

Tal é o sincretismo religioso entre cruz cristã e chakana (a cruz escalonada dos Andes) que a festa católica deflagra a maior romaria dos Andes, peregrinação que todo fiel deve cumprir ao menos uma vez. Pouco mais de oito quilômetros nas quebradas da cordilheira para alcançar Taitacha Qoyllur Rit'i. O Senhor da Estrela de Neve espera a multidão a 4.500 metros de altitude, nas imediações do nevado Sinakara, perto do Apu Ausangate (6.372 metros sobre o nível do mar), cuja esplanada acolhe as barracas de milhares de peregrinos em busca da purificação.

Ao som de zampoñas, quenas e tambores, há oferendas a Pachamama, a Jesus Cristo, a Nossa Senhora de Fátima, ao Taitacha de Tayankani. Bebida (sem álcool), comida e abrigo para todos. O ritual mais contundente está reservado aos ukukus (ou pablitos), personagens ora mascarados, ora de cara limpa, iniciados em etéreos conhecimentos insondáveis.

Apenas eles estão aptos a subir o nevado ao amanhecer e extrair dele grandes blocos de gelo, que, de origem sagrada, serão usados para irrigar a terra, fertilizar as mulheres, encher as pias batismais das igrejas ou simplesmente beber para purificar corpo e alma. A essas figuras transcendentais cabe também a tarefa de manter a ordem em meio ao aparente caos da romaria e, em última instância, aplicar castigos a quem cometer infrações ou falar ao respeito com as forças da natureza. 

Enquanto transcorrem os eventos e a aglomeração toma conta da esplanada das montanhas endeusadas, os xamãs abrem os canais de comunicação com as forças superiores, os elementos da natureza, dedicando oferendas e orações à Mãe Terra (Pachamama). Dotados de liderança espiritual e mergulhados de forma anônima em meio à multidão, eles podem passar despercebidos a olhos desacostumados. Não costumam usar nenhum símbolo ou indumentária que os diferencie. 

Antes, contudo, em outro rincão dos Andes cusquenhos é levado a cabo um ritual repetido há mais de 600 anos: a renovação anual da Q'eswachaka, ponte suspensa de 28 metros de extensão e 1,20 metro de largura sobre o Rio Apurímac, feita de fibras vegetais e capaz de suportar o peso de "15 lhamas e um pastor" ao mesmo tempo. O trabalho é feito no sistema conhecido por mink'a (minga), ou seja, por todos compartilhado e sem nenhum tipo de remuneração. 

Cada família se encarrega de tecer e confeccionar um pedaço da estrutura - os tecelões, chamados de chakaruwaq, mantêm viva as técnicas empregadas na fabricação da ponte e as transmitem às novas gerações. Depois, cabe a habilidosos engenheiros equilibristas fazer a substituição da passarela antiga pela nova em um teste de força, paciência e maestria. E, assim, a recompensa fica pronta: a ancestral ponte manufaturada segue interligando os caminhos do Qhapaq Ñan (a extensa rede de caminhos andina) e aproximando as comunidades que vivem em lados opostos do rio. 

Este ano, a troca da passarela natural tal e qual se fazia na época inca será no domingo (8 de junho). Reconhecida em 2012 pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, a tradição tem despertado cada vez mais o interesse dos turistas. Há pacotes para acompanhar o evento em meio a quatro dias de festa e a certeza de que, no ano que vem, tudo recomeça.

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